Vaidade fútil

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12.05.2022, 05:00:00

Vaidade fútil

Em inícios da década de 1980 pesquisando jornais e revistas no Instituto Histórico, no intuito de escrever uma história da imprensa na Bahia, me deparei com propagandas antigas, incluí o assunto na minha pauta e dessa iniciativa resultou a publicação de um caderno especial de 16 páginas; repercutiu no Sul do país, saiu uma nota no O Globo, e fui convidado para escrever na revista Propaganda. Então, ampliei o meu campo de pesquisa para a publicidade brasileira. Ricardo Ramos, filho de Graciliano Ramos, era a maior autoridade na época no tema história da publicidade. Roberto Simões, querido e saudoso amigo, também escrevia sobre o assunto, pesquisa mais consistente que a de Ricardo, mas não era reconhecido.

Fiquei amigo de Roberto, compartilhávamos pesquisas e então desejei me tornar uma das autoridades no assunto, vaidade fútil, mas trabalhei para isso. Escrevi dois livros, uma história da propaganda baiana e outra da propaganda brasileira e produzi mais de 300 artigos publicados em revistas e jornais especializados: Propaganda, Marketing, Pronews, Propmark. Minha coluna “Memória”, na revista Propaganda, foi publicada de 2001 até 2020, abordando assuntos novos, e se temas já explorados, acrescentando novos elementos. Fiz a curadoria de duas exposições em dois congressos da ANJ e num deles produzi um tabloide de 16 páginas com o tema ‘A publicidade institucional dos jornais brasileiros’.

Resumindo: me tornei mais do que tinha desejado. Queria ser um dos maiores pesquisadores da história da propaganda brasileira e me tornei o maior. Quando viajava para São Paulo era apresentado nos eventos como um dos maiores especialistas da história da publicidade no Brasil. No início tinha orgulho disso, depois aquilo me incomodou, passei a encarar como uma ofensa. Vaidade fútil. Eu não era um dos maiores especialistas, era o maior. E tive ciência disso quando a Fundação Getúlio Vargas editou o Dicionário Histórico- Biográfico da Propaganda no Brasil com a chancela da Associação Brasileira de Propaganda. Meu nome aparece como referência em mais de 70 verbetes; os demais pesquisadores, todos juntos, aparecem em cerca de 50 verbetes.

Um dia, a Associação de Profissionais de Propaganda-APP me distinguiu com um troféu na condição de memorialista da propaganda, festa bonita, elegante, num teatro lotado em São Paulo. Mas continuei sendo “um dos maiores especialistas”. Deixei de ser quando a Intercom promoveu na sua reunião anual um debate com os maiores especialistas do país sobre a história da publicidade e na ocasião se criou um grupo para fomentar pesquisas sobre o tema. Não fui convidado, entrei de penetra no auditório, fiquei lá atrás observando, calado.

Anotei o nome dos maiores pesquisadores do país sobre o assunto que formavam a mesa para checar os currículos na internet. Chateado com minha ignorância, poxa, eu estudando o tema tantos anos e não conhecia os caras, que falha! Esgotei todos os buscadores da internet e descobri que os especialistas eram professores da USP e de outras universidades do Sul, nenhum deles tinha livro publicado, ou artigo científico, não encontrei nada além do currículo universitário. Coisas da Intercom. Pela mesma época fui convidado para escrever no Anuário Brasileiro de Marketing promocional uma história do marketing promocional no Brasil. Até hoje não existe outro texto sobre o assunto.

A vaidade fútil e outras demandas e objetivos me fizeram abandonar as pesquisas sobre o tema. Já escrevi o suficiente sobre o assunto. Cabe a outros ampliar a informação, sempre há campos novos a explorar.

Nelson Cadena é publicitário e jornalista, escreve às quintas-feiras.

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