Turismo: aluguel de imóveis por temporada é opção mais em conta para Carnaval

salvador
09.01.2020, 05:00:00
Atualizado: 09.01.2020, 06:47:41
Daniela alugou o apartamento para uma família no Réveillon (Arisson Marinho/CORREIO)

Turismo: aluguel de imóveis por temporada é opção mais em conta para Carnaval

Aumento da procura já é sentido desde de novembro, que, na comparação com setembro, registrou alta de 188%

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É alto verão na Bahia e ainda falta mais de um mês para o Carnaval, mas a casa da corretora de imóveis Daniela Oliveira, na Barra, já está cheia. Os hóspedes da vez vieram de Aracaju (SE) e Recife (PE) para passar o Réveillon e continuam por lá. A expectativa da corretora, que oferece 13 vagas na própria casa para quem queira pagar R$ 200 por dia em Salvador, é o Carnaval.

As hospedagens não convencionais caíram no gosto dos turistas. O professor de matemática carioca Gabriel Ritter, 33 anos, por exemplo, não quer mais saber de hotel. Desde o ano passado, quando encontrou um apartamento perto das ‘Gordinhas de Ondina’, ele e um grupo de amigos já sabem onde vão passar o Carnaval de 2020 e 2021.

Para quem lucra nessa época do ano, a exemplo de Daniela, os números já são animadores. Dados de uma pesquisa realizada pelo site Imovelweb, um dos maiores portais imobiliários do país, apontam que, em novembro passado, a procura por imóveis de temporada em Salvador já tinha crescido 188% em relação ao mês de setembro. 

Neste verão, Salvador deve receber 3,6 milhões de visitantes, de acordo com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), mas é no Carnaval o pico das locações de imóveis.

“Quanto mais perto do Carnaval, melhor. Os melhores meses são fevereiro e janeiro, seguidos de dezembro e março”, conta o arquiteto Éder Villarpando, 31, que aluga um quarto em casa e tem uma empresa, a My Home Bnb (@myhomebnb), para gerenciar o aluguel de outros imóveis.

Enquanto a ocupação dos hotéis permanece na média dos 95% entre o Réveillon e o Carnaval, o titular da Secult, Claudio Tinoco, aponta que o que aumenta mesmo é a procura por imóveis para alugar durante a folia. De acordo com ele, o público muda de um evento para o outro, o que também impacta na procura por uma hospedagem.

“Na virada, o público é composto por famílias. Já no Carnaval são grupos de jovens solteiros em virtude de vir para uma festa que tem a característica de rua, bloco e diversão. Neste caso, é muito comum encontrar essas hospedagens de grandes grupos em imóveis pequenos”, diz.

Desde o ano passado, segundo dados da Secult, a maioria dos que vieram para o Carnaval se hospedaram em casas ou apartamentos alugados - 32,5%. Entre os estrangeiros, a modalidade ficou em terceiro lugar - 14,1%.

Camarote e descanso
Quem passa pela Barra, Ondina e Avenida Sete perto do Carnaval consegue ver placas de aluga-se por temporada nas fachadas dos prédios. Nesses locais, os apartamentos até viram uma espécie de camarote privado. Também é nas ruas onde passam os trios e arredores que a maior parte dos foliões quer ficar.

A corretora de imóveis Daniela Oliveira aluga a própria casa e a casa de vizinhos na Rua João Pondé, na Barra, do ladinho da festa. Ela reconhece que o Carnaval é o forte e até uma mudança na folia pode impactar as locações.

“Quando Ivete ficou sem tocar no trio, eu perdi 50% dos clientes porque meu público é majoritariamente gay”, conta.

Assim como Daniela, a corretora de imóveis e diretora de eventos do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), Consuelo Leal, indica que os turistas têm preferência pelo circuito. “Para qualquer imóvel, a tendência na alta estação é de ter um aumento na procura. Agora existem pacotes específicos para ocasiões como Carnaval, que são de oito dias. Enquanto no Réveillon há uma busca por casas de praia, no Carnaval, o povo quer ficar perto do circuito", explica.

Sendo assim, até vale sair de casa para deixar o imóvel vago no período. É isso que a aposentada Edleusa Borges, 59, faz desde 2006, quando parou de trabalhar. O apartamento fica a 600 metros do final do circuito do Carnaval, em Ondina. A procura é grande e o imóvel já está alugado para 2020.

