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Banjo Novo: a vela, o fetiche e a chama que não se apaga

Unindo ancestralidade e samba raiz, evento vira objeto de desejo nas noites de Salvador

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 23:18

Banjo Novo é objeto de desejo nas noites de Salvador
Banjo Novo é a nova Crédito: Saulo Miguez

Essa é uma daquelas histórias que nascem assim meio despretensiosas e se transformam numa verdadeira coqueluche. O produtor cultural Samora Lopes resolveu celebrar a estreia de um banjo novo no dia do seu aniversário. Para isso, juntou alguns amigos em uma laje no bairro do Trobogy e fez a brincadeira. Resultado: aquele encontro informal bombou e virou algo mais sério.

Quem foi, pediu bis e fez questão de incentivar. Ao lado de Igor Reis, Samora resolveu incrementar o processo e fazer um samba raiz, juntando a pegada da rua com a musicalidade e tradições das religiões de matrizes africanas. Hoje, pouco mais de dois anos depois, o projeto Banjo Novo já beira os 100 mil seguidores no Instagram e se transformou em um dos principais objetos de desejo das noites de sexta-feira soteropolitanas. Além do perfil no Instagram, o Banjo Novo está presente no Youtube e Spotify.

Banjo Novo é objeto de desejo por Saulo Miguez

A ideia inicial foi levar aquele samba leve e gostoso para diferentes bairros da capital baiana, fazendo uma festa itinerante que reúne amantes do ritmo. O Banjo, por sua vez, não é só samba. Há, em cada apresentação, a propagação da cultura de resistência negra que está diretamente atrelada às histórias dos seus idealizadores.

Nessa mistura de elementos, alguns ingredientes tornam a experiência única e ajudam a despertar o desejo de um público sedento por novidades. O resgate da ancestralidade, a convocação para o uso das roupas brancas, o repertório que mescla clássicos do samba de terreiro com canções contemporâneas do ritmo e releituras da MPB, mas, principalmente, a surpresa em relação ao casting de convidados e a cerimônia da vela que conta o tempo da festa, têm sido o combustível desses encontros que transbordaram dos pequenos espaços de evento e já lotam arenas icônicas, como o Largo do Pelourinho.

O crescimento da festa é resultado do conjunto de experiências que o Banjo vem ofertando desde a sua origem. Os realizadores estão sempre buscando inovar, porém, fazem questão de preservar as raízes, manter a qualidade musical e a fidelidade ao ritmo. Assim, o Banjo Novo congrega memória, ancestralidade e cultura ao contexto contemporâneo.

A produtora cultural Joana Mariana é uma das fiéis seguidoras do grupo. Ela destaca o resgate da ancestralidade através da música e do empoderamento negros. “Esse crescimento da festa é fruto de uma identificação. No público existem pessoas que são da mesma religião, ou não, mas que se identificam e por isso a festa vem se fortalecendo cada vez mais”, disse.

Para Igor Reis, o Banjo se consolidou como uma grande confraternização, um espaço de encontro autêntico entre pessoas que compartilham energia, memória e ancestralidade. “Ali, o público se reconhece, se acolhe e se fortalece, reunido pela musicalidade e força que atravessa gerações e pela vivência coletiva que só Salvador é capaz de proporcionar”, celebrou.

Amigo de infância de Samora, George Assis Pereira define o grupo como um legítimo representante do samba puro de raiz. “O Banjo está aí para exaltar a nossa ancestralidade, porque o samba é uma das sonoridades que ecoam nos terreiros de Candomblé aqui em Salvador”, destacou.

A vela

Samora Lopes conta que a vela marcando o tempo do samba é algo presente no imaginário coletivo do soteropolitano. “A gente criou um ritual e todos abraçaram. Porque o Banjo é essa construção coletiva. As pessoas estão abraçando o projeto muito por conta desse imaginário e a vela é mais um elemento”, disse o idealizador em entrevista ao CORREIO durante o evento que encerrou as celebrações do Novembro Negro, no Pelourinho.

A chegada da vela é o momento mais esperado da noite. O anúncio da entrada do objeto na festa é marcado pela transição rítmica do samba para o ijexá. Nesse momento, o característico toque do agogô sobressai em meio à percussão e é possível sentir cada nota e toda a efervescência, swing e frescor que marcam essa linha musical tão baiana.

