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Mariana Rios
Publicado em 29 de maio de 2026 às 19:56
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras reacendeu o debate sobre a violência urbana no Brasil e os impactos da guerra às drogas nas periferias. Na Bahia, estado marcado pela expansão das facções e pelo avanço da letalidade policial nos últimos anos, o tema também levanta discussões sobre como o crime organizado se espalhou para além das comunidades periféricas. >
Coordenador do do IDEAS - Assessoria Popular, organização da sociedade civil que oferece assistência jurídica para comunidades, Wagner Moreira afirma que a presença das organizações criminosas não se restringe aos territórios historicamente associados à violência. “As facções estão presentes no Corredor da Vitória, na Pituba e no Itaigara”, diz o pesquisador, ao criticar a associação automática entre periferia e crime organizado.>
facções transformam cidades pequenas da Bahia em territórios de guerra
Em entrevista ao CORREIO, Moreira avalia que a medida adotada pelos Estados Unidos tem mais relação com soberania nacional e disputa política internacional do que com soluções concretas para os territórios mais afetados pela violência. Segundo ele, comunidades negras e periféricas convivem há anos com a presença do crime organizado, disputas armadas e ausência histórica do Estado, mas enquadrar facções como grupos terroristas não responde à complexidade da crise enfrentada na Bahia.>
CORREIO: A Bahia pode ser considerado um território dominado pela guerra às drogas?>
Wagner Moreira: A Bahia é um território complexo que vem sendo fortemente marcado pela guerra às drogas, sim. E essa guerra acontece em dois contextos: tanto nos embates entre facções, pelas disputas de território e de rotas, quanto nas disputas entre o Estado, especialmente as polícias, e o universo faccionado.>
Esse cenário preocupa porque legitima uma lógica permanente de guerra, mas com pouca capacidade de resposta efetiva do Estado para reverter a ocupação territorial. Há operações, apreensões de armas, prisões e pequenas quantidades de drogas retiradas de circulação, mas isso não altera a dinâmica estrutural da violência. Também faltam políticas públicas capazes de transformar esses territórios.>
A Bahia tem sido fortemente impactada pela guerra às drogas e aparece, inclusive, entre os estados com maiores índices de letalidade policial nos últimos anos.>
Como PCC e Comando Vermelho atuam hoje nas comunidades baianas?>
É importante entender o processo de nacionalização das facções brasileiras. PCC e Comando Vermelho operam, sobretudo, como grandes distribuidoras de armas, munições e drogas no atacado, criando relações locais que nem sempre reproduzem exatamente os modelos do Rio de Janeiro ou de São Paulo.>
E ajudaram a consolidar essa expansão conjuntos habitacionais periféricos sem estrutura pública, presídios de segurança máxima e transferências de lideranças criminosas entre estados.>
A atuação desses grupos nos territórios baianos ocorre por associação e adaptação às características locais. >
Setores ligados à polícia abriram espaço para a entrada dessas organizações. Como exemplo, a expansão do Comando Vermelho na região da Gamboa, em Salvador, associado ao contexto da chacina da Gamboa.>
Ela foi precedida de uma atuação da milícia, que abriu espaço e forçou esse processo de nacionalização.>
Como a presença das facções impacta a rotina das comunidades?>
O impacto varia de território para território, mas afeta diretamente o cotidiano das populações periféricas. Há casos de cobrança de “taxas de segurança” a comerciantes, restrições à circulação e alterações no funcionamento do transporte público, do comércio e das escolas.>
Algumas localidades convivem com confrontos constantes entre facções e polícia, enquanto outras operam sob uma lógica de evitar enfrentamentos armados. Essas diferenças dependem da organização territorial, do tamanho das comunidades, do número de acessos e da presença — ou ausência — do Estado.>
Reconhecer o impacto das facções sobre os territórios não significa classificá-las automaticamente como organizações terroristas com objetivos políticos de desestabilização do Estado.>
Quais regiões da Bahia concentram maior presença das facções?>
Alguns bairros e comunidades ganharam maior visibilidade pública por causa da cobertura midiática da violência, especialmente em áreas como o Complexo do Nordeste de Amaralina, Gamboa de Baixo, Bosque das Bromélias e São Cristóvão, em Salvador.>
Mas o crime organizado está espalhado por diferentes regiões da cidade, inclusive em áreas nobres, mas a exposição midiática costuma se concentrar em territórios periféricos e negros. Então existe presença organizada no Corredor da Vitória, na Pituba, no Itaigara. A violência também está ligada a mecanismos econômicos mais amplos, como lavagem de dinheiro e infiltração em setores empresariais.>
O que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas representa para as comunidades negras e periféricas?>
A decisão do governo norte-americano não deve alterar diretamente a realidade cotidiana das comunidades, mas pode aprofundar disputas políticas e afetar a soberania brasileira.>
O Brasil já possui legislações específicas para enfrentar o crime organizado e mecanismos voltados ao combate da lavagem de dinheiro e do financiamento dessas organizações.>
Há o risco de reforço do estigma sobre jovens negros e moradores de periferias - já que o próprio Estado frequentemente associa pessoas oriundas desses territórios ao faccionamento, independentemente de participação efetiva em organizações criminosas.>
O faccionamento vem sendo ampliado a partir dessa dicotomia nacional, mas também pela forma como o Estado olha para esses setores.>
Classificar PCC e CV como organizações terroristas não ajuda a resolver a crise da violência urbana e pode ampliar pressões externas sobre o Brasil sem trazer benefícios concretos para as populações afetadas.>