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O fim da cultura do medo no coração do transporte da capital federal

Aprovação do terminal em Brasília salta para 86% após um ano de concessão com usuários relatando o fim da cultura do medo e lojistas dobrando as vendas na formalidade

  • Foto do(a) author(a) Juliana Rodrigues
  • Juliana Rodrigues

Publicado em 2 de junho de 2026 às 14:00

Rodoviária do Plano Piloto - Brasília.
Rodoviária do Plano Piloto - Brasília. Crédito: Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Quem dependia da Rodoviária do Plano Piloto em Brasília há pouco mais de um ano guardava uma rotina comum de sobrevivência urbana, baseada em esconder o telefone celular e acelerar o passo.

as escadas rolantes foram prioridade para a nova gestão. por Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Neste dia primeiro de junho, a privatização do terminal mais movimentado da capital chega à marca de um ano sob o comando da Concessionária Catedral .Esse primeiro ciclo provocou uma mudança profunda na percepção de dignidade para as cerca de 700 mil pessoas que cruzam o complexo diariamente, fazendo a aprovação do espaço disparar de 45,61% para expressivos 86,13%.

O novo arranjo divide as responsabilidades. A empresa privada cuida de toda a infraestrutura física por meio de um contrato de duas décadas, enquanto o Governo do Distrito Federal monitora o desempenho de forma digital e mantém o controle total sobre as linhas de ônibus, as tabelas de horários e as tarifas.

Manutenção rápida e segurança transformam a estrutura

A recuperação começou pelas demandas mais urgentes da população, como escadas rolantes e elevadores constantemente travados. A nova administração implementou uma rotina de manutenção preventiva 24 horas. O administrador do complexo, Leonardo Moreira, pontua que a agilidade foi crucial para restabelecer a confiança de quem transita pelas plataformas.

"Nós entregamos as escadas rolantes em funcionamento já no primeiro dia de trabalho. Já estamos com as 12 escadas rolantes modernizadas e com os elevadores também em funcionamento", detalha o gestor.

O porta-voz acrescenta que qualquer interrupção técnica é corrigida em cerca de dez minutos, o que ajudou a derrubar os índices de vandalismo a quase zero. A presença de 62 câmeras modernas com reconhecimento facial também fez a avaliação da segurança avançar de 32,70% para 85,89% na pesquisa de opinião.

A reconquista do espaço e da mobilidade

A desobstrução de calçadas e corredores, antes tomados pelo comércio irregular, devolveu a liberdade de circulação aos pedestres. Para a dona de casa Manoela Suzart, que transita diariamente com a filha Elisa, uma cadeirante de seis anos, a mudança trouxe alívio imediato.

"Facilitou e melhorou muito. Antes tinha muitos ambulantes e ficava difícil passar com ela. Agora me sinto mais segura com o elevador funcionando e não tenho mais medo de roubo", desabafa.

O novo cenário também transformou o trabalho de profissionais da educação inclusiva. A professora Karina Gonçalves, que ensina técnicas de autonomia para pessoas com deficiência visual, lembra que o tumulto antigo inviabilizava as aulas práticas no terminal.

"Antes era um horror ensinar os alunos aqui. Sem o barulho excessivo dos camelôs e com as plataformas livres, a travessia deles ficou muito melhor", explica a educadora.

Da informalidade ao comércio legalizado

Uma parceria com o Sebrae organizou o comércio no terminal, transformando antigos ambulantes em locatários formais. O complexo abriga 150 lojas estáveis que geram cerca de 450 empregos diretos. Para o vendedor de açaí Alex Alves, que trabalhou 15 anos na informalidade, a mudança encerrou um ciclo de instabilidade.

"Essa fase de ambulante não foi fácil, era muito sofrimento e correria. Regularizar foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, acabou a discriminação e as vendas dobraram", festeja.

O comerciante Aduir da Silva, que vende salgados na rodoviária há quase duas décadas, também conseguiu expandir o negócio livre da clandestinidade.

"A gente corria muito e perdia mercadoria. Agora, graças a Deus, estou trabalhando dentro da lei e empregando seis pessoas", afirma Aduir.

Novos banheiros e expansão com terminal do BRT

A revitalização resgatou a normalidade do convívio urbano e estimulou o consumo no terminal. O administrador Leonardo Moreira aponta que a maior vitória do primeiro ano foi a mudança de comportamento do público nas plataformas.

"Antes as pessoas evitavam vir à rodoviária e guardavam o celular. Hoje, você consegue ver todo mundo usando o aparelho tranquilamente e parando para lanchar", analisa o gestor.

O cronograma agora avança para intervenções estruturais pesadas. Após concluir o reforço dos pilares principais, as equipes trabalham na recuperação de vigas e lajes, além de iniciarem a reforma completa dos banheiros para entregar um padrão de shopping center. Os próximos passos incluem a construção do novo terminal do BRT e a manutenção de serviços sociais recém-criados, como a sala de amamentação e o espaço multissensorial para pessoas com autismo.

Tags:

Transporte Brasília