Salvador pode ter 200 dias com temperaturas acima de 32º C

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19.08.2019, 18:10:00
Atualizado: 19.08.2019, 19:36:50
Auditório lotado acompanha o primeiro dia da Semana do Clima (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Salvador pode ter 200 dias com temperaturas acima de 32º C

Plano de Adaptação e Mitigação às Mudanças Climáticas é urgente, dizem especialistas

Tem dias que Salvador parece um forno. Um bafo quente toma conta da cidade e não tem água gelada que dê jeito. Os mais velhos dizem que os dias estão mais quentes que o normal, e eles tem razão. Segundo os especialistas, a temperatura no Brasil subiu 1,5ºC nas últimas décadas, e Salvador precisa se adequar às mudanças climáticas ou terá, até o final deste século, cerca de 200 dias por ano com temperaturas acima dos 32ºC.

Temperatura mínima subiu 2 °C de 1963 para cá; Veja

Carlos Nobre frisou que os efeitos do aquecimento global já são sentidos em Salvador (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

As estimativas são de Carlos Nobre, um dos mais respeitados cientista brasileiro em meteorologia, e foram feitas na manhã desta segunda-feira (19). Ele foi convidado pela prefeitura para participar da construção do Plano de Adaptação e Mitigação às Mudanças Climáticas, anunciado durante o primeiro dia da Semana Latino-Americana e Caribenha sobre Mudança do Clima (Climate Week), e com previsão de conclusão para 2020.

Doutor em Meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (EUA) e membro estrangeiro da National Academy of Science (NAS), Nobre foi o primeiro palestrante do evento e contou que os efeitos do aquecimento global estão sendo sentidos em todas as partes do planeta. Em Salvador, além do aumento da temperatura, as chuvas e secas intensas, e as ressacas frequentes são outros exemplos das alterações do clima.

A participação dele na elaboração do plano municipal será voltada para as ações que podem ajudar Salvador a se adaptar as mudanças climáticas. No entendimento do especialista, existem quatro pontos cruciais.

“Primeiro, é preciso encontrar soluções para as 300 mil pessoas que vivem em área de risco em Salvador. Elas estão vulneráveis aos efeitos das chuvas torrenciais, cada vez mais frequentes. Segundo, temos o problema da zona costeira. O nível do mar na costa brasileira subiu 25cm nas últimas décadas”, afirmou.

Nobre apresenta os resultados das pesquisas sobre o clima no Brasil (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

O terceiro ponto tem relação com o aumento na temperatura e na umidade. Segundo o especialista, isso afeta diretamente a qualidade de vida e a saúde da população, razão pela qual o sistema de saúde da cidade precisa se preparar para o crescimento no número de casos de doenças relacionadas a altas temperaturas.

O quarto ponto de adequação está relacionado ao abastecimento de água do município. “Um dos efeitos das mudanças climáticas são secas prolongadas, o que afeta o abastecimento das cidades. É preciso adaptar e encontrar formas de garantir os recursos hídricos porque eles serão afetados por essas mudanças no clima”, disse.

Segundo Nobre, 80% das ações de adaptação das cidades ao clima depende dos municípios, mas é preciso um esforço global para que os resultados apareçam. Ele destacou como ações importante para a preservação do meio ambiente o uso de energias renováveis, a substituição dos veículos a diesel por elétricos, e a redução de emissão de gases poluentes.

Efeitos 
No mês passado, uma ressaca atingiu e danificou quatro restaurantes e 11 casas em Arembepe, na Região Metropolitana de Salvador. Três estabelecimentos precisaram ser interditados. Os moradores contaram que há 20 anos não acontecia nada igual. A fúria da natureza foi sentida também em Jauá e Mata de São João, onde os ventos chegaram a 60 km/h.

Restaurante destruído em Arembepe (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

Na Ilha de Itaparica, o avanço do mar ‘engoliu’ um restaurante e obrigou moradores a abandonarem as próprias casas. O fenômeno foi motivo de uma reportagem do CORREIO, em 2018. Nobre contou que se as notícias são ruins, as previsões não são nada animadoras.

“Se as ações do acordo de Paris forem implantadas, até o final do século, o nível do mar deve subir cerca de 50 a 60 cm. Mas, se isso não acontecer, ele vai subir até 1,5 metro. O que coloca muitas cidades e milhares de pessoas em risco”, contou.

Estrutura de restaurante foi destruída pela força do mar, em 2018 (Foto: Leitor)

O especialista disse que houve um aumento no número e na intensidade de tempestades no mar, o que tem provocado ressacas cada vez mais intensas. Em março, a formação de um ciclone sobre o oceano deixou a costa da Bahia em alerta.

Já em 2017, moradores do Rio Vermelho, na capital, levaram um susto ao encontrar na areia da praia da Mariquita a boia sinalizadora que deveria estar no mar. O equipamento, de 6 toneladas e 12 metros de altura, foi arrastado pela força do vento com a tempestade que caiu na cidade naquela semana.

Comunidade
A meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Cláudia Valéria, estava na plateia da Semana do Clima e contou que os assuntos discutidos no evento interessam a todos, e estão relacionados ao presente e ao futuro, do ponto de vista ambiental.

“Esse tipo de evento é extremamente importante para Salvador, para o Brasil e para o mundo. A gente está falando de questões que, de uma maneira geral, influenciam toda a sociedade, em todos os níveis. É um privilégio poder participar dessas discussões, juntar esses dados técnicos e pode levá-los aos gestores para que as tomadas de decisões sejam embasadas nessas informações”, afirmou.