“Os turistas querem a folia na hora da folia e, na hora do descanso, querem um lugar para descansar. Como a minha casa não fica no circuito, é uma boa opção. No final do percurso, quando os foliões estão cansados, a casa está mais perto, mas não próximo do barulho”, conta.

Há quem saia de casa para liberar o apartamento para os turistas, mas tem gente que divide o imóvel com os inquilinos. Enquanto Edleusa vai para a casa da família na Ilha de Itaparica, Daniela pega um dos dois quartos da casa para ela e a filha - o resto do imóvel fica para quem quiser pagar os R$ 200 diários para curtir Salvador.

A corretora de imóveis Daniela Oliveira aluga a própria casa para fazer renda extra (Arisson Marinho/CORREIO)

A corretora oferece treze vagas para os hóspedes carnavalescos. Além do quarto da filha, que acomoda cinco pessoas e da sala que cabe mais seis locatários, mais dois amigos dividem o quarto com Daniela. Ela não trabalha com anúncios e apenas aluga por indicação - no boca a boca.

Preços mais altos
Com a procura, os preços também aumentam, em especial nas proximidades do percurso. Os preços das diárias ficam até oito vezes mais caros na semana do Carnaval.

“Tem apartamento com diária oito vezes mais caras. É um faturamento muito alto, muito mais que no ano”, diz Éder Villarpando.

Um studio ofertado pela My Home Bnb, por exemplo, custaria R$ 141 por noite entre os dias 22 a 28 de janeiro. No Carnaval, a diária sobe para R$ 1 mil entre os dias 21 e 27 de fevereiro. O imóvel fica a 10 minutos a pé do Farol da Barra, de onde saem os trios elétricos.

De acordo com Consuelo Leal, é possível achar um apartamento de dois quartos para até seis pessoas no circuito Barra-Ondina por R$ 8 mil. Já Daniela aponta que os aluguéis na Rua João Pondé variam de R$ 6 mil até R$ 11 mil. Entretanto, tudo depende do que o imóvel oferece e de quando o contrato é fechado.

O advogado presidente do Instituto Baiano de Direito Imobiliário (IBDI), Bernardo Romano, explica que a alta é comum. “É difícil falar de abusividade quando se lida com a questão natural de mercado, quem controla isso é a oferta e demanda”, diz. 

Dicas
Romano ainda indica fazer uma contratação prévia do imóvel para não ser pego de surpresa e ter que desembolsar mais do que o esperado. Na empresa de Éder, teve gente que já garantiu a locação em agosto.

Para quem não se adiantou, pode ser complicado encontrar um lugar com um bom custo-benefício. A corretora Daniela diz que a “época de procurar já acabou”. De acordo com ela, o ideal é começar a procurar um lugar para os festejos em outubro.

Deixar para fechar a hospedagem na última hora foi um problema para o estudante Breno Bastos, 18. Em uma viagem para o Festival de Inverno de Garanhuns, em Pernambuco, ele acabou tendo que pagar mais caro por um imóvel pior.

“Entrei em um grupo de pessoas que moram na cidade que disponibilizam a casa para essa temporada. Uma pessoa acerta o valor do imóvel para o período e depois divide com as outras pessoas que querem ficar lá. Na correria, falei com a pessoa que estava organizando o aluguel e tive que pegar no lugar do que o que sairia mais em conta”, conta.

Alugar é bom para os dois lados
Alugar um imóvel para o Carnaval pode beneficiar tanto os locadores quanto os locatários. Quem escolhe deixar o hotel de lado e alugar uma casa pode pagar mais barato do que em uma acomodação convencional, ainda mais se o viajante for ficar um período de tempo maior no destino.

O estudante Breno Bastos, 18, sempre escolhe ficar em um imóvel alugado durante suas viagens. “Comparo preços entre hostels e Airbnbs antes de escolher qual a melhor opção. Dificilmente me hospedo em hotéis, que costumam ser mais caros”, conta.

Quem viaja em grupos, como as pessoas quem vêm para Salvador no Carnaval, também vê a opção de ficar em um imóvel com bons olhos. O carioca Gabriel Ritter fica em um apartamento com os amigos e consegue dividir o pacote fechado para a folia, o que é interessante, em especial, pelo valor pago nos blocos.

“A gente precisaria de uns três quartos de hotel para ficar durante a viagem. No apartamento fica todo mundo junto e sai mais em conta”, diz.

