Robinson Crusoé e Robyssão, grandes personagens que se naturalizaram baianos

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24.03.2019, 06:03:00
Atualizado: 25.03.2019, 00:56:46

Robinson Crusoé e Robyssão, grandes personagens que se naturalizaram baianos

Protagonista de clássico da literatura mundial viveu anos em Salvador; xará cantor ainda escreve sua primeira obra literária, mas antes indica algumas; confira

Não saiu dos romances de Jorge Amado ou João Ubaldo Ribeiro, tampouco dos poemas de Gregório de Matos ou Castro Alves a personagem baiana mais conhecida da história da literatura mundial. Tieta, Dona Flor, Gabriela, nenhuma delas; Quincas, Pedro Bala, Pedro Archanjo muito menos! Todo o arsenal de personagens amadianos e baianos, demasiado baianos, jamais chegaram perto da fama de Robinson Crusoé, um ilustre e insuspeito compatrício, ainda que pouca gente saiba disso.

Antes de explicar essa revelação gentílica, importa comentar um traço da nossa cultura (não só baiana, mas também ‘a nível de’ Brasil) sobre a relação com quem não nasceu por essas bandas, mas aqui cresceu, se estabeleceu, achou um lugar para chamar de seu… 

Eu mesmo confesso essa mania chata de diferenciar quem é daqui, mas nem sempre foi. Dia desses fui enquadrado por isso, por um desses novos baianos. Entrevistava o biólogo Roy Funch, um baiano nascido nos EUA, e perguntei se era pra identificá-lo na reportagem - sobre uma cidade milenar construída por cupins na Chapada - como “brasileiro naturalizado”. 

O coroa retou, ainda que com despacho e humor, e mandou eu chamá-lo de “baiano, de Lençóis” (ainda que quase todo mundo tenha sido gerado também embaixo deles), vetando menção ao descuido geográfico de Deus e citando mil casos de americanos nascidos fora dos EUA (Scharzenegger, por exemplo).

Ok, até transgredi um pouco me referindo ao fato de ele ter nascido em Nova York, mas Roy é baiano sim, somente assim, e fudeu Maria Preá!

Exposta a justa reprimenda – e já avisando que daqui a pouco comento o caso de Robyssão, ícone mundial do pagode baiano que nasceu lá na casa da zorra –, transcrevo um trecho do clássico de Daniel Defoe (lê-se default), primeiro romance em língua inglesa da história, e que revolucionou a forma de contar estórias de York, de Robinson, a Nova York, de Roy. Nos primeiros passos dos relatos do menino Rob, em suas travessuras e desventuras pelo Novo Mundo, ele comenta a chegada à Bahia. 

“Fizemos uma ótima travessia até os Brasis, e chegamos à Baía de Todos os Santos, no Porto de São Salvador, dali a cerca de vinte e dois dias. Agora eu tinha sido salvo outra vez da mais miserável de todas as condições; e precisava ponderar o que faria a seguir da minha vida. O tratamento generoso que o Capitão me dispensou, jamais terei como louvar o quanto baste. (...) E todas as coisas que me dispus a vender ele compro. (...) Numa palavra, acumulei cerca de 280 pesos duros de prata com minha carga; e com esse patrimônio desembarquei nos Brasis. E não fazia muito tempo que ali me encontrava quando fui recomendado à casa de um homem bom e honesto como ele, que possuía um “engenho”, como dizem, 21 a saber, uma plantação de cana e uma casa de refino de açúcar. Morei com ele algum tempo, e assim me familiarizei com as maneiras do plantio e da produção do açúcar. E, vendo como os donos viviam e como enriqueciam depressa, decidi, se obtivesse licença para me estabelecer ali, que me transformaria em produtor de açúcar como eles. (...) Obtendo uma espécie de carta de naturalização, comprei o máximo de terras incultas que meu dinheiro permitia, e me pus a planejar minha propriedade e a construção de uma casa, ao alcance dos meios que esperava receber da Inglaterra.” 

Eis a prova ao vivo: baiano também o pirão perdido! Quase quatro anos aqui viveu, a princípio, antes de se picar em busca de mais gente pra escravizar, aqui, por um preço mais em conta. Foi nessa onda que virou um náufrago, e essa parte da história você, Tom Hanks e Drummond conhecem. 

Capa antiga de Robinson Crusoé, com o nome original do livro, que é gigante como esse texto (Foto: Reprodução)

Antes de seus quase 30 anos preso numa ilha (quase) deserta, Crusoé ainda conta que virou bróder de meio mundo de gente – essa passagem é bem longa, e vou colocar um trecho no final deste texto – e que, na volta, ainda encontrou tudo ajeitadinho, demonstrando que a boa gente da Bahia já existia.