Naturalmente, o samba no pé transmuta em uma levada que sobe do chão e toma conta de todo o corpo. O público é conduzido a se embalar na coreografia que emula o balanço do mar e corre como brisa à beira de praia num dia de Sol.

É tradição um convidado conduzir o castiçal acompanhado do cortejo de sopros, ao som do ijexá até o palco. O objeto luminoso é então colocado no centro da mesa que acolhe os músicos e o intocado banjo que permanece lá desde o início do samba. A festa só termina quando o pavio e a última faísca se apagam.

Já participaram desse cortejo nomes como padre Lázaro Muniz; a jornalista Val Benvindo, neta da fundadora do Ilê Aiyê; Vadinho França, fundador do Bloco Alvorada (criado em 1975); e o ator Sulivã Bispo. Na edição do Pelourinho, o diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), Marcelo Lemos Filho, cumpriu a função.

O fetiche do Banjo

Autodeclarada super apaixonada por samba, Aline Pereira explica que o Banjo Novo trouxe um fetiche para Salvador que tem atraído muita gente que deseja conhecer essa mística da vela, da vestimenta branca, do culto à Oxalá e o resgate da ancestralidade africana através da música. Frequentadora dos shows do grupo, ela conta que a lei da oferta e da procura tem selecionado demais o público e, por isso, defende a realização de mais eventos abertos.

“Quando abre as venda dos ingressos, no mesmo dia acaba. Por isso que um evento em praça pública, aberto para que todos possam vir, sem que haja qualquer recorte étnico ou econômico faz com que o projeto esteja ainda mais nos braços do povo. Quem não pôde ir nos outros eventos, hoje veio no Pelourinho curtir esse show maravilhoso com o primor dos eventos fechados, só que gratuito”, disse.

Cheila Queiroz foi uma das espectadoras que estreou no Banjo Novo graças ao show aberto do Pelô. Ela está nessa lista de pessoas que tentou, sem sucesso, comprar ingresso para assistir ao Banjo. A mística, para além da qualidade musical, foram determinantes para despertar em Cheila a vontade de conhecer a festa. “Começar o samba com uma vela e o samba só acabar quando a vela apagar, isso é coisa de gente de terreiro, não é qualquer samba não”, disse.

Henrique Batista, outro tradicional seguidor do Banjo, ressalta o elemento surpresa da lista de convidados. “A gente vem sem saber que irá cantar. Não tem uma banda certa, um cantor certo. É uma mistura de vários músicos que se juntam para fazer um movimento só, mas que é sempre muito envolvente. A gente curte do início ao fim e nunca é ruim”, disse.

Bem-vindos ao Banjo

Com a cidade já em plena preparação para o Carnaval, a festa no Pelourinho foi o cartão de visita para muitas pessoas de outros estados e países conhecerem o Banjo. A dominicana Minoska Mateo estava de visita a Salvador e fez questão de prestigiar o evento. O amor à cultura brasileira e, sobretudo, ao samba a motivaram a marcar presença no Largo. Ela guardou posição bem em frente à Fundação Casa de Jorge Amado e caiu no samba.

“Eu ouvi falar desse grupo e disse: 'sim'! irei assistir’. Cheguei aqui no dia certo e estou achando incrível essa minha primeira visita à cidade de Salvador. É muita música, é muita dança, é muita energia, muita alegria e paixão”, descreveu.

Natural de Salvador, o engenheiro Vitor Oliveira chegou com um grupo de amigos do Rio de Janeiro para conhecer o Centro Histórico e, de quebra, assistiram ao show do Banjo Novo pela primeira vez. “Me surpreendeu essa festa, com essa estrutura e qualidade”, contou.

Quem também aproveitou a visita à Bahia para assistir ao grupo foi a psicóloga gaúcha Natália Andrade. O show do Banjo foi a cereja do bolo da curta temporada em Salvador, marcada por muitas festas no Centro Histórico. “No primeiro momento, fiquei até um pouco assustada com a quantidade de coisas e movimentos daqui, não esperava que fosse uma cidade tão movimentada, mas estou gostando bastante”, disse.

Ela destacou ainda a particularidade do turismo soteropolitano. “Salvador é uma cidade muito turística, mas com muita vida. Não é aquele turismo tradicional. É algo muito próprio onde as pessoas estão vivendo e fazendo suas coisas. Eu acho isso muito bom”, completou.