'Um castigo grande', desabafa bisavó de vítimas do acidente no Rio Paraguaçu

bahia
03.07.2020, 17:54:00
Atualizado: 05.07.2020, 20:18:22
Bombeiros fazem busca com canoas e jet skis (Foto: Divulgação)

'Um castigo grande', desabafa bisavó de vítimas do acidente no Rio Paraguaçu

Idosa admite que não tem mais esperança de encontrar familiares vivos

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Foto: Divulgação/Capitania dos Portos)

A matriarca passou a noite em claro. Na quinta-feira (2), uma canoa virou e parte de sua família – uma neta e três bisnetos –, e um pescador desapareceram nas águas do Rio Paraguaçu, na altura de Cabaceiras do Paraguaçu, cidade do recôncavo da Bahia.

Anatália Mota Santos, 81 anos, ficou a madrugada desta sexta-feira (3) inteira de joelhos dobrados, em oração, pedindo o fim da angústia. Apesar de tanta experiência e fé, ela já não tem mais esperança de encontrar alguém vivo.

“Foi um castigo grande morrerem quatro crianças de uma vez”, desabafou a idosa.

Ao todo, seis pessoas estavam no barco na hora do acidente, sendo dois adultos, uma adolescente e três crianças. Até agora, apenas uma das vítimas foi regatada: Paulo Roberto, 62.

Paulo Roberto tem vínculo familiar com todos os menores que estavam na embarcação. Ele é pai da adolescente Anatália, 14 – o nome foi dado em homenagem à matriarca da família – e avô das três crianças – Luís Felipe, 5, Adriele, 8 e Cauã, 11. Ele é casado com a filha da matriarca, que tem 25 netos e 15 bisnetos. A outra vítima é o pescador de prenome Roque, 50, sem ligação familiar com os demais desaparecidos.

Crianças desaparecidas após acidente com embarcação (Foto: Reprodução)

Desde ontem o Corpo de Bombeiros vem realizado buscas na região pelos cinco desaparecidos, mas sem sucesso. O tempo passa e, com isso, a angústia só cresce. “Tenho fé em Deus que os bombeiros vão achar todo mundo, mas não vivos”, disse Anatália na manhã desta sexta ao CORREIO.  

Em nota, o Corpo de Bombeiros informou que as buscas foram retomadas no início da manhã desta sexta, com equipes de mergulhadores do 13° Grupamento Bombeiro Militar (GBM) fazendo buscas subaquáticas e de náutica realizando as buscas pela superfície.

Bombeiros do 2°GBM/Feira de Santana também estiveram no local, assim como a Marinha do Brasil (MB), que enviou uma equipe para ajudar na busca aos desaparecidos. Sobrevivente, Paulo relatou que a canoa bateu numa vegetação de baronesas antes de virar com todos os tripulantes.

Bombeiros fazem buscas no local  com uso de mergulhares (Foto:site Correio da Cidade

Lembranças
Durante conversa com o CORREIO, a matriarca Anatália lembrou dos momentos que teve no final de semana com os bisnetos e, em especial, com a neta, que carrega seu nome. “Brincamos muito, levei ela numa loja e dei um sapato a Anatália. Em casa, ela me ajudou em muita coisa, varreu, lavou os pratos comigo, colocamos feijão no fogo, fizemos frango, fritamos carne, preparamos o almoço do domingo”, contou a idosa. 

Anatália disse que o coração está apertado. “Não tem um minuto que eu pare de pensar no que aconteceu. Estou sofrendo muito. Estou pedindo a Deus para isso acabar logo, esse sofrimento. A gente tem que pedir a Deus. A gente sem Deus é como uma folha seca voando. Que vida tem uma folha seca? Nada, né?”, diz a idosa.  

Buscas
As buscas foram iniciadas no mesmo dia do acidente e alguns pertences das crianças foram encontrados na água, como sapatos e um boné. A procura pelos desaparecidos foi retomada por volta das 7h30 desta sexta-feira. As famílias dos desaparecidos se misturaram aos pescadores para auxiliar os bombeiros. A procura por sobreviventes é realizada com barcos, motos aquáticas, canoas e lanchas.

"Vamos continuar até encontrarmos eles. Foi solicitado um reforço com Grupamento Aéreo da Polícia Militar (Graer)", declarou o tenente do CB Eli Antônio Lima. 

Segundo moradores da região, em alguns pontos do rio a profundidade chegam a 150 metros. “No local onde ocorreu o acidente, antes era um vilarejo que foi encoberto para a instalação de uma barragem”, contou Aloisio de Jesus, amigo da família. 

Ele contou que é comum o registro de acidentes no rio e que dificilmente há sobreviventes. “Normalmente os corpos são encontrados em locais diante do ponto do naufrágio ou ficam presos embaixo das baronesas”, relatou.

Ele lembrou de um episódio que ocorreu há cerca de três anos. “Depois de explodir um caixa eletrônico em Cabaceiras, cinco bandidos fugiram pelo rio na mesma rota do acidente de quinta. Usaram uma canoa para fazer a travessia na madrugada. Os corpos apareceram dias depois”, relatou.

O segundo dia de buscas continuou sem êxito. O Corpo de Bombeiros encerrou a procura desta sexta (3) por volta das 18h e afirmou que retomará os trabalhos no início da manhã de sábado.

De acordo com a corporação, as equipes compostas por mergulhadores e náuticos do 13° Grupamento de Bombeiros Militar (13°GBM/Gmar), com o apoio do 2°GBM, realizaram buscas, sub aquáticas e por superfície. Pelo menos, 10 bombeiros, além de equipes das Policias Militar e Civil (PM) e (PC), Departamento de Policia Técnica (DPT) e Marinha do Brasil (MB), também estão dando apoio às equipes de buscas, mas até o momento nenhum dos desaparecidos foi localizado.

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