Quase metade dos baianos quebra isolamento no fim de semana de lockdown parcial

coronavírus
02.03.2021, 05:15:00
Bar no Engenho Velho da Federação teve que ser fechado na manhã deste domingo (28) por descumprir o lockdown parcial (Nara Gentil/CORREIO)

Quase metade dos baianos quebra isolamento no fim de semana de lockdown parcial

Na sexta-feira, 26, quando medidas mais duras começaram a valer, 31,1% ficaram em casa; o menor índice da pandemia

O final de semana do lockdown parcial na Bahia só conseguiu segurar pouco mais da metade da população do estado em casa. Segundo os dados da startup baiana InLoco, o índice de isolamento social no estado foi de 53,7% no domingo, 28. Antes, no sábado, foi de 46,2% e, na sexta-feira, 26, no primeiro dia de medidas mais duras para conter a disseminação do novo coronavírus no estado, o isolamento foi de apenas 31,1%, o menor desde o começo do isolamento social.   

Nesta segunda-feira, 01, o governo do estado renovou o decreto do fechamento dos serviços não essenciais e as restrições passaram a valer até a quarta-feira, 03. Em 338 cidades da Bahia, apenas atividades essenciais - comercialização de alimentos e remédios e serviços de saúde, segurança e transporte - estão permitidos. A renovação do decreto também permite a venda de bebidas alcoólicas, que havia sido suspensa entre sexta e domingo. Ficam suspensas, por sua vez, todas as atividades presenciais nos órgãos estaduais não enquadrados como serviço público essencial. Os servidores passam a trabalhar de forma remota (veja serviço mais abaixo).

O cálculo do índice de isolamento é feito através do serviço de geolocalização dos dispositivos móveis como celulares e tablets. Para Angelo Loula, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), pesquisador e cientista de dados do Portal Geovid-19, os números mostram que o lockdown ainda não teve o efeito esperado de fazer as pessoas se protegerem do vírus. Ele acredita que a população deixou de circular em estabelecimentos comerciais para realizar aglomerações em suas próprias casas, com vizinhos ou amigos.  

“De fato, as pessoas estão se movimentando menos, pelo menos em direção aos bares, restaurantes e shoppings. Por outro lado, pouco adianta elas se manterem em casa se estão chamando visitas. Reuniões familiares, com amigos, sociais, mesmo em casa, podem ser eventos de espalhamento do vírus. Elas acham que estão seguras por estarem em casa, mas tiram a máscara, bebem, conversam e tudo isso espalha a doença”, argumenta.  

Ainda assim, o índice de isolamento de 53,7% é o maior registrado no estado desde o dia 4 de abril de 2020, quando 54,6% das pessoas ficaram em casa. Para o pesquisador, isso mostra que o isolamento social tem crescido, mas está longe do ideal. “Significa uma mudança de comportamento das pessoas. É bom, mas o ideal é 70%, 80%, 90%... os efeitos disso a gente enxerga em 14 dias, com a redução de casos”, diz.  

No entanto, para o especialista em produção de informações da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), Rodrigo Cerqueira, o índice acima de 50% também pode ser considerado bom. O problema é que esse percentual só consegue ser atingido em dias de domingo, quando a circulação de pessoas na rua tende a ser menor. “Há uma tendência de redução nos dias úteis, mas nós avaliamos positivamente o percentual alcançado, muito por conta das medidas mais restritivas que vão, por enquanto, até o dia 03”, aponta.  

Variação do índice de isolamento social na Bahia desde o dia 1º de fevereiro de 2020 (Infográfico: InLoco)

Dados  
Com as medidas de isolamento, o índice baiano foi o terceiro maior de todo o Brasil, nesse domingo, perdendo apenas para Santa Catarina (55,43%) e Amazonas (53,81%). A média brasileira foi de 46,6%, o que mostra que não ficar em casa é um problema de nação. "Vários fatores contribuem para isso, como a nossa necessidade em comunicar melhor para as pessoas a gravidade do problema, as questões psicológicas e as econômicas. Não temos suporte para uma empresa ficar fechada por muito tempo e uma pessoa deixar de trabalhar", explica Loula.  