Cláudia Valéria, do Inmet, destacou a importência da troca de conhecimentos (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

O embaixador da Holanda, Kees Van Rij, foi um dos convidados para a abertura do evento. Ele contou que 40% das cidades holandesas ficam abaixo do nível do mar e que esse fato ajudou o país a pensar e implementar ações que resultaram na redução da quantidade de gases poluentes na atmosfera.

“O clima está nos afetando e nos preocupa a todos. Só podemos lutar contra as mudanças climáticas de forma coletiva. Em 2016, o mundo buscou alternativas para resolver esses problemas, o acordo de Paris é um exemplo, mas três anos depois os desafios mudaram. Precisamos combater a mudança climática de maneira rápida”, disse.

Embaixador da Holanda no Brasil (gravata vermelha) ao lado do prefeito (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Ele frisou que as preocupações da Holanda não são apenas dos holandeses. “A cidade de Salvador também pode ser afetada pelo aumento do nível do mar, como já vem sentido os efeitos das chuvas torrenciais. Por isso, é um assunto que interessa para todos. Temos que sempre buscar parceiros para reduzir os efeitos climáticos”, disse.

Já a representante da Sociedade Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), Ana Carolina Camara, destacou a importância do debate. “Nos felicita muito a oportunidade de estar aqui para lançar esse painel. Promover esse painel é apoiar a ciência e o desenvolvimento científico. Esperemos que essa experiência bem-sucedida em Salvador seja uma semente para outras ações que estamos desenhando com outros parceiros desse projeto. Desejo a todos bons diálogos e boas discussões nesta semana”, afirmou.

O diretor da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), James Grabert, contou que dois terços das grandes cidades do mundo estão muito próxima da costa e que, por isso, o aumento dos níveis do mar colocar em risco muitas vidas. Ele defendeu que é necessário esforço coletivo para resolver o problema.

“Nós sabemos que as mudanças climáticas é um dos maiores desafios. Estamos em Salvador para discutir essa questão, para aprendemos uns com os outros, e para trocarmos experiências. Os governos não podem alcançar os objetivos de forma isolada, é preciso acionar as cidades. Nos últimos anos temos buscados parceiros e desenvolvido ações com diversos setores com essa intenção, mas é preciso o apoio de todos.”, disse.

Antes do evento, a prefeitura apresentou o Painel Salvador de Mudança do Clima, com as ações desenvolvidas pelo município para preservar o meio-ambiente, e durante a cerimônia, o prefeito ACM Neto assinou com o Grupo Solví, responsável pelo Aterro Sanitário de Salvador, um termo de compromisso de neutralização do carbono do evento. 

O documento garante a neutralização de 100% do CO2 emitido no evento por meio de créditos de carbono gerados a partir do tratamento do biogás do aterro metropolitano, operado pela Battre, ligada ao Grupo Solví. A capital baiana é a primeira cidade no mundo a conseguir o registro pela ONU para a emissão de crédito de carbono com engenharia em aterros sanitários.

A Semana do Clima é um evento promovido pela Organização das Nações Unidas(ONU), em parceria com a prefeitura. Confira a programação completa. Ela acontece entre os dias 19 e 23 de agosto, no Salvador Hall, dentro do Wet’n Wild, na Avenida Paralela. Na quinta-feira (22), haverá shows exclusivos dos músicos Gilberto Gil e Carlinhos Brown, que farão apresentações individuais a partir das 18h30. As inscrições, gratuitas, foram prorrogadas até quarta-feira. Basta acessar o link https://reg.unog.ch/event/29406/.

Prefeito assina termo de compromisso (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Como funciona a Semana do clima
O movimento no Wet’n Wild começou a aquecer 1h antes do início da Semana Latino-Americana e Caribenha sobre Mudança do Clima (Climate Week), a chamada Semana do Clima, na manhã desta segunda-feira (19). No primeiro dia do evento, um engarrafamento se formou da entrada principal até o estacionamento. Lá dentro, agentes de trânsito organizavam os carros e arrumavam vagas.

Ansiosas, algumas pessoas que estavam de carona resolveram descer dos veículos e terminaram o percurso a pé. Primeiro, era preciso pegar uma fila para fazer o cadastro de espectador ou imprensa. Equipes de segurança, com detector de metais, faziam a revista, última etapa antes de poder curtir a Semana do Clima.

O primeiro espaço, à esquerda de quem entra, é o Azul. Um grande salão para palestras e apresentações. Seguido em frente, estão os espaços Verde e Amarelo, com salas de debates e até um palco para shows.

Durante o evento foram distribuídas mudas (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Os idiomas que se ouvi nos corredores são variados. Espanhol, inglês, e francês são os mais frequentes, mas o dominante é o português, da Bahia, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e até do Rio Grande do Sul. Para quem tem dificuldade com as línguas estrangeiras, os organizadores oferecem equipamentos tradutores durante as palestras.

Os temas das mesas alternam dentro do guarda-chuva que é o assunto clima, e são identificados nos cartazes na porta de cada sala. Do lado direito fica a praça de alimentação e, do outro lado, stands com os mais variados produtos sustentáveis, como sacolas, camisas, mudas de plantas, entre outros. Alguns são distribuídos gratuitamente e outros comercializados. Os espaços são livres e o clima é de tempo aberto para o conhecimento.


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