Sonho frustrado: intercâmbio vira pesadelo para baianos após golpe de empresa

bahia
11.07.2019, 05:05:00
Atualizado: 13.07.2019, 15:43:18
A engenheira Michelle Rocha é uma das baianas prejudicadas por falência das empresas de intercâmbio (Betto Jr./CORREIO)

Sonho frustrado: intercâmbio vira pesadelo para baianos após golpe de empresa

Jovens pagaram, mas não viajam após empresas fecharem

Passar um período no exterior, conhecer uma nova cultura, aperfeiçoar outra língua e ainda poder viajar pela Europa é um sonho que vários brasileiros buscam realizar com um intercâmbio. Para auxiliar a empreitada, os futuros intercambistas contratam agências especializadas. Mas, um problema na empresa pode até inviabilizar a experiência. E foi justamente o que aconteceu com cerca de dois mil clientes das agências Time2Travel (T2T) e Popinschool, segundo estimativa feita pelos antigos consultores das firmas, com o auxílio dos próprios intercambistas. 

No mês passado, as duas companhias informaram que haviam paralisado as atividades por tempo indeterminado, deixando os estudantes sem nenhuma garantia de que vão conseguir realizar a viagem.

Para muitos, o sonho de morar fora só é alcançado com muito esforço. É o caso da estudante de engenharia de produção na Área 1 e consultora de vendas, Carolaine Santos, 22 anos, que é filha de um pedreiro e de uma dona de casa, e juntou quase todo o salário com a rescisão do trabalho para ir para a Irlanda. 

“Minha vontade era viajar pelo mundo, mas isso requer dinheiro. Eu não vou desistir do meu sonho por causa da falta de caráter. Algumas escolas da Irlanda estão tentando nos ajudar com bolsas de desconto e eu fecharei diretamente com elas. Eu vou adiar. Vou ter que pagar um valor de R$ 7 mil, mas vou trabalhar duro para conquistar meu sonho”, conta Carolaine, que já desembolsou quase R$ 4.800.

A graduanda em engenharia está entre os – pelo menos - cinco baianos que perderam parte do dinheiro investido nas agências de intercâmbio. Outro afetado do estado foi o estudante de engenharia de controle e automação, Vinícius Reis, 22. Assim como Carolaine, ele conta que não vai desistir do intercâmbio para o país europeu.

 “Já acionei minha advogada para abrir um processo contra a empresa Popinschool para a devolução da quantia paga com a adição de danos morais. Vou investir em uma outra agência, o sonho ainda não morreu”, explicou o jovem.

Vinícius estava com a viagem programada para julho de 2020 e usou o dinheiro da festa de formatura para pagar o pacote para Dublin, capital do país europeu.

Valores diferentes

Como os pacotes para a Irlanda eram parcelados em até 18 vezes de R$ 555, a quantia perdida pelos clientes das agências varia. Alguns estudantes estavam apenas começando a pagar pela viagem, enquanto outros já haviam quase quitado a dívida. A gestora empresarial, Andressa Andrade, 22, de Piracicaba (SP), faz parte do grupo de pessoas que perdeu quase todo o investimento.

“Fechei o contrato em agosto de 2018. Fiquei exatamente 12 meses pagando e fui lesada em R$ 34 mil na compra do curso, dos euros e do seguro de saúde”, relata a jovem, que viajaria em setembro deste ano pela Time2Travel.

De acordo com levantamento da Belta, a associação brasileira de agências de intercâmbio, os intercambistas gastam R$ 8.650, em média, para realizar uma viagem desse tipo. Os dados da instituição apontam ainda que 53,8% das pessoas pagam o intercâmbio com o próprio dinheiro, enquanto, quase 50% contam com a ajuda da família para realizar o sonho de morar fora por um tempo.

Para reaver a quantia e poder dar continuidade aos planos da viagem, Carolaine e Vinícius se juntaram a outros dois clientes da Popinschool para processar a agência e o seu dono, Fábio Maestri.

