Por enquanto

kátia borges
09.01.2022, 07:00:00

Por enquanto

A experiência: cover da Legião no Parque da Cidade em 2017. Fui sozinha, não apenas desacompanhada. Sozinha mesmo. Lembro que o local estava escuro e bem cheio e que o vocalista era um ator. Não o maravilhoso André Frateschi, que eu assisti em 2015, em Itacaré, incendiar o palco com Marcelo Bonfá na bateria e Dado Villas-Lobos na guitarra. Tratava-se, na real, de um musical.

O ator Bruce Gomlevsky interpretava as canções e havia uma dramaturgia por trás com assinatura de diretor famoso, não que o espetáculo fosse ruim. Soube até que segue em cartaz por 13 anos, uma longa temporada só interrompida pela pandemia em 2019. Lembro de quando ouvi pela primeira vez o “álbum branco” da Legião e senti uma pegada meio Joy Division em algumas músicas.

Achei de imediato que a sonoridade da versão original de “Por enquanto” — que seria regravada magistralmente por Cássia Eller em 1990 — remetia diretamente ao arranjo de “She Lost Control”. Opinião compartilhada pelo crítico musical Tony Aiex, do blog “Tenho mais discos que amigos!”, embora ele não trace exatamente o mesmo paralelo em seus textos e inclua ‘Será” no pacote de influências de Ian Curtis.

É inegável que havia ali muito de The Smiths também, e de outras bandas do pós-punk que não eram tão próximas a mim, como a Gang of Four. Não, não quero escrever sobre Morrissey, que é como aquele amigo de adolescência com quem se tem agora diferenças irreconciliáveis. Quando Barata me deu de presente o vinil de “Hatful of Hollow”, eu já conhecia ao menos um verso deles.

Guilherme havia rabiscado à caneta em um guardanapo numa das mesas do lendário Café Teatro: “eu me visto de preto porque é assim que eu me sinto por dentro”. Nos anos oitenta, nós dois andávamos frequentemente assim, vestidos de preto da cabeça aos pés. Não existia então nenhuma parafernália virtual de acesso aos outros, os amores, as brigas, os humores, eram todos olho no olho.

Então foi bem essa canção, “Unloveable”, lançada em 1986 em The queen is dead, que eu resgatei para mim bem nessa época do show cover/musical da Legião Urbana no Parque da Cidade. Localizado perto de onde moro, o parque foi reinaugurado em 2016 e se tornou um dos meus lugares prediletos, finalmente reformado e aberto, passagem entre duas comunidades socialmente díspares.

Eu costumava fazer longas caminhadas por suas alamedas, sombreadas por pés de Ipês, Oitis e até mesmo Pau Brasil, considerada a árvore-símbolo do país e dos nossos primeiros esbulhos. De vez em quando eu parava de andar, para uma pausa e uma água, na Praça Confúcio, que tem no centro uma estátua enorme do mestre chinês. Doada em 2004 à Bahia pela China, veio diretamente de Shadong.

A primeira vez que escutei falar em Confúcio foi na infância, em um programa dos Trapalhões, no qual Didi fazia troça e se dizia discípulo. Tempos depois, ao ser abençoada com o conhecimento do I Ching, eu soube que foi justamente Confúcio que organizou parte dos ensinamentos contido no Livro das Mutações e quem o batizou com esse nome. Naquela noite, o mestre chinês foi meu abrigo na solidão absoluta do Parque da Cidade. "Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens". 

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