Antes de abandonar a história dele numa ilha erma, ouso analisar que talvez Crusoé não seja realmente digno de orgulho, por parte dos baianos, por ter sido aqui um senhor de engenho escravocrata e escroto, como demonstram algumas passagens de seu relato autobiográfico (fictício, ainda que seja). Mas, enfim, é uma informação interessante, que demonstra a importância de Salvador (e seu porto) já no Século XVII, e que talvez desperte o desejo do leitor em conferir um clássico da literatura diante dessa citação quase ignorada.

Outro Robinho neobaiano
Apesar do ipissilone no nome, Robyssão não veio do estrangeiro, mas um dia foi neófito em Bahia como Crusoé. Era novinho, 10 aninhos, quando vindo do Rio também se encantou com a Baía de Todos os Santos. 

Santinho não é, nem nunca quis ser. Essa semana – e por isso resolvi escrever sobre ele, que tira onde de literato, e seu xará, ícone da literatura –, Robyssão lançou mais um de seus clipes. Em “Toma Toma”, está rodeado de bundas rebolativas e bordões recorrentes do pagode baiano. Característica também presente no funk do Rio, de onde saiu de um ninho em Jacarepaguá, fundiu as duas culturas musicais e criou um gênero novo.

“Cresci com a influência do Rio, com o funk, e ao mesmo tempo com a música baiana, com a axé music, com o samba reggae”, me contou ele, ao citar alguns dos ingredientes do pagofunk.

Robyssão deu entrada no processo de naturalização baiana quando seus pais vieram trabalhar em Salvador, na década de 90. “Primeiro fui morar no Pau Miúdo e depois Cajazeiras 5. Atualmente, moro em Stella Maris”, diz ele, respondendo com risos ao comentário de que as condições melhoraram um pouco. “Devagarzinho vai chegando lá, né”.

O aprendizado sobre a Bahia também veio aos poucos. “A cultura baiana é semelhante, musicalmente falando, só que o cotidiano do baiano é distinto do cotidiano do carioca. Quando era criança, eu achava que a Bahia era só festa o tempo todo. E aí quando cheguei aqui, vi que realmente tem festa como tem em todos os lugares do Brasil, do mundo”, observou, ao palpitar que o Rio é mais festeiro (em quantidade de eventos) que Salvador. 

“Lá tem muito mais festa que aqui. Eu não sei se ainda tem, porque tem um tempo que não vou, mas na época tinha muito baile funk, Furacão 2000 quinta, sexta, sábado e domingo, e aqui em Salvador não tinha isso. Meus primos iam e me contavam a resenha toda”, relembrou.

Robyssão tocando seu Bailão (Foto: Robson Mendes/Arquivo CORREIO)

Literature-se
Falando em resenha, disse uma vez, numa entrevista ao Bahia Notícias, que suas músicas eram inspiradas em Arthur Schopenhauer. Perguntei de onde saía essa inspiração na obra do filósofo alemão... “Aí é gozação, pô! É brincadeira. Eu fico zoando a galera!” 

Rimos e já questionei, no embalo, se ‘Cu de Cachorro’ é uma música filosófica. “Sim. Aí é a Teoria da Evolução”. Tire aqui sua conclusão.

Outra dúvida sobre sua vida pregressa: estava mesmo escrevendo um livro ou também era papagaiada?

“Escrevi metade, mas eu não tive tempo de concluir”, confirmou Robyssão, dizendo ser um de seus sonhos.

Mas, pelo visto, vai demorar de esse sonho – inspirado em “1984”, de George Orwell – virar reality. “Ainda não denominei (um nome), porque eu no meio desse percurso, fiz diversos projetos, entendeu? Política, CDs, DVDs, questões familiares e tal. E aí eu não dei prioridade a esse projeto”, explicou, sem dar um prazo para termos contato com a obra.

E antes que integre a programação da Flica ou ganhe o Jabuti, pedi que essa personagem e personalidade baianíssima indicasse alguns livros ao leitor da coluna. “Pô, ‘Guerra e Paz’ (Leon Tolstoi), excelente! Excelente! Né o de cabeceira, não. Indico também ‘1984’ e ‘O Príncipe’ (Nicolau Maquiavel). Mas tem vários”, comentou.

Esqueci de comentar
Falando em clipe de Robyssão, esqueci de comentar com ele que, num rolê aleatório em Arembepe, uns anos atrás, caí sem querer dentro do cenário de ‘Festa Quente’, um de seus trabalhos mais conhecidos e comentados. 

Taí um dos clipes mara gravados lá...