A advogada contratada pelo grupo, Ana Cláudia Palma, explica que já deu entrada em um processo para reaver o valor investido pelos clientes. “A pessoa lesada tem o direito de ter o valor pago restituído e até mesmo requerer indenização por dano moral”, explicou a jurista.

Vaquinha online

Com medo de não conseguir receber a quantia já investida no intercâmbio, os dois baianos se juntaram com outros três clientes que também foram prejudicados pelas empresas e criaram uma vaquinha virtual para reunir o valor da viagem e poder deixar para trás a confusão. Até o momento, foram arrecadados apenas R$ 55 da meta de R$ 50 mil para arcar com os custos da jornada de todos os cinco estudantes.

Como as empresas atendiam em várias localidades e também pela internet, o número de vítimas da falcatrua por todo o Brasil é alto. De acordo com Carolaine, foi criado um grupo com pelo menos 150 clientes das agências para compartilhar as informações sobre o caso e se apoiar. “Não se trata só de dinheiro, sabe? É todo um sonho”, diz. 

Ainda segundo dados da Belta, a maioria dos estudantes que contrataram um intercâmbio no ano passado são do estado de São Paulo, seguido do Rio de Janeiro e do Distrito Federal. Os baianos representam apenas 3% dos intercambistas que viajaram em 2018.

Ativas na receita federal

Apesar dos estudantes apontarem que as empresas de intercâmbio teriam falido, ambas as companhias atribuídas a Fábio Maestri permanecem ativas perante a Receita Federal, apontam pesquisas do CNPJ das agências no site do órgão. Com sede em Belo Horizonte, a Popinschool foi aberta em 2017 e possui um capital de R$ 93.700. Já a Time2Travel existe desde 2011 e é sediada em São Paulo, com um patrimônio de R$ 200 mil. A reportagem entrou em contato com as Juntas Comerciais dos dois Estados, mas não obteve resposta. 

Agência diz que buscou resolver o problema

Boa parte dos contratantes dos pacotes de intercâmbio das empresas ficaram sabendo da paralisação das atividades após uma postagem nas redes sociais da T2T. No dia 17 de junho, a agência informou que iria parar de oferecer as viagens e que estava buscando formas de atender aos clientes.

“Estamos em contato com parceiros educacionais, outras agências e órgãos para fazer o que for possível para que o projeto do seu intercâmbio continue de pé. Por conta disso, pedimos que nenhum pagamento seja efetuado até uma possível solução ser discutida”, comunicou a T2T em seus canais oficiais.

Dias depois, a Time2Travel se desculpou pela demora no atendimento dos estudantes lesados e afirmou ter traçado um plano para minimizar os prejuízos e cumprir os deveres com os estudantes.  “Estamos trabalhando arduamente em negociações e parcerias estratégicas, sobretudo com agências que podem absorver, imediatamente, pelo menos 60% dos estudantes e lhes garantir continuidade aos programas que já estavam inicialmente previstos, desde a última semana. Já conseguimos solucionar cerca de 150 contratos e garantir o embarque de tais estudantes para viver a experiência de intercâmbio tal como haviam planejado, sem qualquer prejuízo”, escreveu a direção da empresa, em outro texto publicado no site da agência.

Uma das agências que vem prestando apoio para os intercambistas lesados pelas empresas é a CI Intercâmbios. A companhia tem oferecido condições especiais de pagamento para os estudantes afetados pela T2T e Popinschool, além de disponibilizar a equipe da sede em Dublin para ajudar os estudantes que já estão no país a dar continuidade ao intercâmbio. A diretora da CI em Salvador afirmou que cerca de 50 pessoas já procuraram a agência para resolver o problema causado pelas empresas concorrentes.

A notícia de que a T2T havia falido também preocupou os clientes da Popinschool, que é gerida pelos mesmo dono. A preocupação não foi à toa e, de fato, os alunos da empresa irmã também estão desamparados. 

