Por que Salvador e Feira de Santana têm sotaques diferentes?

baianidades
20.03.2022, 06:00:00

Por que Salvador e Feira de Santana têm sotaques diferentes?

Especialista em Linguística da Uefs explica fatores que resultaram em variações de fala, e afirma que diferenças estão diminuindo. Entenda

Elevador Lacerda, em Salvador, e Torre do Tomba, em Feira (Fotos: Tayse Argôlo/Arquivo CORREIO e Embasa/Divulgação)

Um famoso professor de História, que não quero identificar, me faz um relato anedótico que demonstra, para mim, o quão Salvador e Feira de Santana estão cada vez mais próximas. Citando recorrentes viagens à Princesa do Sertão – são 108 km de distância, via rodovia –, conta que ao desembarcar por lá, sempre aparece alguém para perguntar: ‘você é de que interior?’ “Como se eles fossem capital!”, revolta-se.

Entendo a fala do mestre, mas não há motivo para se incomodar, afinal, Feira é, ao menos de maneira informal, a capital do interior, e com potencial para mais! Aliás, aqui mesmo em Baianidades, já colocamos isso em discussão no texto “Feira de Santana é tão parecida com Paris que deveria ser a capital da Bahia”, tese brilhantemente defendida pelo meu parceiro André Uzêda.

Arrisco até comentar que, pensando nisso de forma mais séria, dificilmente você iria estranhar, hoje em dia, Feira como capital oficial da Bahia. E um dos  motivos, embora não esteja escrito, vem sendo dito pelas ruas, entre um bonjour e um au revoir: o sotaque das duas cidades está cada vez mais parecido! 

Sempre foi assim? Pode ter certeza que não, e é o que motiva este texto, nascido do meu convívio intenso com feirenses, barbarenses, jacuipenses, dos mais antigos aos noviços. Muita coisa mudou na forma de falar por lá, e acho importante explicar o que está acontecendo.

Deita na BR
Mas antes de voltar a esse ponto, precisamos viajar  algumas décadas atrás para demonstrar que, durante mais de metade da vida, Feira não trocou tanta ideia com Salvador. Emancipada há 188 anos, a alteza sertaneja manteve pequenas interações culturais, sociais e até econômicas com a Roma Negra, como explica o professor de História [dessa vez não é o professor Jaime Nascimento] Rafael Dantas. 

Ainda durante a graduação na Ufba, Dantas desenvolveu um projeto de pesquisa intitulado ‘Entre caminhos e encontros no interior baiano’, no qual destacava que antes da inauguração da BR-324, só ocorrida na década de 1940, essas ligações entre a SSA e FSA eram marcadas pelo uso de carroças, carros de boi. E nesse contexto, há diversos relatos sobre a dificuldade de percorrer o itinerário Feira-Salvador-Feira.

“Essas ligações existiam, de forma rudimentar, com os caminhos de terra. E depois, com as ferrovias, muda todo esse contexto”, pontua Dantas, citando a chegada, na segunda metade do século 19, da Bahia and São Francisco Railway, estrada de ferro que vai ligar Salvador a Alagoinhas e, depois, a cidades mais próximas de Feira, como Serrinha. 

Relatos de viajantes da era pré-BR, encontrados por Dantas, demonstram a dificuldade dos feirenses primordiais fazerem compras na capital – trajeto que hoje, num Celtinha, se faz em menos de uma hora.

“Há histórias de fazendeiros, por exemplo, que saíam para comprar móveis em Salvador - que era o referencial de comércio mais sofisticado, padrão europeu -, e narram toda essa odisseia de sair a cavalo das fazendas, ir com carroças até o ponto da estação mais próxima, embarcar em um trem, e vir de trem até Salvador. Passavam a semana aqui, compravam as coisas e voltavam”, menciona o professor, dando a dimensão do “isolamento geográfico” anterior à rodovia.

Acento sertanejo
Mas tal situação só era referente a Salvador, afinal, um isolamento geral não permitiria que Feira se tornasse a maior cidade do interior baiano, e o maior entroncamento rodoviário da parte de cima do Brasil.

“Feira de Santana é uma cidade que recebe muita migração interna, tanto de cidades da Bahia, principalmente do sertão (região sisaleira, entre outras), como de outros estados do Nordeste. Essa migração interna foi muito intensa entre as décadas de 50 e 80. E esses migrantes trouxeram consigo sua forma de falar que influenciou muito o falar local”, delimita Norma Almeida, professora de Linguística da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), que pesquisa sobre o assunto.

É ela também quem “denuncia” que o sotaque feirense vem perdendo antigas características, e se aproximando cada vez mais do de Salvador, principalmente entre os mais jovens.

“Hoje já percebemos uma diminuição das diferenças, que pode estar relacionada ao maior contato entre os dois locais (BR-324), aos meios de comunicação”, assinala a professora, que também é doutora em Linguística pela Unicamp. 

Mas quais são as características marcantes do sotaque feirense que estão caindo numa espécie de desuso por lá? “Um exemplo que pode ser dado é a pronúncia do ‘t’ e do ‘d’ diante do ‘i’. Em Feira, já tivemos mais grupos usando o que chamamos de pronúncia dental, como se pronuncia no sertão, sem o ‘chiado’. Hoje, esse tipo de pronúncia só se percebe entre alguns feirenses mais velhos e nos migrantes de outras regiões”, diz a professora, indicando a quem quiser se aprofundar no assunto o projeto ‘A língua portuguesa falada no semiárido baiano’, sediado na Uefs, com participação dela própria e das prós Zenaide Carneiro, Silvana Araújo e Eliana Pitombo.

Processo
Também há diferenças que não são necessariamente relacionadas ao sotaque, como o uso do tu em detrimento do você.

“Essa é uma marca bem feirense, mas que ocorre também em outras cidades do interior. Há uma tese de doutorado sendo feita sobre esse fenômeno e há estudos de mestrado. Esse uso muito disseminado do tu em Feira pode, é uma hipótese, estar relacionado à grande migração de nordestinos”, comenta a especialista, para a qual estamos no meio de uma série de mudanças, que ainda precisam ser melhor analisadas.

Entre elas, também está o apagamento do ‘r’ em final de sílaba, como falar ceveja ao invés de cerveja, o uso do ‘ni’ ao invés da preposição em, também muito comum por lá, entre outras escolhas particulares de cada cidade. “Outras palavras mais comuns em comunidades rurais podem ser encontradas na periferia de Feira, como o uso de ‘em riba’, ‘arrudear’. Seriam formas de falar da periferia influenciada por um falar mais rural”. 

Essa percepção é importante, afinal, Feira continua sendo uma zona de influência econômica para 75 municípios, de acordo com pesquisa do professor Sílvio Bandeira de Melo. “Penso que são zonas de mútuas influências linguísticas”, acrescenta Norma Almeida. 

Prova de que trocas sociais e culturais mais intensas têm influência no sotaque pode ser observada no caso de Alagoinhas, cidade com perfil semelhante ao de Feira, mas que tinha uma antiga ligação direta com Salvador, pela linha férrea. Fernanda, minha namorada, é alagoinhense, e mesmo que não tivesse ligação direta comigo, poderia ser tranquilamente escalada para atuar em ‘Ó paí, ó’, e ninguém de Salvador jamais perguntaria (como nunca perguntou) de que interior ela veio.

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