Talibã retoma o poder no Afeganistão: entenda o conflito histórico

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16.08.2021, 05:00:00
(AFP)

Talibã retoma o poder no Afeganistão: entenda o conflito histórico

Grupo radical havia sido expulso da capital Cabul há 20 anos

O Talibã, grupo radical islâmico com ligações com a rede terrorista Al-Qaeda, surpreendeu o mundo nesse domingo (14) ao retomar o controle de Cabul, capital e mais importante cidade do Afeganistão. Desta vez, a surpresa se dá pela velocidade com que essa retomada se deu. Em torno de 15 dias, à medida que os Estados Unidos foram retirando suas tropas do país após 20 anos de ocupação, o grupo foi reconquistando uma a uma as principais cidades afegãs. 

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Durante as duas décadas de ocupação americana, os militantes do Talibã fugiram do cerco para se refugiar nas áreas mais remotas do país.  Os serviços de inteligência dos EUA até previam que o grupo retomasse o controle do Afeganistão, mas acreditavam que isso se daria em um prazo de 12 meses após a retirada das suas tropas. 

O Talibã ganhou notoriedade na década de 90. Os militantes do grupo foram armados e treinados pelos serviços secretos dos EUA e do Paquistão na segunda metade dos anos 80 para combater a União Soviética que tentavam invadir o país. Com a derrota dos soviéticos, o grupo conduziu uma guerra civil até conquistar o poder em todo território afegão, onde impôs sua visão de islamismo fundamentalista radical. 

Nesta época, o Talibã também tinha estreitas ligações com a rede terrorista Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden - ele mesmo um dos líderes na batalha contra os soviéticos -, que, em setembro de 2001, atacou as torres gêmeas de Nova York em um atentado que chocou o mundo e deu inícios às invasões americanas ao próprio Afeganistão e ao Iraque. Bin Laden foi localizado e morto no Paquistão, em maio de 2011.

Memória
Enquanto o Talibã se aproximava de Cabul, os EUA mobilizavam homens para garantir a saída de embaixadores, cidadãos e militares ainda presentes na cidade. O chefe de governo afegão, Ashraf Ghani, também deixou o país sem oferecer resistência. Ele justificou a atitude como necessária para evitar um derramamento de sangue. 

Diversos governos demonstraram preocupação com a volta dos talibãs, sobretudo em relação às mulheres e às minorias populacionais do país. O Conselho de Segurança da ONU tem reunião de emergência hoje para debater o assunto. 

A  memória do ataque da Al-Qaeda a Nova York ainda segue viva nos EUA e o governo do democrata Joe Biden foi questionado pela opinião pública, que passou a enxergar no Afeganistão um fracasso militar igual ao do Vietnã. 
Em uma entrevista ao vivo à CNN, o secretário de estado Antony Blinken foi obrigado a rebater a ideia de fracasso. "Isso não é Saigon (capital do Vietnã). Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão, e essa missão era lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro (de 2001). E nós tivemos sucesso nessa missão", completou. Blinken, no entanto, admitiu que o volta do Talibã ao poder se deu "mais rapidamente do que esperávamos". 

Malala pede ajuda para as mulheres afegãs
Logo que o grupo extremista Talibã anunciou o cerco a Cabul durante a manhã de ontem (horário de Brasília), a ativista Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, demonstrou muita preocupação com as mulheres e minorias do país. 

Nas redes sociais, ela pediu ajuda das potências internacionais. “Assistimos em completo choque enquanto o Talibã assume o controle do Afeganistão. Estou profundamente preocupada com mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos”, afirmou. “Poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis”, completou a ativista. 

Malala ficou mundialmente conhecida em 2013, ao ser baleada na cabeça pelos Talibãs enquanto caminhava para a escola. A bala entrou pelo olho esquerdo e atingiu ossos do crânio. O atentado ocorreu após a garota vir a público defender que as mulheres também têm direito à educação. Atualmente, ela reside com a família na Europa. 

A estudante e ex-embaixadora da Juventude da ONU, Aisha Khurram, também usou as redes sociais para falar sobre a Universidade de Cabul. "Alguns professores se despediram de suas alunas quando todos foram evacuados da Universidade de Cabul nesta manhã. Talvez não tenhamos nossa formatura assim como milhares de alunos em todo o país", escreveu. Domingo é dia útil nos países muçulmanos.

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