Sem procissão, nem fogueira: São Pedro é celebrado com quadrilha e missas online

bahia
29.06.2020, 06:00:00
Atualizado: 29.06.2020, 06:42:21
Procissão em frente à Paróquia de São Pedro, em Salvador ((Almiro Lopes/CORREIO))

Sem procissão, nem fogueira: São Pedro é celebrado com quadrilha e missas online

Em cidades onde tradicionalmente o santo é homenageado, fieis precisaram reinventar tradição

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Desde a infância, Brunno Augustto, 29 anos, participa das celebrações em homenagem a São Pedro, em Muritiba, no Recôncavo Baiano. O santo, considerado protetor das viúvas e pescadores, é padroeiro da cidade, onde famílias acendem fogueiras, reúnem-se em festas e participam de missas. Com a pandemia, as fogueiras foram recolhidas e também não haverá festas. A missa será transmitida online. Nos municípios onde as festas de São Pedro chegam a superar os festejos de São João, a tentativa é conter os nativos e evitar aglomerações.

Em Muritiba, as celebrações para São Pedro começam no dia 26 e seguem até o dia 28 - no chamado tríduo de São Pedro. O dia 29 sela o fim dos festejos juninos na tradição católica. "As comunidades da zona rural vem, participam, é muito bonito. Minha avó e meus pais sempre me levaram para assistir e fui gostando e ficando", contou Brunno, auxiliar administrativo e responsável pela parte religiosa da festa há dois anos.

No município, a Prefeitura suspendeu o feriado de São Pedro, para evitar aglomerações. Às 7h30, de portas fechadas, a missa será transmistida pelo Facebook da Paróquia São Pedro do Monte Muritiba. Mas só. A Prefeitura de Muritiba respondeu, via assessoria, que as fogueiras estão proibidas e que foi realizada uma campanha de conscientização para não haver queima de fogos, nem festas. 

As festas identificadas no dia de São João, no dia 24 de junho e na véspera, em interiores onde tradicionalmente há festejos juninos, acenderam o alerta das cidades. Em Cruz das Almas, por exemplo, houve guerra de espada. Na capital baiana, o número de denúncias de poluição sonora bateu recorde - foram 495 e 39 fogueiras desmontadas na ocasião. 

Cruz das Almas teve aglomeração com pessoas soltando espadas (Foto: Reprodução/Redes sociais)

A rua Jacutinga, em Itiruçu, no sudoeste na Bahia, costuma ficar lotada, com fogueiras à frente das portas e um entra e sai nas casas, no dia de São Pedro. Desde o ano passado, o município iniciou um retorno às tradições e decidiu que, neste ano, não haveria grandes festas, mas quadrilhas e corridas de jegue, como acontecia no passado, em homenagem ao santo. A preocupação era de que a festa de São Pedro fosse um catalisador de contaminações.

O município de Itiruçu teve quatro casos de coronavírus. Todos estão curados e o desafio é evitar a proliferação da covid-19. Para o Dia de São Pedro deste ano, a prefeitura pediu apoio para a Polícia Militar intesificar as rondas. Também instituiu um decreto que proíbe aglomerações e eventos. As fogueiras também estão proibidas e há também uma barreira sanitária na entrada da cidade. 

Em três dias de festa, Itiruçu costuma receber cinco mil pessoas. “É uma coisa muito tradicional aqui. Esse ano teríamos só atividades tradicionais para resgatar o passado e engajar as pessoas”, contou Gil Neabi, diretora de Cultura da cidade. 

Quadrilha online 

Na cidade de Serrinha, no nordeste da Bahia, a quadrilha que tradicionalmente é assistida pelos nativos fará uma apresentação online, pelo facebook. Dos 22 dançarinos, 16 participarão, com máscaras e luvas, numa transmissão online pelo facebook. A Prefeitura adotou toque de recolher para evitar aglomerações à noite e pediu que a população não acenda fogueiras, nem se junte em festas - mesmo familiares, dentro da própria casa, mas com reunião de pessoas que não cumpram isolamento juntas. 

Como o Dia de São Pedro não é feriado no estado, a data original não foi antecipada, como no caso do São João e Dia da Independência da Bahia, no próximo dia 2 de julho, por força de um decreto estadual.

Em Eunápolis, no Sul da Bahia, a festa de São Pedro é conhecida como Pedrão. Nos bairros, há fogueiras, festas familiares, forró realizado por igrejas e procissões. As ruas começam a ficar cheias nos dois dias anteriores. A parte profana acontece uma das pistas que levam a Porto Seguro, com dois palcos. No ano passado, tocaram na festa nomes como Maiara e Maraísa e Gustavo Lima. 

Neste ano, tudo está diferente.  “As ruas estão enfeitadas, mas por aqui não há nada. O mais forte, que é nossa festividade, não tem”, Mauro Wesley Borjaille, 26, publicitário que desde a infância participa das homenagens a São Pedro.

Alguns bares, no entanto, têm feito fogueiras, como disse Mauro, para os clientes “mais assíduos”, em desrespeito às recomendações de isolamento social. A Prefeitura fortalecerá as fiscalizações e divulgou cards de conscientização para a população. "Ano que vem a gente se encontra novamente, numa festa ainda maior e mais bonita", escreveu, em uma publicação, no Instagram. 

Salvador terá missa com limite de fieis 

A Paróquia São Pedro, única da Arquidiocese de Salvador dedicada ao santo, celebrará uma missa presencial para 50 fiéis, nesta segunda. No último domingo, outras paróquias realizaram missas - online e presenciais, com limite de público - em homenagem ao santo. Quando a solenidade cai num dia de semana, a celebração religiosa é adiantada ou postergada para o domingo, como foi o caso neste ano. 

Na Paróquia de São Pedro, na Praça da Piedade, serão quatro missas - às 8h, às 10h, às 12h e às 16h. Cada celebração receberá somente 50 fiéis, que poderão entrar na igreja conforme a ordem de chegada. Serão duas pessoas por banco para respeitar as medidas de distanciamento social.

O dia 29 de junho foi escolhido para ocupar o lugar de uma antiga celebração pagã que exaltava as figuras de Rômulo e Remo, os mitos considerados fundadores da cidade de Roma.

Fiscalizações fortalecidades

Como no interior, a fiscalização em Salvador também foi intensificada no final de semana, para evitar aglomerações no Dia de São Pedro. As vistorias foram feitas nos turnos diários e noturnos, com o objetivo de coibir aglomerações, festejos juninos e emissão sonora nas ruas e em estabelecimentos.

A força-tarefa foi coordenada pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), com apoio da Guarda Civil Municipal e Polícia Militar. A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) também atuou nas fiscalizações, com 18 fiscais para coibir atividades sonoras, que estão proibidas por decreto, além de equipes da Transalvador.

Fogueiras montadas em via pública foram desmontadas (Foto: Ascom Sedur)

Ao longo da semana, foram desfeitas pela força-tarefa 83 aglomerações formadas por causa dos festejos juninos. A Semop recebeu cerca de 500 denúncias de poluição sonora, comandando a apreensão de equipamentos, principalmente "paredões".

Para denunciar casos de aglomeração, basta ligar, gratuitamente, para o, 156, telefone do Fala Salvador.

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