Tá on: selecionados do Afro Fashion Day fazem primeiro encontro

correio afro
17.09.2021, 05:30:00
Atualizado: 17.09.2021, 06:53:23
Turma do Afro Fashion Day posa em frente ao portão da Igreja de São Francisco, no Pelourinho (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Tá on: selecionados do Afro Fashion Day fazem primeiro encontro

Grupo, que foi fotografado nas ruas do Pelourinho, revela seus sonhos; em outubro, o sexteto começa a se preparar para o desfile

Seis cabeças, seis histórias, seis talentos, três pretinhas e três pretinhos. Um milhão de sonhos. Talvez até mais. A tarde ensolarada desta quinta foi marcada pelo primeiro encontro dos seis selecionados do Afro Fashion Day 2021. As cores e portas do Pelourinho serviram de cenário para o animado sexteto, que, agora se apresenta ao mundo.

Júri de formadores de opinião e leitores do CORREIO ajudaram a escolher os vencedores; veja vídeo 

Os perfis são bem diversos: vão desde a caçulinha Alice Vitória, que tem somente 13 anos e começou a engatinhar na moda agora em 2021, até o papai Lucas Cabral, que já pensou até em desistir da moda e seguir outros caminhos. Mais votado pelos jurados entre os homens nesta edição, Bruno Maria tentou por três ocasiões até conseguir uma vaga na passarela mais negra do Brasil.

"Eu conheço algumas personalidades que têm a vida estruturada na moda por causa do Afro. Quando tive o primeiro contato com a passarela, a galera já estava no 'hype' do Afro. Fui procurar entender o que era o evento e é uma grande oportunidade, não só por ser um dos maiores eventos de moda que existe, mas também pela mensagem que traz de inserir pessoas negras no mercado na moda", disse Bruno.

Ele adotou o Maria do nome artístico em homenagem às tias. "Elas não são muito ligadas à moda mas me chamava muita ateção a forma como elas se arrumavam, o fato de serem muito vaidosas. Todas as referências que tenho de moda vêm do comportamento delas, que influenciaram no que sou hoje", afirma o rapaz de 23 anos e morador da Boca do Rio.

Bruno Maria recebeu 10 votos dos jurados e foi o mais votado no masculino. O Instagram dele é o @brunmria (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

A mais votada entre as meninas foi a carioca Thulasi Hindra, de 20 anos. O nome é incomum, mas a pronúncia é bem tranquila. Fala-se "Tú-Lá-Zí" e a garota de 20 anos é bem tranquila para explicar. "Já estou acostumada", dizia, sorrindo com os olhos antes de contar que veio para Salvador com 8 anos e não quer deixar a capital baiana nunca mais: o Uruguai e a Cidade Baixa tomaram seu coração. É daqui que quer colocar as bases para decolar o sonho de ser uma modelo internacional.

"Eu fecho os olhos e vejo uma top model internacional. É o meu desejo, ir galgando meus espaços pouco a pouco até chegar à moda internacional. Sabemos que não é fácil, mas estou confiante que vai dar certo", garantiu.

Carioca, Thulasi Hindra foi a mais votada no feminino, recebendo 10 votos assim como Bruno. No Instagram, @thulasi_hindra (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Emoção
Uma coisa foi unânime durante o papo: quase ninguém acreditou quando recebeu a confirmação da seleção. Alice Vitória garantiu que só não chorou mais que a mãe, Dilma Nascimento, que acompanhou a garota de perto. "A gente não sabia se ela entraria por conta da idade, mas resolvemos arriscar. É muita honra ver minha filha, 13 anos, representando o Afro Fashion Day. Espero que Deus me dê saúde para aguentar tanta emoção", disse a mãe coruja.

Alice não acreditou que conseguiria. Iniciou seus passos na moda em janeiro deste ano, quando se inscreveu no concurso Garota Periférica, promovido pelo projeto Jovens Periféricos (JP), e venceu na categoria teen.

