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'Há uma renovação no Congresso associada às mídias sociais’, afirma especialista ao CORREIO

Redes sociais, eleições e IA: pesquisador e professor da PUC-Rio, Arthur Ituassu, analisa o futuro da política em 2026

  • Foto do(a) author(a) Rodrigo Daniel Silva
  • Rodrigo Daniel Silva

Publicado em 25 de novembro de 2025 às 05:30

Arthur Ituassu lançou recentemente o livro “A nova regra do jogo: mídias digitais, política e democracia”
Arthur Ituassu lançou recentemente o livro “A nova regra do jogo: mídias digitais, política e democracia” Crédito: LabCOM Criação e Produção

As redes sociais já deixaram de ser apenas um espaço de comunicação para se tornarem um dos principais campos de disputa política no Brasil. Mas seu impacto está longe de ser homogêneo. Uma pesquisa recente revela que o peso do ambiente digital varia enormemente entre os estados e afeta de maneira distinta as campanhas para a Câmara dos Deputados.

Nesta entrevista, o professor e pesquisador da PUC-Rio, Arthur Ituassu, responsável pelo estudo, explica como as mídias sociais têm barateado as campanhas, qual o perfil dos candidatos que mais se beneficiam delas e por que partidos menos tradicionais conseguem navegar melhor nesse ecossistema. Ele detalha ainda a força persistente do Facebook, o avanço do TikTok e o impacto que a inteligência artificial terá em 2026.

Ituassu lançou recentemente o livro “A nova regra do jogo: mídias digitais, política e democracia”, que aborda as transformações políticas e democráticas a partir da ascensão das mídias digitais.

O senhor publicou uma pesquisa recentemente na qual mostra o impacto das redes sociais nas eleições para a Câmara dos Deputados em 2022. O que mais te chamou a atenção nos resultados obtidos?

O primeiro achado que eu destacaria é que, em alguns contextos estaduais, as mídias sociais parecem ter um efeito muito maior sobre o resultado eleitoral do que outros. A gente viu que Paraná, Pernambuco, Minas Gerais são estados onde as mídias sociais parecem ter um efeito muito maior, por exemplo, do que Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão. Outro dado interessante é que a gente percebe uma associação muito clara entre eficiência financeira - no sentido de o candidato precisar de menos recursos por voto - das campanhas e a utilização das mídias sociais. E a gente percebe que quem usa as mídias sociais e têm um desempenho melhor nelas acabam tendo também uma eficiência financeira melhor. As mídias sociais, de uma certa forma, barateiam as campanhas eleitorais.

Barateia, em média, quanto?

Não tenho esse dado de média. O dado que tenho é que as campanhas com melhor desempenho em mídias sociais têm mais alta eficiência financeira. Foi uma coisa que a gente achou em 55% dos contextos estaduais. Há associação entre desempenho nas mídias sociais e eficiência financeira das campanhas. Um outro dado interessante é a despesa com os anúncios digitais. Ainda é muito incipiente. Entre os eleitos, foi pouco mais de 5%. Ou seja, ainda muito baixo, mas já vemos os anúncios digitais tendo algum impacto em determinados contextos. Isso é interessante porque a impressão que a gente tem é que os anúncios digitais vão ser uma ferramenta cada vez mais utilizada, porque permite que o candidato, sem presença orgânica nas mídias sociais, possa competir com quem tem presença orgânica. Se eu tenho recursos para investir em anúncios digitais, eventualmente, eu consigo disputar na arena digital com quem tem uma presença orgânica forte.

As campanhas com melhor desempenho em mídias sociais têm mais alta eficiência financeira

Arthur Ituassu

Pesquisador e professor da PUC-Rio

Isso abre espaço para uma renovação política mais ampla?

A gente percebe que já há um tipo de candidato novo, um tipo de político novo no Congresso Nacional, um político novato, ou em primeiro ou em segundo mandato. 66% dos que entraram em 2022 são de primeiro ou segundo mandato. E, dentre esses 66%, tem uma maioria muito forte em mídias sociais. Então, tem uma transição, uma transformação no Congresso Nacional com uma renovação associada às mídias sociais.

Por que o impacto das redes sociais nas campanhas varia tanto entre os estados. No caso da Bahia, onde o deputado mais votado, Otto Alencar Filho, quase não usou as mídias sociais?

É o caso do Rio de Janeiro também. A gente não tem um estudo exatamente sobre isso, mas há algumas hipóteses. No caso do Rio, a gente imagina que práticas eleitorais de campanha - base, igrejas, crimes -, que estão fora do ambiente digital, podem ter maior peso na eleição para o Congresso Nacional nesses estados do que as mídias sociais. Mas a gente também imagina que as mídias sociais podem ser um território ainda a ser explorado nesses estados.

É possível hoje se eleger fora das redes sociais?

Ainda é. Você vê muita gente eleita (sem presença forte nas mídias sociais), pelo menos, para o Congresso Nacional. A eleição proporcional é diferente da eleição majoritária. Se você vai para um cargo majoritário, hoje é muito difícil escapar de fazer política nas mídias sociais. Muito difícil, eu diria quase impossível. Agora, para um cargo legislativo, muitas vezes ainda consegue ser eleito com práticas que estão fora da comunicação.

O campo da direita ainda continua levando vantagem nas mídias digitais? Por quê?

