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Estudo aponta que ausência de debate racial é maior em escolas particulares

Desconhecimento sobre desigualdade chega a 60,8% entre estudantes do ensino privado; dados mostram que alunos brancos são os que menos notam o tema.

  • Foto do(a) author(a) Matheus Marques
  • Matheus Marques

Publicado em 8 de junho de 2026 às 11:29

Caminhada da Liberdade comemorou o Dia da Consciência Negra
Eventos como a Caminhada da Liberdade ajudam a lembrar o Dia da Consciência Negra Crédito: Foto: Arisson Marinho

Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) revelam que a invisibilidade das discussões sobre raça é consideravelmente mais acentuada nos colégios particulares do que nos estabelecimentos da rede pública de ensino.

O índice de desconhecimento ou não reconhecimento sobre as pautas de igualdade racial atinge a marca de 60,8% entre os estudantes do ensino privado em ambas as etapas avaliadas, enquanto nas escolas públicas o indicador fica na casa dos 51%.

Tom em sala de aula por Divulgação
O Poder do Povo Preto: Cipriano e Lázaro Roberto por Lázaro Roberto

O distanciamento do tema também varia de forma nítida quando se observa o perfil étnico-racial dos próprios alunos. O relatório indica que os estudantes brancos são os que menos tem contato com o  assunto nas salas de aula, o que resulta uma taxa de não reconhecimento de até 55,4% no Ensino Médio.

Em contrapartida, a percepção da ausência do tema diminui de forma sutil entre alunos pretos (51,2%), pardos (50,2%) e indígenas (46,8%).

Falta de fiscalização e o mito da pauta exclusiva

A socióloga Flávia Rios, professora da USP, adverte que os colégios particulares sofrem uma cobrança institucional e uma fiscalização significativamente menor por parte dos órgãos reguladores para dar cumprimento à legislação.

Esse cenário abre margem para distorções pedagógicas e episódios de discriminação. Segundo a docente, as leis vigentes possuem o papel central de transformar mentalidades, estruturando conteúdos, comportamentos e atitudes cidadãs que reflitam a diversidade real do país.

A análise técnica endossa que a construção de caminhos antirracistas não deve ser encarada sob uma ótica restritiva. "Não deve ser entendida apenas como uma política voltada para estudantes negros, mas como uma formação cidadã para todos os grupos sociais", pontua Eliane Firmino, do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), considerada uma das instituições de pesquisa mais importantes e tradicionais do Brasil na área de ciências sociais. 

Barreiras práticas e a rotina nos colégios

A realidade de quem acompanha a rotina escolar esbarra na superficialidade com que o tema costuma ser abordado, muitas vezes limitado a datas comemorativas específicas.

Mães de estudantes, como a advogada Karina Berardo em Brasília e a servidora pública Juliana Couto, relatam que o debate real ainda é raro, sendo comum que crianças e adolescentes só tomem contato com a questão ao tratar do período histórico da escravidão ou quando enfrentam episódios diretos de preconceito.

Para reverter o quadro, o relatório técnico do Saeb sugere que os governos adotem ações imediatas, com foco em materiais didáticos intencionais, diversificação do corpo de professores e treinamento de gestores para garantir que a lei seja cumprida de forma homogênea em todas as redes de ensino.

Tags:

Brasil Racismo Educação Estudante Politica