Ficar com os amigos em uma casa também é um plus do aluguel por temporada. “Tem como fazer a sua comida na cozinha, tem uma sala, aí parece mais que está a gente está casa.No dia seguinte de ressaca do bloco, tem uma área de lazer”, ressalta Gabriel.

A estrutura de um imóvel alugado ainda permite que os custos sejam mais reduzidos com a possibilidade de utilizar cozinha a comida em casa e lavar as roupas no próprio local que foi locado, aponta Breno.

Os donos de imóveis percebem este movimento de troca do hotel pelos imóveis alugados, ainda mais com a facilidade das plataformas online. A procura se torna uma oportunidade para fazer uma renda extra.

É com o dinheiro que ganha alugando o apartamento da mãe no Canela que a advogada Uiara Leone paga o IPTU do imóvel. Ela cobra cerca de R$ 1.100 pela diária no Carnaval. “Com a locação de uma semana, dá para pagar o imposto e sobrar dinheiro. Vale a pena”, conta.

Já Edleusa Borges queria fazer uma renda extra depois de se aposentar. Então, decidiu botar o apartamento em Ondina para locar. Ela conta que não consegue cobrar o mesmo preço de antes, mas dá para ganhar uma grana para cobrir o que falta do salário de aposentada.

“Em média, eu alugo por R$ 8 mil. O 13º salário é menor quando se está aposentada, senti muita diferença no salário”, diz, sobre a motivação para começar a alugar o imóvel para o Carnaval em 2006.

Para Daniela Oliveira, o aluguel também é uma oportunidade de conhecer novas pessoas. Os hóspedes viram amigos e ela passa a ser turista em várias cidades do Brasil. “Recebi o convite para ficar 10 dias em Recife. Ainda faço um café da manhã coletivo com os hóspedes, é muito interessante”, comenta. A corretora ainda dá dicas sobre Salvador para quem aluga o seu apartamento.

O Gerente de Comunicação da Booking.com para a América Latina, Luiz Cegato, aponta que o principal desejo do viajante brasileiro que fica em acomodações alternativas é que seu anfitrião o faça sentir em casa (79%), segundo pesquisa da empresa. Para 78% dos viajantes do Brasil, oferecer um ambiente aconchegante é sinônimo de hospitalidade. Além disso, 62% dos turistas do país acreditam que os anfitriões podem dar dicas valiosas que os ajudem a economizar e evitar armadilhas para turistas.

Dicas para aluguel por temporada
Ninguém quer passar perrengue durante as férias, por isso é importante se atentar na hora de alugar um imóvel para ficar durante a viagem. É possível evitar problemas agindo com precaução. O advogado imobiliário e presidente do IBDI, Bernardo Romano, e a corretora de imóveis e diretora de eventos do CRECI-BA, Consuelo Leal, dão dicas de como fazer um bom negócio ao escolher este tipo de acomodação.

Documento - Para evitar fraudes, o turista deve pedir o documento de propriedade do imóvel para garantir que ele pertence realmente a quem está fazendo o aluguel.

Condomínio - Antes de bater o martelo, vale checar as convenções do condomínio para analisar se o conjunto habitacional não restringe atividades que o turista quer fazer, como convidar amigos e fazer festas.

Vistoria - É necessário fazer uma vistoria ao entrar imóvel alugado. Quem aluga deve ver se o local está compatível com o que as fotos mostravam. Se possível, fazer o processo com o dono ou um representante. É possível fazer uma ata notarial com um tabelião para apontar as condições do imóvel.

Risco - Com um advogado, é possível fazer uma clausula no contrato de locação que presume que qualquer item não registrado no documento estavam em condições precárias. Assim, é possível evitar ser culpabilizado por um problema já existente, mas que não foi identificado na vistoria.

Vizinhança - É importante observar onde fica o imóvel e se o local não é perigoso ou de difícil acesso. Checar se a região tem uma boa localização e oferece conforto, como padarias e farmácias próximas, também é válido.

Corretor de imóvel - Ao fechar um contrato com um corretor, é importante verificar se tem um registro profissional válido. Com o número do CRECI é possível verificar a situação do profissional junto ao conselho no site da entidade.

Imóvel existente - Se o turista tem um amigo na cidade, é interessante observar se o imóvel realmente existe no endereço apontado para não cair em fraudes.

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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