Para calcular o índice, a InLoco usa uma unidade de software integrada em aplicativos de celular. “A única informação coletada dos dispositivos móveis é a sua localidade”, garantiram na época de lançamento do serviço. “Esse talvez seja o mais preciso dado sobre movimentação e isolamento social. Já tem alguns pesquisadores e governantes que os utilizam para estudos científicos e também para determinar políticas públicas. É uma forma de monitorar”, explica Rodrigo Cerqueira.  

Mesmo assim, o professor Angelo Loula destaca que, para analisar esses dados, é importante levar em consideração possíveis inconsistências. “Os dados mais recentes ainda podem variar nos próximos dias, mas não significativamente. Isso acontece, pois algumas informações demoram para atualizar. Também tem o fato de que, se um vizinho visitar outro no próprio condomínio, possa ser que isso não seja capitado. E não são todos os celulares do Brasil que a empresa tem dados e sim cerca de 60 milhões de aparelhos”, relata.   

Outro problema apontado pelo professor é que a população mais pobre menos tem acesso à internet e aparelhos eletrônicos. Isso pode dificultar a representatividade nos dados. “Nós temos menos informações sobre as pessoas sem poder aquisitivo, que são as mais vulneráveis. Tem locais onde o sinal de internet é ruim e eles simplesmente não conseguem captar. A InLoco, portanto, dá uma ideia do quanto estamos de isolamento social, não uma precisão”, diz.  

Cidades 
Ainda segundo os dados da plataforma, das cidades baianas, 32 registraram índice de isolamento abaixo de 30%. O município de Cocos, no Extremo Oeste, a 665 quilômetros de Salvador, teve o percentual alcançado de apenas 9,5%. Tanque Novo, no Centro-Sul baiano e Nova Fátima, no Nordeste, são logo em seguida as cidades que menos pessoas ficaram em casa, com 17,4% e 19% registrados, respectivamente. Esses dados são referentes à última atualização municipal, feita no sábado (27).

No entanto, o professor Angelo Loula acredita que esse índice em municípios pequenos é pouco confiável, justamente pelas particularidades do cálculo. “A cidade é pequena, de baixa renda. Uma parcela pequena da população foi captada, provavelmente a de poder aquisitivo maior. Se for com muita zona rural, é ainda mais difícil capturar informação confiável”, aponta.  

Com mais de 50 mil habitantes, três cidades despontam com o índice de isolamento abaixo de 30%. Tratam-se de Bom Jesus da Lapa, com 28,3% e cerca de 70 mil habitantes, Conceição do Coité, com 29,7% e também 70 mil habitantes, e Teixeira de Freitas, com 29,8% e 162 mil habitantes. Por serem cidades grandes, aqui os dados são mais confiáveis.  

“A verdade é que tá muito difícil manter o povo em casa. Nós seguimos o decreto do estado. Aqui os comércios não essenciais estão fechados. Mas Coité tem muitos bancos e é referência para os municípios vizinhos. A gente recebe muitas pessoas diariamente. Hoje mesmo as filas estavam absurdas. Tivemos que dobrar a equipe de vigilância, aumentar a fiscalização e assistência na saúde. Tô com pacientes há quatro dias esperando regulação e sem nenhuma perspectiva. Se as pessoas não se conscientizaram, vai ficar muito difícil”, desabafou a secretária de saúde de Conceição do Coité, Jamile da Silva Sena.  

O CORREIO procurou as prefeituras de Bom Jesus da Lapa e Teixeira de Freitas, mas não obteve retorno. Até a tarde dessa segunda-feira (01), os dados de isolamento por município estavam sendo atualizados periodicamente na plataforma InfoVis Bahia, da SEI. No entanto, segundo o especialista em produção de informações do órgão, o contrato que o Governo do Estado tinha com a InLoco venceu em dezembro e esses dados específicos tiveram que sair do ar. “A gente entrou em contato para tentar renovar, mas ainda não avançou”, disse. Já os dados estaduais podem ser acessados de forma detalhada no site mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/.  