“Ficamos sabendo dos problemas pelos agentes, mas eles afirmaram que não seríamos prejudicados. Após o São João descobrimos que a Popinschool também foi afetada”, disse a estudante de engenharia Civil, Michelle Rocha, que já havia investido R$ 3.588 na empreitada.

A jovem identificada como RMS também afirmou ter sido informada que conseguiria viajar pela Popinschool. “Quando a T2T faliu, muitos alunos nos procuraram para nos alertar, mas a Popinschool nos informou que ninguém seria prejudicado, que eram CNPJs diferentes. A consultora disse que se soubesse de algum problema iria nos avisar. Por volta do dia 25 de junho, ela nos informou que a empresa iria quebrar porque vários estudantes estavam cancelando o contrato e alertou para ninguém pagar mais nada até a empresa publicar algum esclarecimento”, explicou a jovem.

Diferente da T2T, a Popinschool não só não emitiu nota informativa sobre o ocorrido, como também apagou suas redes sociais e seu site, o que inquieta ainda mais os intercambistas que não conseguem uma resposta da empresa e buscam formas de reaver o investimento na viagem.

“Vários de nós tentamos cancelar o contrato e não tivemos resposta, nenhum telefone da empresa atendia, nenhum e-mail respondia e a empresa excluiu todas as redes sociais. Desde o dia 25 de junho, não conseguimos nos comunicar com ninguém, os consultores também não têm nenhuma informação e estão de mãos atadas, sem conseguirem nos ajudar”, completou RMS.

Dublin está entre os destinos preferidos pelos intercambistas que querem estudar e trabalhar um tempo na Europa (Foto: Divulgação)

Irlanda favorece trabalho e estudo

Apesar da maioria dos intercambistas prejudicados pelas agências ter comprado um pacote para a Irlanda, o país não lidera o ranking da Belta das nações mais procuradas pelas pessoas que querem passar um período no exterior. A nação europeia aparece apenas na quarta posição na lista que é encabeçada pelo Canadá. Entretanto, de acordo com os gestores das agências soteropolitanas creditadas pela associação, Irlanda é líder entre os estudantes que querem aliar o curso de inglês ao trabalho fora do Brasil.

As regras para fazer um intercâmbio divergem de acordo com o país escolhido, e, para o diretor geral da BEX Intercâmbio, Flávio Crusoé, muitos clientes que buscam trabalho no exterior decidem viajar para a Irlanda devido à facilidade de se conseguir o visto para passar seis meses no país - período que é o mais procurado pelos clientes nas quatro agências soteropolitanas com selo da Belta contatadas pela reportagem (BEX, CI, EF e Experimento).

“A Irlanda é muito procurada pelo custo e pela facilidade de visto. Os estudantes aplicam para o visto já no país e [na minha agência] nunca houve um visto negado. Além disso, o intercambista ganha dois meses de férias e também tem o fato de estar na Europa”, explicou a dona da franquia da IE Intercâmbio de Salvador, Leila Mafra.

De acordo com os gestores das empresas especializadas em viagens, a facilidade para conseguir trabalho é um dos agravantes dos problemas que os estudantes podem enfrentar com as agências e as escolas que oferecem pacotes para a Irlanda.

O gerente da Education First (EF) Intercâmbios, Bruno Vandystadt, explica que muitas pessoas vão para o país com a intenção de priorizar o trabalho e acabam optando por escolas mais baratas, o que pode acabar sendo uma “furada” se o viajante não checar a qualidade da instituição.

Para fazer um intercâmbio no país europeu, o estudante precisa comprovar que possui três mil euros em uma conta irlandesa para se manter durante o programa, ter seguro viagem e estar matriculado em uma escola de inglês, informam as agências de intercâmbio. Para fazer o visto, o intercambista ainda precisa gastar mais 300 euros.

