Roger e Marcão são os dois únicos técnicos negros do Brasileirão

e.c. bahia
11.10.2019, 05:00:00
Atualizado: 11.10.2019, 16:03:16
Roger e Marcão foram companheiros de clube no Fluminense, em 2006 (Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia; Foto: Lucas Merçon/Fluminense F.C.)

Roger e Marcão são os dois únicos técnicos negros do Brasileirão

Treinadores de Bahia e Fluminense se encontram na próxima rodada

“Não é só futebol” é um dos mantras mais repetidos da modalidade, usado para abordar questões além do placar do jogo. Apesar do esporte ser costumeiramente protagonizado por negros dentro de campo, é raro vê-los em cargos de gestão ou liderança nos clubes. E no próximo sábado (12) às 19h, Bahia e Fluminense vão fazer um confronto que chamará atenção por isso: são os dois únicos times da Série A com um negro no cargo de treinador. Roger Machado no tricolor baiano e Marcão no carioca.

O técnico do Esquadrão está em Salvador desde abril. São 32 partidas à frente do Bahia, com 15 vitórias, nove empates e oito derrotas. O aproveitamento do gaúcho de 44 anos é de 56% e deixa o time em 8º lugar, na briga por vaga na Libertadores 2020.

Já Marcão foi efetivado no cargo na semana passada, após o Fluminense demitir Oswaldo de Oliveira. Nascido no Rio e tão jovem quanto Roger, o técnico de 47 anos comandou o Fluminense em quatro jogos na temporada. Um pela Copa Sul-Americana e três pelo Brasileirão; soma duas vitórias e dois empates.

Os dois são conhecidos de longa data e jogaram juntos no próprio Fluminense em 2006, ano em que Roger chegou ao tricolor das Laranjeiras. Por coincidência, foi o último de Marcão no time carioca.

Roger é um personagem ativo na briga por mais espaço para pessoas negras e busca dar visibilidade à temática. “Esse meu lugar na elite do futebol brasileiro já é um lugar de resistência . Permanecer aqui é uma posição de protesto para que outros possam se enxergar possíveis treinadores de futebol”, declara o treinador.

Roger afirma que nunca foi vítima de racismo direto. Mas a situação não o surpreende. Afirma que “o preconceito em nosso país é muito velado” e se atenta às entrelinhas antes de ser categórico: indiretamente, já sofreu em muitos casos.

Roger Machado usando camisa da campanha feita pelo Observatório Racial do Futebol, projeto que monitora casos de racismo, homofobia e crimes de discriminação no futebol brasileiro
Roger Machado usando camisa da campanha feita pelo Observatório Racial do Futebol, projeto que monitora casos de racismo, homofobia e crimes de discriminação no futebol brasileiro (Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia)
Roger Machado em Bahia 1x0 Grêmio, pelo Brasileirão, no estádio de Pituaçu
Roger Machado em Bahia 1x0 Grêmio, pelo Brasileirão, no estádio de Pituaçu (Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia)

O lugar na Série A é um bom exemplo. Ele e Marcão representam 10% dos técnicos do campeonato. Roger constata que existe uma carência de referenciais, situação que o próprio treinador enfrentou na infância.

“Quando eu era pequeno, sonhava em ser médico, mas eu não me reconhecia quando via na televisão os indivíduos que eram médicos porque todos eram brancos. Eu passei a olhar para o jogador de futebol como referência de sucesso, o cantor, porque me reconhecia naquele personagem. Infelizmente a criança pobre, que convive com o tráfico, vai se reconhecer no traficante como referência de sucesso. É o que está na realidade dela”, reflete Roger.

Roger acredita que o Brasil tem uma dívida histórica com sua população negra. Cauteloso, afirma que a responsabilidade de pagamento não é dos indivíduos e sim do Estado. Ele opina que a mudança precisa ser de fora para dentro do futebol e não o contrário. A ação principal para essa mudança, segundo Roger, é a educação.

“Criar e fomentar a autoestima do indivíduo como referência para onde ele vai olhar é o princípio de tudo, e isso é educação. Foram mais de 10 milhões de indivíduos escravizados. Isso é uma dívida do Estado brasileiro. Ninguém é culpado, mas todos nós somos responsáveis para que isso seja resolvido”, diz.

Posicionamento 
A última Copa do Mundo feminina chamou atenção por vários fatores. Desde a audiência até a personalidade das atletas para se posicionar publicamente. Artilheira, campeã e melhor jogadora do torneio, Megan Rapinoe é o maior expoente do assunto por bater de frente com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, tendo afirmado durante a competição que não iria à Casa Branca em caso de título da seleção americana por causa de falas machistas e homofóbicos do chefe de Estado.

Após o título, a promessa se cumpriu. Mais à frente, Rapinoe foi eleita a melhor jogadora do mundo pela Fifa e voltou a fazer um discurso potente, parabenizando seus colegas negros Sterling, do Manchester City, e Koulibaly, do Napoli, pela luta contra o racismo.

Questionado sobre a cobrança por posicionamentos mais firmes de futebolistas no Brasil, Roger enxerga que houve evolução, principalmente se comparado a um passado recente. Por outro lado, também pondera que atletas e treinadores, ao falar, sofrem retaliações. “À medida que tu se posiciona sempre há quem diga que você está agindo em causa própria ou defendendo uma luta que não deveria existir porque ‘somos todos seres humanos’”.

Ao CORREIO, Marcão afirmou que nunca sofreu casos de racismo direto, assim como Roger classificou. Por outro lado, aponta que houve casos que acompanhou de perto, envolvendo alguns familiares, que preferiu preservar a identidade. 

“É triste saber que o racismo no Brasil ainda é forte e, na maioria das vezes, velado”, afirma.

Quando perguntado se acha que os negros sofrem com uma maior resistência para receber oportunidades em cargo de gestão e liderança dentro do futebol, Marcão afirma que prefere achar que o panorama não passa de uma coincidência.

“Quero achar isso. Tem que ser isso. Porque não é possível ainda sermos julgados pela cor e não pela capacidade. Estamos em 2019. Isso não pode ser cabível hoje em dia. Temos alguns colegas que trabalham em clubes na gestão. Mas que se prepararam para isso. É o caso do Fabio de Jesus [Fabinho Soldado, ex-jogador], no Flamengo. Mas gostaríamos de ver mais. E isso é viável sim, desde que sejam capacitados para isso”, respondeu o treinador do Fluminense.

Marcão não esconde que acha reduzido o número de apenas 10% de negros no futebol brasileiro. O treinador acredita que ele e Roger representam um marco e espera que o número de negros em cargos de comando do futebol brasileiro se torne uma realidade mais comum. 

Marcão no último jogo do Fluminense, contra o Cruzeiro, no Mineirão (Foto: Lucas Merçon/Fluminense F.C)

Admirador confesso do técnico do Bahia, Marcão afirma que Roger é um dos que acompanha de perto dentro da profissão e “não tinha dúvidas que ele daria certo como treinador”, antes de, aos risos, desejá-lo muito sucesso - exceto contra o Fluminense.

Oitavo colocado da Série A com 38 pontos, o Bahia vai até o Rio de Janeiro enfrentar o Fluminense, que luta contra o rebaixamento. O tricolor tem a mesma pontuação do Internacional, primeiro time dentro da zona de Libertadores. Do outro lado, o time de Marcão é o 15º colocado com 26 pontos - dois a mais que o Ceará, primeiro time dentro do Z4.

*Com supervisão do editor Herbem Gramacho


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