Ruy Barbosa, um negacionista da vacina que se arrependeu e pediu desculpas

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25.07.2021, 06:30:00
Atualizado: 08.08.2021, 03:12:06

Ruy Barbosa, um negacionista da vacina que se arrependeu e pediu desculpas

Anos após pôr imunizante em xeque, Águia de Haia enxergou melhor a situação e elogiou Oswaldo Cruz na guerra ao vírus

Nunca fui um cara dado a grandes aventuras, mas na quarta-feira não resisti. Saí de casa, entrei numa fila escrota e, chegada a minha vez após longa espera, desafiei uma desconhecida: “duvido você enfiar essa seringa com vírus no meu braço!” Ok, não verbalizei, mas a moça entendeu a linguagem corporal e, neo vida loka como eu, meteu. Desde então, uma dose da vacina de Oxford circula pelo meu corpo, e embora ainda não tenha virado jacaré, em breve estarei lucrando com isso, atraindo moedas e cobrando pelo sinal 5G da Terra da Rainha.

Zoações à parte, fico imaginando que se hoje é difícil explicar como uma vacina funciona, imagina em 1904, na época da seringa a lenha. Tentarei revisar tal dinâmica usando a analogia da própria lenha, ou do fogo, supondo estar sendo didático e prático: a menina vacina – que leva na bolsa um pedaço do vírus geneticamente modificado, ou seja, fraco e não infeccioso – faz um treinamento no seu sistema imunológico para a emergência de um incêndio. Com alguns dias de aulas, o sistema aprende a se defender do coronavírus, por exemplo, e apaga as chamas que ele faz (se não todas, a maioria). Sem a menina vacina, esse fogo começa do nada e seu sistema de defesa, menino e oreba, não sabe nem onde tá o extintor.

O jurista, jornalista e político baiano Ruy Barbosa, que entendia de queimar coisas que não devia – vide os arquivos da escravidão, “por honra da pátria”, embora fosse abolicionista –, também foi um incendiário durante as reações que deram na Revolta da Vacina, passagem histórica que envolvia um levante popular contra a obrigatoriedade da imunização, mesmo diante do avanço de doenças como a varíola. Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações em apenas um hospital do Rio.

O jurista baiano Ruy Barbosa em sua biblioteca (Foto: Domínio Público)

Com as doenças contagiosas se alastrando e o pavio do sistema de saúde queimando rápido, o médico sanitarista e epidemiologista Oswaldo Cruz convenceu o então presidente da República, Rodrigues Alves, a enviar ao Congresso um projeto de lei para restaurar a imunização compulsória no país.

As restrições para quem não se vacinasse eram importantes – não podia assinar contrato de trabalho, se matricular em escola e até casar –, e após a aprovação da lei, a turma da saúde avançou o sinal. Sem uma campanha de conscientização da população (aí o governo foi vacilão), e em meio a muitas fake news – diziam até que uma dose transformava gente em animal, imagine –, as brigadas sanitárias começaram a invadir casas para imunizar o povo na tora. Surgiram relatos de mulheres que tiveram a saia levantada para levar injeção, motivo de escândalo, como não? 

Cruz de Oswaldo
Sumidade em Direito, leigo em Epidemiologia, El Bigodón da Bahia pregava contra o bigodudo que daria nome à Fiocruz (de onde saiu minha oxfordinha), insinuando que a vacina além de não ser inofensiva, era um “veneno”, “em cuja influência [ao ser injetada] existem os mais bem fundados receios de que seja condutora da moléstia, ou da morte”.

Citou também as liberdades individuais, desconsiderando benefícios coletivos de uma imunização massiva, e ganhou a simpatia dos antivacinas.

“A lei da vacina obrigatória é uma lei morta. (...) Contrário era e continuo a ser à obrigação legal. (...) Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”, pregou Ruy, que teve suas falas impressas em jornais e panfletos.

Alguns desses papéis foram usados para, literalmente, tocar fogo no Rio, então capital federal. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Charge crítica ao sanitarista Oswaldo Cruz e suas brigadas de vacina publicada num jornal da época (Foto: Reprodução)

Após saldo de 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves desistiu da picada obrigatória, e os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola.

“A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, comenta o historiador Jaime Benchimol, em artigo no site da Fiocruz.

Três anos mais tarde, o Rio foi varrido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo viu a porra inchar e percebeu que só tinha uma saída: vacinar. A galera correu aos postos para injetar no corpo o líquido de pústulas de vacas doentes – suco de saúde.

Com o mundo capotando, Ruy Barbosa também pediu PPU, reconheceu que só a vacina salva e se redimiu com Oswaldo Cruz, àquela altura condecorado na Europa com o prêmio mais importante de higiene e saúde pública do mundo – a atuação de The OC também foi importante para superar a peste bubônica e a febre amarela. 

Com um sorriso amarelo, Ruy desculpou-se a seu modo: “Se Deus não suscitasse a missão de Oswaldo Cruz, o Brasil teria o mesmo sol, com a mesma exuberância de maravilhas, mas o sol com a  peste, com o impaludismo, com a febre amarela (...) e não teria o bem logrado sol dos países saneados”.

Falador passa mal
Como se vê, os olhos do Águia de Haia não eram bons o suficiente para enxergar tudo de forma clara, mas o fato de não ter compromisso com o equívoco, reconhecer o erro e congratular o lado certo da história mostra o grande homem que Ruy era. Não à toa, foi eleito o Maior Brasileiro de Todos os Tempos, numa votação entre notáveis promovida pela Revista Época, já no início deste século.

Mas essa fama que mantém RB vivo na memória de todos, quase 100 anos após sua morte, será que também tem a ver com as inúmeras tretas em que se metia, falando até do que não sabia 100%? Quem cita outro episódio que ajuda a responder essa pergunta é o professor e escritor Saulo Dourado, “especialista” em Ruy Barbosa.

“Tem a famosa polêmica gramatical, entre ele e um ex-professor... O governador da época, JJ Seabra, que era um desafeto de Ruy, chamou Carneiro Ribeiro, que foi professor de Ruy no colégio, para fazer revisão da proposta de Código Civil. Era um linguista, professor de Gramática, uma sumidade, foi lá e fez a revisão. Mas vai Ruy, na tribuna da Câmara, em 1902, e esculhamba a revisão”, lembra Dourado, que é autor de ‘O Borbulhar do Gênio’, romance histórico que tem nosso personagem da semana como protagonista.

A rinha de intelectuais foi parar nas páginas dos jornais muito antes do surgimento de telejornais, lugar este que hoje em dia, pegando colegas jornalistas de surpresa, a gente vê roqueiro bolorento destilando ignorância e negacionismo diante de centenas de milhares de vidas perdidas para um vírus invisível.

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