Mais Crusoé na Bahia
Abaixo, a prometida passagem do clássico na qual Robinson Crusoé narra um pouco mais de sua passagem inicial por Salvador, antes de viajar (na teimosia de sempre), mofar e emendar um bromance com (Hoje é) Sexta-feira!

"Como já me ocorrera quando rompi com meus pais, agora tampouco estava contente, e cismei de deixar para trás a feliz perspectiva que eu tinha de me tornar um homem rico e bem-sucedido com minha nova propriedade, entregue a um desejo urgente e imoderado de subir mais depressa do que admitia a natureza das coisas; e assim me precipitei de novo no abismo mais profundo de desgraça humana em que um homem já caiu, ou que talvez fosse possível para alguém que só não perdesse a vida e a saúde. Para chegar então, no momento devido, aos detalhes dessa parte da minha história: o leitor pode imaginar que, tendo eu vivido a essa altura quase quatro anos nos Brasis, começando a prosperar e a aumentar a produção da minha propriedade, não só aprendi a língua como também travei conhecimento e amizade com vários outros proprietários, além de mercadores de São Salvador, que era nosso porto; e, nas conversas com eles, eu me referia com frequência às minhas duas viagens à costa da Guiné, à maneira como se comerciava com os Negros de lá, e como era fácil negociar naquela costa, trocando ninharias como miçangas, brinquedos, facas, tesouras, machadinhas, pedaços de vidro e coisas parecidas não só por pó de ouro, pimenta malagueta, presas de elefante etc., mas também por Negros em grande número para a servidão nos Brasis. Ouviam sempre atentamente essas minhas histórias, e especialmente a parte que falava da compra de Negros; que na época era um tráfico muito praticado, e sempre por asientos, ou concessões dos reis de Espanha e Portugal, registradas em documentos públicos; de maneira que poucos Negros eram trazidos, e os que chegavam eram excessivamente caros. Ocorreu que, tendo eu estado na companhia de alguns comerciantes e donos de terras que conhecia, conversando com grande animação sobre essas coisas, três deles vieram ter comigo na manhã seguinte, dizendo que tinham refletido muito sobre o que eu lhes contara na noite anterior e queriam me fazer uma proposta secreta. E depois de me pedirem que jurasse segredo, contaram seu intento de aparelhar um navio para ir à Guiné; que todos tinham terras como eu, e o que mais lhes faltava eram escravos; que como era um tráfico que não se podia praticar, pois não seria possível vender publicamente os Negros que viessem, desejavam fazer uma única viagem, trazendo Negros para suas terras particulares, dividindo o total entre suas propriedades; numa palavra, a questão era se eu aceitava embarcar como comissário daquela carga no navio, encarregado de cuidar das negociações na costa da Guiné. E me propuseram que eu ficaria com uma parte igual de Negros, sem precisar contribuir com dinheiro algum para a empresa. Era uma boa proposta, devo admitir, se feita a qualquer um que não tivesse terras e uma propriedade para cuidar, a caminho àquela altura de se tornar bastante considerável, e com um bom valor. Mas para mim, assim assentado e estabelecido, que nada mais precisava fazer que continuar da mesma forma por mais três ou quatro anos antes de mandar buscar minhas outras cem libras na Inglaterra, e que àquela altura, e com aquele pequeno acréscimo, não teria como deixar de reunir uma fortuna de três ou quatro mil libras esterlinas, no mínimo; para mim, aceitar fazer essa viagem era a coisa mais absurda de que se poderia acusar um homem nas mesmas circunstâncias. Mas eu, que nasci fadado a ser meu próprio destruidor, não pude resistir à proposta, da mesma forma como não fui capaz de conter meus primeiros desígnios errantes quando não dei ouvidos aos bons conselhos do meu pai. Numa palavra, respondi que iria de boa vontade se eles se comprometessem a cuidar das minhas terras em minha ausência, dando-lhes o destino que eu indiquei caso malograsse. Com isso todos se comprometeram, assinando papéis ou acordos nesse sentido; e preparei um testamento formal, dispondo das minhas terras e bens em caso de morte, nomeando o Capitão do navio que me salvara a vida, como antes, meu herdeiro universal, mas obrigado a dispor dos meus bens da maneira determinada em meu testamento: metade da quantia apurada destinava-se a ele, e a outra metade devia ser remetida para a Inglaterra. Em suma, tomei todas as medidas possíveis para preservar o que possuía e manter minhas terras. Tivesse eu empregado metade dessa prudência em zelar por meu próprio interesse, e ponderado o que devia ou não ter feito, certamente jamais me afastaria de empreendimento tão próspero, dando as costas à probabilidade de circunstâncias cada vez melhores e partindo em viagem por mar, sujeita a todos os riscos habituais, sem falar dos motivos que eu tinha para esperar infortúnios particulares em meu caso."


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