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Juliana Rodrigues
Publicado em 23 de março de 2026 às 07:37
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia mudanças no comando do Ministério da Fazenda, incluindo a possível saída de Fernando Haddad. Após cerca de três anos à frente da política econômica do governo, o ministro é apontado nos bastidores como possível reforço político do governo em São Paulo para as eleições de 2026. Para o lugar, o nome de Dario Durigan, atual secretário-executivo da pasta, é citado como provável substituto, com o objetivo de manter a continuidade da agenda fiscal.
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Dario Durigan e Haddad
Após três anos de gestão, Fernando Haddad acumulou avanços institucionais relevantes, mas sem conseguir entregar, até aqui, uma transformação estrutural completa na economia. Medidas como o Novo Arcabouço Fiscal e a Reforma Tributária avançaram no Congresso, porém de forma parcial e ainda dependentes de regulamentação e ajustes para produzir efeitos mais amplos. Apesar de alguma melhora em indicadores macroeconômicos em determinados períodos, o cenário segue marcado por incertezas fiscais, frustrações recorrentes de metas e dúvidas sobre a trajetória da dívida pública. A inflação mostrou resistência em alguns momentos, e o crescimento perdeu fôlego mais recentemente, enquanto o mercado de trabalho, embora mais aquecido, ainda convive com informalidade elevada. Nesse contexto, o início do ciclo de queda da taxa Selic pelo Banco Central refletiu não apenas os dados domésticos, mas também o ambiente externo, e a recuperação do consumo das famílias ocorreu de forma desigual, pressionada pelo nível de endividamento e pelo custo do crédito.
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Apesar de indicadores macroeconômicos com desempenho positivo em alguns períodos, a gestão de Fernando Haddad enfrenta resistência interna em setores do próprio governo e da base aliada, colocando o ministro entre os principais alvos de críticas de segmentos da ala mais à esquerda do PT e de movimentos de base. Para esse núcleo, as novas diretrizes fiscais são vistas como uma reedição do Teto de Gastos, com potencial de limitar investimentos em infraestrutura e desenvolvimento, na avaliação desses grupos.
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A defesa de Haddad por metas fiscais mais restritivas, incluindo o equilíbrio das contas públicas, aumentou a pressão interna sobre o ministro dentro do partido, gerando divergências públicas com a cúpula da legenda, liderada por Gleisi Hoffmann. Críticos argumentam que os mecanismos de controle de despesas, que podem limitar a expansão de concursos públicos e subsídios, são apontados como um possível entrave ao crescimento e ao fortalecimento do serviço público e evidenciam a divisão interna sobre o ritmo e a intensidade da expansão dos gastos públicos.
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Se no Congresso o ministro é frequentemente descrito como um articulador habilidoso, sua imagem pública foi impactada em meio a críticas de parte da população diante da estratégia de ampliação de receitas. A estratégia da Fazenda de buscar novas receitas para cumprir metas fiscais gerou reação de parte dos consumidores, simbolizada pelo impacto de medidas como a tributação sobre compras internacionais de baixo valor, com incidência de imposto de importação e ICMS, episódio que popularizou nas redes sociais o apelido Taxad.
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Entre os pontos de maior desgaste político estão a regulamentação das apostas esportivas e a disputa em torno da revisão da desoneração da folha de pagamento de 17 setores. O tema gerou forte reação de sindicatos e entidades de classe, sendo parcialmente resolvido após negociação com previsão de transição gradual da carga tributária.
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A biografia política de Fernando Haddad é marcada por sua trajetória dentro do PT e por sua atuação em momentos decisivos do partido. Ex-prefeito de São Paulo (2013-2016), o ministro ampliou sua projeção interna ao assumir a candidatura presidencial em 2018, em substituição a Luiz Inácio Lula da Silva, que estava impedido de concorrer com base na Lei da Ficha Limpa, ocasião em que obteve cerca de 47 milhões de votos no segundo turno. Apesar do capital político, tem no currículo derrotas eleitorais relevantes, como a tentativa de reeleição na capital paulista em 2016 e o revés na disputa pelo governo de São Paulo em 2022. A derrota, no entanto, ocorreu antes de sua indicação para o Ministério da Fazenda, em um contexto que reforçou sua relação de confiança com o presidente e sua atuação política em contextos eleitorais desafiadores.
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O cenário político para 2026 aponta para uma possível reconfiguração. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou, nesta quinta-feira, 19 de março, a possibilidade de Fernando Haddad deixar o Ministério da Fazenda para disputar as próximas eleições, com o nome do atual secretário-executivo, Dario Durigan, citado como possível substituto. O movimento é interpretado como parte de uma estratégia política para que Haddad seja considerado como possível candidato ao Governo de São Paulo, com o objetivo, segundo interlocutores, de fortalecer o palanque no maior colégio eleitoral do país.
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Amparado pela aprovação da Reforma Tributária, ainda em fase de regulamentação, e por avaliações positivas pontuais de agências de classificação de risco, Haddad é apontado como possível nome fora da Esplanada, sendo citado por aliados como um dos nomes cotados na sucessão dentro do campo lulista. Interlocutores do governo avaliam que a estratégia é utilizar um nome com projeção nacional e interlocução com o setor produtivo para enfrentar um cenário em que Tarcísio de Freitas aparece bem posicionado nas pesquisas. Entre o compromisso com metas fiscais e o cenário eleitoral, Haddad é visto por aliados como um dos principais nomes na estratégia política de Luiz Inácio Lula da Silva.
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