Senadinho é uma ilha da saudade

bahia
30.06.2019, 05:45:00
Atualizado: 30.06.2019, 12:11:06
Senadinho reúne amigos de longa data (Foto: Marcio Costa)

Senadinho é uma ilha da saudade

Espaço do Shopping Barra reúne idosos há 15 anos para dividir memórias e aplacar a solidão

A maioria dos 50 mil clientes que passa diariamente pelo Shopping Barra vê naquele grupo nada além de um bando de velhinhos obsoletos. Uma minoria, mais atenta, enxerga no máximo um monte de aparelhos auriculares, bengalas, veias saltadas, artrose e rugas. Somente os que se aproximam, puxam uma cadeira, sentam e, calmamente, batem um papo, passam a conhecer a força, vitalidade e sabedoria daquela assembleia de ilustres e anônimos.
 
O Senadinho, como é conhecido, é hoje uma instituição baiana, uma câmara de amizades ecléticas e de gente com elegância até para tomar um cafezinho. Tendo o Barra como seu Congresso Nacional, no Senado se discute de filosofia à música, de literatura a futebol. No Senadinho, dá-se tapas na mesa por política e economia e analisa-se criticamente a história do Brasil, do antigo Egito ou dos Carnavais.
 
Antes de qualquer coisa, porém, ali divide-se as próprias memórias, lamenta-se a implacabilidade do tempo e, principalmente, joga-se duas coisas fora: conversa e solidão. Há 15 anos mais ou menos, uma mesa no Café Bourbon, no primeiro piso, é reservada a eles. São ilustres juízes de direito, médicos, advogados, políticos, mas também anônimos que só querem fazer uma amizade sincera na reta final da sua existência.

“Imagine esses senhores todos em casa sem ter o que fazer. Já tinham morrido. Isso aqui é a vida de muitos deles”, disse a jornalista Olívia Soares, 59 anos, a única senadora da “casa”. De fato, senadores como Manoel Canário, 85 anos, têm uma ligação familiar com o shopping. Comparece às sessões todos os dias, de domingo a domingo, afinal de contas o Senado em questão não tem recesso.

A relação de Canário com o shopping é anterior ao próprio Senadinho, já que frequenta o Barra desde o dia da inauguração, em 16 de novembro de 1987. “Bato ponto. Venho de domingo, dias santos e feriados. Vou fazer o que em casa?”, pergunta. Com um extenso passado no rádio, parceiro do falecido Luiz Luzi, Canário sempre fez muitos amigos, mas teve problemas de relacionamento com a família e hoje mora sozinho no Barbalho.
 
“Não tenho para onde ir e nem o que fazer lá fora. Gosto daqui. É um lugar agradável e seguro. Aqui conheço todo mundo e sou bem tratado”, explica o ex-radialista da Rádio Sociedade e da Rádio Tupy do Rio de Janeiro. Costuma ficar de 14h até o fechamento do shopping, às 22h. Fala-se que, nos feriados em que o Barra não abre, Canário chega a reunir uns poucos senadores e coloca banquetas do lado de fora para papear.

O mais importante é manter a mente ocupada e não ficar sozinho. Apesar das constantes discussões acaloradas, no Senadinho ninguém solta a mão de ninguém. Os Senadores frequentemente se visitam em hospitais. Quando, por acaso, ninguém pode ir, o corretor de imóveis Artur Gallo se dispõe a fazê-lo. Também faz questão de ir nos enterros. 

A elegância na hora de ir encontrar amigos
A elegância na hora de ir encontrar amigos (Foto: Marcio Costa)
O cafezinho é o pretexto para jogar conversa (e solidão) fora
O cafezinho é o pretexto para jogar conversa (e solidão) fora (Foto: Marcio Costa)
Um mundo de bengalas e rugas, mas sempre conectado
Um mundo de bengalas e rugas, mas sempre conectado (Foto: Marcio Costa)
O sabor amargo e doce de ter mais de 80 anos
O sabor amargo e doce de ter mais de 80 anos (Foto: Marcio Costa)
O afeto que mantém viva a vontade de viver
O afeto que mantém viva a vontade de viver (Foto: Marcio Costa)
Não tem hora para estar entre os que se ama
Não tem hora para estar entre os que se ama (Foto: Marcio Costa)
Dividindo as memórias e as saudades
Dividindo as memórias e as saudades (Foto: Marcio Costa)

 
Desaparecimentos
Aliás, no Senadinho encara-se a morte de frente! Na sexta-feira anterior a que tivemos o direito a uma cadeira em tão prestigioso congresso (como suplente temporário, claro), o médico José Lins havia falecido aos 92 anos. Psiquiatra dos mais notáveis, não resistiu às complicações causadas por uma queda. O desaparecimento de amigos é sempre uma grande dor. “Senti como se fosse alguém da minha família”, afirma Franklin Santana Oliveira, 77 anos.