Sem lockdown 
Teixeira de Freitas é uma das cidades baianas que descumpriram o lockdown parcial na Bahia imposto pelo Governo do Estado. Por lá, através de um decreto municipal, a venda de bebidas alcoólicas foi liberada durante todo o final de semana. Além disso, o comércio não essencial – bares e restaurantes -, igrejas e templos religiosos puderam funcionar das 05h às 20h. 

O empresário João Espíndola é até a favor da decisão da prefeitura, mas reconhece que os índices de isolamento na cidade estão bem baixos. “Tem bastante gente circulando nas ruas. Na noite então, a galera acaba não respeitando nada do toque de recolher, mesmo sabendo que aqui está com muitos casos. Tem também muita gente fazendo festa em casa. O decreto é necessário para a saúde econômica do município, mas a população tinha que ser mais consciente”, defende. 

Atualmente, a cidade do Extremo-Sul baiano tem mais de 11 mil casos confirmados, 128 desses são ativos, sendo 38 pessoas internadas. 159 habitantes já morreram por causa da covid-19. O município possui apenas 15 leitos de UTI, todos no Hospital Municipal. Até às 18h dessa segunda-feira (1), 11 leitos estavam ocupados, o que representa uma taxa de ocupação de 73%. Em todo o Extremo-Sul esse índice é de 84%.  

“O decreto do prefeito passa a mensagem de que lá está tudo bem. Mensagens conflitantes são muito ruins. O prefeito diz uma coisa, o governador diz outra, o presidente outra e as pessoas não sabem quem seguir. Isso só favorece a doença. O impacto depois no sistema de saúde não é apenas na cidade. Se lota a UTI em Teixeira, ela começa a pressionar outros municípios baianos”, lembra o pesquisador Angelo Loula, ao criticar o baixo índice de isolamento na cidade.  

Outras prefeituras baianas que fizeram decretos conflitantes à decisão de lockdown na Bahia foram Alagoinhas, Caravelas e Itamaraju. Sem êxito, a União de Municípios da Bahia (UPB) foi convidada a se manifestar sobre o assunto.  

Relembre as restrições:

O que não pode:

*Gente nas ruas - Circulação noturna de pessoas das 20h às 5h, até 8 de março;
*Comércio - Lojas de rua tem de ficar fechadas até 3 de março;
*Sair para comer - Bares, restaurantes, pizzarias, lojas de conveniência e similares não funcionam até 3 de março (podem fazer delivery até 0h);
*Compras - Shoppings e centros comerciais não podem receber clientes até 3 de março (podem funcionar por Drive Thru - cliente compra em site e retira no local - das 10h às 19h)
*Aglomeração - Continuam proibidos até 8 de março, eventos e atividades, independentemente do número de participantes, desportivos coletivos e amadores, religiosos, cerimônias de casamento, eventos recreativos públicos ou privados, circos, eventos científicos e formaturas; bem como aulas em academias de dança e ginástica; 
*Hospitais - Não podem ocorrer até 8 de março  procedimentos cirúrgicos eletivos não urgentes ou emergenciais, nos hospitas públicos e privados
*Esportes - Até dia 8 também não ocorrem atividades esportivas coletivas amadoras, sendo permitidas  práticas individuais, desde que sem aglomerações;
*Serviços - Até dia 03,   estão suspensas as atividades presen- ciais de  órgãos e entidades da Administração Pública Estadual não enquadrados como serviços públicos essenciais;
*SAC - Não pode fazer atendimento presencial até às 5h do dia 3 de março;

O que é permitido

*Comida - Além do delivery dos bares e  restaurantes até 0h, os mercados e padarias podem abrir até às 20h;
*Feiras Livres - Podem funcionar, desde que em local aberto e com distância entre uma barraca e outra;
*Transportes - Ônibus metropolitanos encerram as operações das 20h30 às 5h e o metrô das 20h às 5h, até 8 de março. O ferry boat e as lanchinhas seguem suspensas até 5h do dia 3 de março. Os ônibus intermunicipais poderão circular normalmente e os transportes por aplicativo e táxis
*Câncer - Procedimentos cirúrgicos eletivos oncológicos e cardiológicos podem ocorrer, bem como cirurgias em clínicas e hospitais dia;
*Farmácias - Pode ter delivery

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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