Os estudantes entrevistados explicaram que escolheram as agências de intercâmbio após muita pesquisa na internet e indicação de outros intercambistas, por isso não suspeitavam da má qualidade das empresas contratadas. A notícia da paralisação das companhias veio, então, como uma surpresa. “Descobri a empresa procurando na internet agências para fazer um intercâmbio em Dublin, na Irlanda. Entrei nos grupos do Facebook e muita gente falava bem dessa empresa”, afirmou Andressa Andrade.

Cuidados para não cair no ‘conto do intercâmbio’

Apenas indicações podem não ser suficientes para se certificar da qualidade das empresas contratadas. Para se precaver, a Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor da Bahia (Procon-BA) indica que o consumidor deve verificar os termos do contrato a ser fechado e checar se a empresa escolhida se encontra em recuperação judicial.

A advogada Ana Cláudia corrobora que muitas pesquisas devem ser feitas antes de contratar qualquer empresa.

“Antes de fechar o serviço, sobretudo online, o consumidor deve observar se a empresa possui CNPJ e endereço físico, procurar em sites de reclamação sobre a reputação da empresa, pesquisar se a companhia possui demandas judiciais e sua natureza, além de sempre procurar referências de pessoas que contrataram seus serviços”, indicou.

Especialista em direito civil e do consumidor, o advogado Cândido Sá também ressalta a importância de checar a saúde financeira da empresa escolhida antes de firmar o contrato, em especial se for um serviço de médio a longo prazo, como um intercâmbio. Para buscar os dados, os clientes devem buscar pelo CNPJ das companhias na Receita Federal e Justiça do Trabalho. Quem mora em Salvador, também pode recorrer ao Fórum Ruy Barbosa para buscar a certidão civil da empresa e uma possível certidão de recuperação judicial ou falência. 

“Se a empresa não tem certidão negativa de débitos dos INSS, isso significa que ela está devendo ao fisco. Se você verifica um conjunto de informações sobre a empresa e ela tem certidão de falência ou recuperação judicial, significa que ela não tem uma saúde financeira que pode gerar um problema mais tarde”, explicou.

A diretora da Central do Intercâmbio (CI) de Salvador, Vivian Neder, concorda com a jurista e ressalta que os clientes devem prestar atenção à ofertas e condições de pagamento muito discrepantes do mercado. “Não pode cair no conto da carochinha, tem alguma coisa errada com o desconto muito grande. É importante pesquisar muito. Milagres não existem. O estudante tem que procurar a qualificação da escola, a certificação da agência”, indica.

Para checar a qualidade das escolas, o cliente que acabou de fechar um pacote de intercâmbio para a Irlanda ou ainda está à procura de uma oferta pode acessar o site da Marketing English in Ireland (MEI), associação que representa as escolas de inglês no país europeu e seleciona as instituições educacionais que possuem creditação do governo Irlandês.

Já para conferir a qualidade das agências contratadas, os futuros intercambistas devem verificar se a empresa possui o selo Belta, entregue para as agências que seguem o padrão de qualidade da associação, e cuja lista está disponível no site da organização. A checagem prévia poderia ter poupado o problema para vários clientes das empresas com problemas, já que nem a Time2Travel nem a Popinschool têm o acreditamento da instituição.

Como afirmou a advogada, um grande número de reclamações contra a empresa escolhida também aponta para um problema no serviço. No site reclame aqui, a Time2Travel possui 35 reclamações sobre a falta de apoio após a falência da agência, já a Popinschool recebeu quatro reclamações sobre o mesmo assunto. Entretanto, o Procon-BA aponta que não há queixas no órgão contra as duas empresas.

Quem foi lesado pelas empresas ou em algum caso parecido deve recorrer à justiça, aponta Candido Sá. “A vítima deve procurar um advogado para levar ao judiciário as provas. Direito é prova, sendo assim, tem que ter em mãos os recibos, as notas dos pagamentos feitos a agência escolhida e a, partir disso, ele pode ingressar com uma ação civil indenizatória contra a agência. A depender do grau da possível infração, o processo pode ser feito na esfera penal”, instruiu.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier


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