O Senadinho é, portanto, uma ilha de saudade. Saudade dos amigos, do passado e da própria trajetória do grupo. Algumas perdas se tornaram marcantes. Como no caso de Eduardo Domingos, o Árabe, (seu pai foi o primeiro a abrir um restaurante árabe em Salvador). Um dos fundadores do Senadinho, Eduardo faleceu ano passado. “De dez pessoas que passam por aqui, oito comentam ou perguntam por ele. Era muito amigueiro”, conta Olívia.

Entre os exaltados in memorian estão também o radialista Pacheco Filho e o ex-vereador Luiz Leal. Mas, se existe uma morte insuperável naquele grupo, esta é do eterno presidente do Senadinho, Magno Burgos. Político de esquerda, tido como um homem sério e íntegro, foi preso na Ditadura Militar, tendo ficado na famosa Galeria F, onde foram encarcerados os presos políticos na Penitenciária Lemos de Brito.

“Magno era uma das reservas morais do Senadinho. Aqui não tinha quem não gostasse dele, mesmo os de outras correntes políticas”, diz o atual presidente, José Ramos, 81 anos. “Sentimos muito a falta dele. Muito mesmo!”. A ética de Magno era tão rígida que ele não gostava quando os colegas levavam lanches para consumir na mesa do Bourbon, onde basicamente sai cafés, sorvetes e bolos. 

Achava que o correto era consumir no local. Depois que Magno morreu, um dos integrantes, Luís Pamponet, sugeriu que fosse deixada uma cadeira vaga, em pleno shopping center, em homenagem ao eterno presidente. Deu briga. “Teve gente que se aborreceu porque a cadeira era pública. Pamponet se aborreceu um tempo, mas voltou”, conta Olívia.
  
 Vitalidade
 No Senadinho você pode bater um papo com nomes como o juiz Demerval Belucci, que julgou o famoso caso de Marcelino Souto Maia, condenado a 16 anos de prisão por matar pai, mãe, irmão e avó no bairro da Graça, em 1970. Mas, muito reservado, melhor não tocar no assunto com ele. No Senadinho é possível conversar com o ex-deputado e ex-diretor do Procon, Archimedes Pedreira Franco, cheio de vitalidade e lucidez aos 83 anos.
 
“Todos nós desempenhamos atividades importantes nas nossas trajetórias. Por circunstâncias da vida não temos mais obrigações. Para muitos por aí, isso significa a morte. Para nós, não! Nós temos o Senadinho, ou seja, temos amigos. Aqui ficamos atualizados e com a mente funcionando. Isso aqui é uma festa!”, explica Archimedes, com o português corretíssimo de sempre. “Todos nós aqui somos muito importantes uns para os outros”.

Se você tiver sorte de ele estar presente, você pode trocar uma ideia também com Benedito Borges, 95 anos. Conhecido no Senadinho como “o verdadeiro campeão”. Isso porque, no primeiro título nacional do Bahia, em 1959, era ele quem presidia o clube no lugar de Osório Vilas Boas. Apesar de estar afastado na época, Osório acabou levando a fama de ter conquistado a Taça Brasil.
 
Seu Benedito sempre contou detalhes dos bastidores e das artimanhas que usou para fazer o Bahia derrotar o Santos de Pelé. Lembra bem da escalação, do goleiro Nadinho ao ponta esquerda Biriba. Com alguns lapsos, tem a ajuda das filhas e do neto, que o incentivam a puxar as estórias na memória. “Recordo de muito, mas não de tudo”, admite. “Quais foram os jogadores que o senhor contratou tirando dinheiro do próprio bolso?”, estimulou a filha. “Não me lembro mais, não. Só sei que foram muitos”, resumiu.

Sem problemas, Seu Benedito. Mais importante que tudo é ver tanta vitalidade e alegria em um nonagenário como o senhor. “Vamo levando, né meu filho?”, disse ele, que pode até não se lembrar de todos os pormenores do título brasileiro, mas jamais esquecerá os números dos antigos bondes que circulavam na antiga Salvador. “A diversão dele era disputar com Magno, o eterno presidente, quais os números dos bondes e seus bairros”, conta Olívia.

 Pai solteiro
 Nesse mundo do “vamo levando”, dos lapsos de memória e dos óculos para vistas cansadas, quase todos são aposentados. A maioria tem mais de 80 anos. Mas, entre eles existe uma jovem e doce figura que ainda está na casa dos 40. José Augusto Calheira, 43 anos, filho do advogado Gileno Calheira. Tem deficiência intelectual e passou a frequentar o Senadinho para acompanhar Gileno, um pai solteiro de 77 anos que cuida do filho sozinho.

“Ele não gosta de pessoas da idade dele. Tem mais empatia por crianças muito pequenas ou idosos”, explica Gileno. “Aqui a gente deixa de se sentir vazio. Aqui a gente se revitaliza, se sente vivo”, afirma o advogado, que também faz doces como o de ambrosia para servir aos colegas.

Revitalizar-se no Senadinho é algo que merece os maiores esforços, como faz o professor Eibert Moreira, que agora é transportado na cadeira de rodas e tem a companhia de uma cuidadora para não deixar de participar das reuniões. Mesmo sem poder caminhar e com problemas na voz, marcou presença quando estivemos por lá.

