Viagem ao fim e ao princípio

paulo sales
30.08.2021, 05:02:00

Viagem ao fim e ao princípio

Na semana passada um tio muito querido morreu. Também na semana passada morreram um professor de minha filha, de quem ela gostava bastante, e o integrante mais classudo e simpático dos Rolling Stones, Charlie Watts. Tudo isso num intervalo de pouco mais de 24 horas. Pensei em cada um deles e imaginei os três se deslocando como espectros que se juntavam a outros espectros rumo a sei lá onde ou de que maneira.

Imaginei então uma enorme auto-estrada de mão dupla, congestionada dos dois lados com almas indo e vindo. Eram como esboços daquilo que fomos e daquilo que ainda seremos. A estrada saía de algum ponto da Terra rumo ao espaço, como uma ponte enorme ou, talvez, um canudo gigante naquele coco azul e enevoado.

Essa auto-estrada iria para onde? Haveria um retorno em algum trecho do caminho, um voltar a não ser, um voltar a ter sido? Teria um desenlace ou seria uma eterna rota sem ponto final? Penso cá comigo se seria possível estabelecer algum tipo de comunicação entre os dois lados, quem sabe um aceno de adeus ou até um breve diálogo. Ou se seria como nas viagens de metrô, quando os vagões que vêm no sentido contrário mostram apenas borrões de vidas que não reconhecemos.

Quantas pessoas são expulsas do mundo em um dia? Quantas pessoas são lançadas no mundo em um dia? “Onde estará você, onde estaremos nós, hoje, dois pontos num universo inexplicável, perto ou longe, dois pontos que criam uma linha, dois pontos que se afastam e se aproximam arbitrariamente”, escreve Cortázar em O Jogo da Amarelinha.

Mesmo sendo um ateu sem chance de redenção, gosto de converter em imagens a possibilidade de um milagre que nos salve de virar apenas ossos, pó ou cinzas. Nunca li a Divina Comédia, e talvez por isso me faltem elementos para criar analogias mais férteis e visualmente ricas que essa rodovia banal que separa os que virão dos que já foram.

Lembrei agora dos versos de Vinicius em Aquarela, a bonita canção infantil que Toquinho gravou e fez enorme sucesso há algumas décadas: “Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá / O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar”. É simples assim. Agora outra questão: estaremos todos juntos nessa estrada? Ou haverá alguma distinção por classe social, origem geográfica e, principalmente, caráter?

Não seria nada agradável dividir o banco traseiro do carro ou o assento do trem celestial com algum canalha, ainda mais por toda a eternidade. Uma forma de aprendizado? Estou fora. Seria um carma grande demais para carregar por tanto tempo. Já não basta dar adeus à vida? Outra pergunta: aceitaríamos passivamente o nosso destino? Ou haveria alguma rebelião capaz de deter o processo inexorável de ir embora?

Invadiríamos a pista oposta, derrubando futuros rebentos, provocando acidentes e subvertendo a ordem com o caos? Imagino o congestionamento colossal, as buzinas, o desespero: mortos ainda não nascidos, mortos querendo nascer de novo. Não, definitivamente essa auto-estrada rumo ao firmamento não seria uma boa ideia. Talvez seja melhor nos conformarmos com a nossa insignificância e aceitar o nosso destino. É o que temos para hoje e amanhã.

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