Continua. Entre os tops dos estados, o PL, se eu não me engano, vai estar em 13 ou 14. A direita ainda tem um peso hegemônico, mas não significa que não tem competidores na esquerda. É o caso de Gleisi Hoffmann no Paraná, e André Janones em Minas Gerais. A direita teve um posicionamento de vanguarda nas mídias sociais. Mas a ideia de que só a direita sabe fazer mídias sociais, ela não se sustenta.

Eu diria que não é tanto uma questão de direita e esquerda, mas de partidos tradicionais versus partidos não tradicionais. O PL é nitidamente um partido não tradicional. Já partidos tradicionais, como PT e PSDB, têm uma burocracia mais tradicional.

Há segmentos específicos de deputados que acabam levando vantagem nas mídias digitais?

A gente percebe que designações, como capitão, general, têm um desempenho muito forte nas mídias sociais. Capitão Alden, por exemplo. A questão da segurança pública hoje é uma questão fundamental no país. Então, essa dimensão da designação militar acaba sendo favorecida no ambiente digital.

Os resultados da sua pesquisa indicam que o Facebook está longe de ser uma plataforma “morta”, como muitos acreditam?

Não está (morta). Não mesmo. A gente percebe uma importância ainda muito grande no Facebook, até hegemônico em alguns estados, como no Acre, Amazonas, Rio Grande do Sul, e uma importância secundária, mas relevante na maior parte dos estados no Brasil.

O Facebook ainda concentra um eleitorado mais velho?

O Facebook tem uma tendência a pegar um público com uma faixa de idade mais elevada que o Instagram. O que a gente está tendo como hipótese para a próxima eleição é uma importância muito grande do TikTok, que já foi muito nas eleições na Argentina, Colômbia, Nova Iorque, no Chile. É um novo terreno a ser explorado nas eleições de 2026.

A inteligência artificial vai estar presente, sem dúvida nenhuma, de forma generalizada nas campanhas em 2026

Arthur Ituassu

Pesquisador e professor da PUC

Qual será o impacto da inteligência artificial em 2026?

A inteligência artificial funciona para uma série de coisas de campanha. Ela produz imagens, organiza a campanha, ajuda a pensar a partir dos resultados, qual conteúdo viraliza e qual não viraliza. Ajuda a dimensão da linguagem a ser utilizada. Então, a inteligência artificial vai estar presente, sem dúvida nenhuma, de forma generalizada nas campanhas em 2026.

A televisão ainda é decisiva nas eleições, mesmo após 2018 e casos como Bolsonaro e Pablo Marçal, que mostraram a força das redes sociais?

Essa é uma pergunta interessante. Muita gente pensa que o que está acontecendo no ambiente midiático é uma lógica substitutiva, no sentido de que as mídias sociais viriam para substituir o rádio, a televisão e o jornal. O que a gente percebe no ambiente midiático contemporâneo é que não é isso que acontece. O que acontece é uma complementaridade e uma transformação adaptativa. A televisão, o rádio, o jornal, eles não deixam de ter importância. O que acontece é que eles têm que ser utilizados de forma complementar às mídias sociais. E cada vez a gente percebe isso mais nas campanhas. É uma ideia de muito mais complementaridade do que de substituição.

Em uma entrevista recente, o senhor afirmou que os eleitores buscam cada vez mais candidatos semelhantes a eles. O que exatamente significa isso?

A lógica da mídia digital é de proximidade, de não hierarquia, de relação direta entre o político e o cidadão. O político não está em um lugar inatingível. Agora, você manda mensagem para o político, cobra do político. O que isso traz? Isso traz, por exemplo, muito menos respeito aos políticos. Isso faz com que o cidadão queira, cada vez mais, que o político faça o que o cidadão quer que ele faça.

É como se eu dissesse: ‘olha, se você não faz o que eu quero, para que eu preciso de você? Eu mesmo posso votar no meu celular as matérias do Congresso Nacional. Para que eu pago o seu salário, se você não faz o que eu quero?’. Essa é uma lógica que a gente percebe muito claramente na relação entre o político e o cidadão hoje.

Isso é danoso para a democracia?

As mídias sociais trazem transformações para a política e a democracia. Há uma democratização da comunicação, com uma possibilidade de fala muito maior. As campanhas são menos dependentes de recursos, menos dependentes dos caciques dos partidos. Tem uma participação muito maior do eleitorado, do cidadão na política do tinha antes na época da televisão, quando o cidadão era muito passivo.

Tudo isso é positivo para a democracia, mas, ao mesmo tempo, temos um populismo digital. Essa relação direta faz com que o político seja cobrado a dar resoluções imediatas para as coisas. Então, a gente vê uma tendência a um populismo muito grande para agradar. A economia da atenção reforça argumentos radicais. Há uma radicalização muito grande da política com as mídias sociais. E tem a questão da desinformação, que é uma consequência fundamental das mídias digitais também.

Antes, na eleição presidencial, a questão da economia era o principal tema. Agora, a pauta moral vai ser decisiva nessa eleição presidencial ou não? 

Os valores já têm sido o que na ciência política chama de pautas pós-materiais. Eles já têm sido fundamentais nas eleições no mundo todo, não só no Brasil. Não é que a economia deixa de ter importância, mas você passou a ter, além da economia, a importância de outras questões - identitárias, família, gênero. Essas questões passaram a fazer parte do topo dos temas políticos.

Arthur Ituassu é professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde também concluiu o doutorado

SERVIÇO

Livro: A nova regra do jogo: mídias digitais, política e democracia

Número de páginas: 104 

Editora: FGV

Valor: R$ 36,75

Onde comprar: Amazon