Por força maior, outros como o ex-desembargador do trabalho Jorge Moreira, o advogado Mario Brito, o ex-procurador geral do estado Antonio Guerra Lima, o médico Santos Pereira, o diretor legislativo da Câmara Municipal Carlos Cavalcanti, o Coronel Lemos, Haroldo, Alfredo, Norman e Homero Dourado não puderam comparecer.  
 
 Origem
 A origem do Senadinho seria, na verdade, no antigo Shopping Iguatemi, hoje Shopping da Bahia. Como muitos dos idosos passaram a morar próximo do então novo Shopping Barra, o grupo ganhou nova sede e foi batizado como “Senadinho”. Os próprios “senadores” não chegam à uma conclusão sobre o que explica o nome. O fato é que a experiência de vida e as idades avançadas certamente tiveram um peso comparativo com os “cabeças brancas” do Senado Federal.

Hoje, o Senadinho ganhou certa fama e se multiplicou em outros cafés pelos shoppings e até em outros shoippings. Entre a maioria de intelectuais e cabeças prestigiosas, encontra-se ali figuras humildes como Manoel de Carvalho Cruz, 79 anos, que é vendedor de loteria. Apesar da atividade antiga, Manoel tem o sustento garantido pelos amigos do Senadinho.
 
“Vendo loteria desde antes do shopping existir. Vendia na rua Chile. O pessoal aqui me ajuda muito”, confirma Manoel. “Aqui é turma boa, sadia. Aqui é pra lembrar do passado”, diz Manoel. Só não se tem notícias de alguma cartela premiada vendida por Manoel e que tenha enriquecido alguém no Senadinho.
    
 Madrinha
 Uma coisa é consenso no Senadinho. Ele não mais existiria se não fosse os esforços da jornalista Olívia Soares. Ela convoca, organiza, ajuda, incentiva o encontro na ilha da saudade. “Eu gosto de memórias. Sem memórias nós não somos nada. O que mais tem aqui são memórias”, diz Olívia.]

“Eu vinha aqui a mando de Armando Oliveira (ex-radialista), que quando estava doente pedia para eu trazer notícias para o amigo Magno. Como Magno vivia aqui, eu vinha pra cá. Fui sentando com eles, ficando e acabei entrando para o senado”, conta Olívia. Hoje, Olívia é tida como a madrinha do Senadinho. Se alguém demora muito de ir a uma sessão, como tem acontecido com Jorge Medauar, é ela que liga para saber. “Liguei e não consigo falar com a família. Estamos um pouco preocupados”.

Com o tempo, o Senadinho foi encolhendo. Além das perdas, uma reforma no Café Bourbon, que pertence ao comerciante Antonio Robespierre Santos, mudou a configuração das mesas, que se tornaram fixas e com poucas cadeiras. Até surgiram fofocas de que o dono não queria tanta gente no local sem consumir na casa. “O pessoal passava aqui dizendo que Robespierre ia colocar pregos nos assentos das cadeiras”, conta Olívia.

Mas, com a reforma, uma mesa no estilo antigo foi mantida só para o Senadinho. “Nessa reforma não cabia mais esse tipo de mesa. E ele deixou só pra gente. Essa mesa foi comprada para nós”, diz Zelito Abreu, outro fundador do Senadinho junto com Magno. A relação com o shopping costuma ser amistosa. Com algumas exceções, como no caso do acarajé do Gregório, que antes das transformações na estrutura vendia o bolinho sobre a calçada, próximo à entrada principal.
 
 Acarajé
 O senhores do Senado tinham atendimento especial do baiano de acarajé. Não precisavam sequer ir ao tabuleiro. Gregório levava a iguaria já cortadinha direto para a mesa do Bourbon. Por conta da saída de Gregório, muitos se recusam a comprar acarajé na Perini. Na época da pendenga, os advogados, juízes e desembargadores ofereceram até ajuda jurídica ao vendedor. Não teve jeito.

“Aquilo que fizeram com Gregório foi algo muito complicado. Ele botou na Justiça e não adiantou. Na verdade ele já ficava aí por força de uma liminar, quando tentaram tirar ele antes. Agora, na reforma, disseram que ele ia retornar e nada. Uma pena. Um dos melhores acarajés da cidade”, afirma Franklin Oliveira, que, dez anos atrás, se casou com uma mulher que conheceu no Shopping Barra. “Shopping também é lugar para encontrar amores”.

O Senadinho não é uma instituição fechada, com um número exato de cadeiras. Agregados e suplentes estão sempre se chegando. Mas, não podem ser desagradável. “Se um agregado começa a ser mala demais, a gente suspende o mandato e o convida a se retirar”, avisa Manoel Canário. Por essas e muitas outras, é possível imaginar: se o Congresso Nacional Brasileiro fosse como o Senadinho, o país estaria nos trilhos. “O problema de lá é que as ideias e os interesses são divergentes. Aqui as ideias podem até ser divergentes, mas os interesses são convergentes”, explica Gileno Calheira.

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