Torcedores do Vitória lançam campanha contra contratação de Wesley

e.c. vitória
12.03.2021, 12:43:00
Atualizado: 12.03.2021, 12:47:06
Imagem da campanha lançada por torcedores do Vitória contra a contratação do atacante Wesley Pionteck (Divulgação)

Torcedores do Vitória lançam campanha contra contratação de Wesley

#WESLEYNAO foi iniciada em protesto no Twitter porque o jogador é condenado por agressão a uma ex-namorada

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A contratação de Wesley Pionteck ainda não foi anunciada oficialmente pelo Vitória, mas já gerou bastante polêmica e manifestação nas redes sociais. Com o objetivo de chamar a atenção de patrocinadores do clube, um grupo de torcedores rubro-negros lançou no Twitter a campanha #WESLEYNAO após o nome do atleta ser publicado no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF.

Condenado por agressão a ex-namorada, o atacante foi regularizado na tarde de quinta-feira (11) e já pode estrear com a camisa vermelha e preta. Ele está apto, inclusive, a disputar o primeiro Ba-Vi da temporada, sábado (13), às 16h, no Barradão, válido pela 3ª rodada da Copa do Nordeste. 

"Já estávamos indignados com isso há algumas semanas, desde que a gente soube da possibilidade da contratação e resolvemos lançar a campanha porque foi quando o atleta foi publicado no BID. A gente acredita que ele deve entrar no Ba-Vi, então esse foi um dos motivadores pra gente colocar essa campanha no ar, porque querendo ou não é um clássico, um dos jogos mais esperados do ano, e a gente ver um jogador desse entrando em campo com a camisa do nosso time é muito difícil, dói muito", afirmou a universitária Roberta Passos, 27 anos, uma das organizadoras da campanha lançada na noite de quinta.

Integrante da Brigada Marighella, que se define como torcida antifascista do Vitória, e do Movimento Feminino As Rubro-Negras, ela explica que a campanha não é encabeçada por nenhum coletivo ou torcida uniformizada, mas por rubro-negros que se sentiram incomodados com a contratação de Wesley Pionteck.

"Resolvemos fazer essa campanha para pressionar os patrocinadores do clube também, para eles tomarem algum tipo de posição com relação a isso. A gente se indignou porque é uma contratação de um agressor que ainda cumpre sua pena. Eu e outras torcedoras do Vitória não nos sentimos representadas pelo clube que a gente torce. Isso é muito triste e difícil", lamentou Roberta. 

A campanha não está sendo encabeçada apenas por mulheres, como deixa claro um dos organizadores, o universitário Donato de Assis, 27 anos. "A gente que é dessa nova geração de torcedores que nasceu entre os anos 90 e 2000 tem uma postura diferente de arquibancada. A gente veio aprendendo a lidar com outro tipo de sociedade contemporânea. A gente tem outros tipos de ideais. O futebol não está além do que a gente aprendeu como sociedade. Perceber que um cara como Wesley veio para o Vitória e foi aclamado por uma parte da torcida causou um certo tipo de incômodo e o nome dele no BID foi a prova completa de que dentro do Vitória existe hoje em dia a figura da misoginia e do machismo institucionalizado e, de uma certa forma, está consolidada na imagem do clube enquanto instituição", pontuou o integrante da Brigada Marighella e Frente Vitória Popular. 

Wesley tem 24 anos e foi formado nas categorias de base do Botafogo-SP. Em outubro de 2019, ele foi condenado a um ano e quatro meses em regime aberto por lesão corporal por ter agredido sua então namorada em janeiro do mesmo ano. Na época, ele pertencia ao clube paulista e estava emprestado ao Santos, mas já tinha acerto com o Bragantino.

A defesa do jogador recorreu da decisão, e a condenação foi mantida em segunda instância. A sentença é definitiva. Wesley ainda cumpre a pena, mas tem permissão para trabalhar, treinar e jogar normalmente. Porém, precisa informar todos os deslocamentos à Justiça. 

A agressão pela qual Wesley foi condenado aconteceu em janeiro de 2019, em Sales Oliveira (SP). Segundo o boletim de ocorrência, o atleta teria chegado à residência da então namorada por volta da meia-noite com uma faca e a agrediu com socos e pontapés. A vítima também relatou à polícia que já tinha sido agredida pelo atacante em outras ocasiões e que ele agiu motivado por ciúme.

No início do ano passado, quando estava no Bragantino, Wesley sofreu uma lesão no ligamento do joelho e, quando se recuperou, perdeu espaço. Disputou apenas um jogo em 2020 pela Série A, contra o Atlético-GO. 

Em novembro do ano passado, o Paraná cogitou a contratação do jogador, mas, após uma reação da torcida feminina, o clube desistiu. Em dezembro, ele retornou ao Botafogo-SP, onde atuou em oito jogos pela Série B. Em fevereiro deste ano, o clube anunciou uma lista de saídas e confirmou o desligamento de Wesley.

Alguns dias depois, o Juventude chegou a anunciar o atleta, mas voltou atrás por causa da pressão, por causa do histórico de violência contra mulher. 

O Vitória ainda não se pronunciou sobre a condenação de Wesley. Mas, em áudio enviado via Whatsapp na semana passada, quando vazou a notícia da possível negociação, o presidente do clube, Paulo Carneiro, comentou sobre o caso. "Se tiver que contratar um jogador nessas condições, e ele já cumpriu sua pena, ele não pode estar na sociedade? Por que, se a Justiça já deu a ele essa condição? É você que vai fazer justiça?", falou.

Procurados pela reportagem, o Vitória informou que o clube, o presidente Paulo Carneiro e o atacante Wesley Pionteck não vão se posicionar sobre o movimento. 


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