Mesmo com só 13 anos, Alice já tem 1,74m de altura e deu seus primeiros passos na carreira de modelo em 2021. Instagram: @_alice_model (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Foi Jadson Nascimento, um dos nomes à frente do JP, quem deu forças para Lucas Cabral continuar na moda. O papai de Luca, de um aninho, soube da notícia durante uma atividade do candomblé e quase não conseguiu sair do terreiro Tumbenci, em Lauro de Freitas. 

"Em 2019 tentei quando estava pela One Models. Depois Jadson, do Jovens Periféricos, me chamou para participar de novo, dessa vez pelo TikTok. Me joguei e esperei o resultado. Sempre foi um sonho participar dessa passarela negra, é algo incrível", disse. 

O papai Lucas conseguiu entrar no Afro após quase desistir da moda. Ele tentou a passarela mais negra do Brasil em 2019. Instagram: @l.cabral10 (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Sem celular, Monique Reis quase não foi encontrada pela produção do AFD, mas no final das contas recebeu a notícia que aguarda há dois anos: ela está na passarela mais negra do Brasil. Apaixonada por samba, diz que Bethânia e Mariene de Castro são duas referências para ela, que além de modelo também trabalha e estuda teatro, dança. Isso sem contar que mexe um pouco com artes plásticas e costura. Uma 'artistona', como bem autodefine a moradora de Valéria que tem 18 aninhos.

"Quero dizer que de onde eu venho, tem muito mais jovens como eu. Na periferia tem muita gente sonhando e capaz de realizar", disse Monique.

O sorrisão de Monique tem samba, moda e vontade de ensinar o que aprende na vida para ajudar outros jovens periféricos. Instagram: @moniquereis___  (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Lucas Cabral tinha o sonho de ser jogador de futebol. Deixou de lado após passar por algumas cirurgias e hoje, além de modelo, quer ser personal trainer - ele cursa Educação Física. O futebol também era o sonho de Albert Wood, que herdou o sobrenome dos bisavós estadunidenses. Mas descobriu outro sonho: "O AFD é empoderamento negro, ele abre portas. Me joguei de cabeça. Eu não vou mentir que meu sonho era ser jogador, mas no decorrer da vida você precisa desistir de alguns sonhos e sonhar com coisas novas".

"O AFD é um empoderamento negro, é uma oportunidade de engajar a carreira de modelo porque ele abre portas. Vi como uma oportunidade e me joguei de cabeça. Eu não vou mentir que meu sonho era ser jogador, fiz categorias de base, mas ao decorrer da vida tem coisas que a responsabilidade puxa e você precisa desistir de alguns sonhos e sonhar com coisas novas. Essa carreira de modelo veio como um novo caminho", afirmou Wood.

Albert Wood sonhava em ser jogador de futebol. Agora, quer ser modelo. Instagram: @falaalbert (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Esse sexteto de sonhadores terá um mês de outubro cheio com gravações, provas de roupa, desfile e sessões fotográficas que farão parte da rotina daqui para frente. Até lá, seguirão aprendendo, ainda mais, a fazer algo que é propósito do Afro Fashion Day: dar oportunidades à garotada preta de sonhar e abrir a porta para que confiem em seus talentos.

RAIO X DOS SELECIONADOS

Monique Reis tem 18 anos e mora em Valéria | Intagram:  @moniquereis___

Alice Vitória tem 13 anos e mora no Cabula VI | Instagram: @_alice_model

Albert Wood tem 20 anos e mora em Arenoso | Instagram: @falaalbert

Bruno Maria tem 23 anos e mora na Boca do Rio | Instagram: @brunmria

Thulasi Hindra tem 20 anos e mora no Uruguai | Instagram: @thulasi_hindra

Lucas Cabral  tem 21 anos e mora em Itapuã | Instagram: @l.cabral10

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas