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Por que Salvador tem dois níveis? A história por trás da Cidade Alta e Cidade Baixa

Historiadores contam como falha geográfica determinou divisão na capital baiana

  • Foto do(a) author(a) Millena Marques
  • Millena Marques

Publicado em 1 de março de 2026 às 06:30

Elevador Lacerda passa por requalificação
Elevador Lacerda liga Cidade Baixa à Cidade Alta Crédito: Lucas Moura/Secom PMS

Quando Salvador foi fundada por Tomé de Sousa como capital da colônia portuguesa, em 1549, uma falha geográfica contribuiu para a separação dos dois planos da cidade. O acidente tectônico natural, conhecido como a Falha de Salvador, definiu a distinção entre Cidade Alta e Cidade Baixa.

"Desde o início, a cidade foi pensada para ser uma cidade-fortaleza, o que se chama de acrópole (do grego akropolis). Acro é cabeça, pólis é cidade. Salvador tem uma fortaleza natural, a Falha de Salvador", explica o historiador Ricardo Carvalho, mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

O desnível de aproximadamente 85 metros entre a parte baixa, às margens da Baía de Todos-os-Santos, e o planalto acima influenciou diretamente o crescimento da cidade em dois planos. Com um terreno mais seguro, a parte mais elevada foi transformada na sede do núcleo do poder. Enquanto isso, a parte baixa foi destinada ao comércio e ao porto marítimo.

"A separação não foi acidente, não foi estabelecida por decreto, mas estava embutida em uma lógica geográfica e de uso do espaço, mesmo que a cidade tenha crescido de modo espontâneo e desigual nos séculos seguintes", continua.

Ao longo dos mais de 470 anos, a distinção física acabou se consolidando social e funcionalmente. Além de características territoriais, as divisões geográficas foram transformadas em marcos socioculturais históricos, pois influenciaram os processos de ocupação da capital baiana, a primeira capital do Brasil.

"As áreas elevadas eram mais cobiçadas e seguras. Locais onde não se concentrava lixo eram mais privilegiados; não à toa eram os espaços onde ficavam as construções mais imponentes", destaca o historiador Rafael Dantas, mestre pela Ufba e pesquisador na área de cultura material e iconografia.

Destacam-se entre tais construções o Palácio Rio Branco, antiga sede do governo da Bahia, com arquitetura histórica (séculos XVIII-XX); o Palácio do Arcebispado, antiga residência episcopal da época colonial; e o Palácio Tomé de Souza, atual prédio da Prefeitura de Salvador.

Já as partes baixas não concentravam tais privilégios. O porto, no entanto, destacava-se pela movimentação financeira, por onde a riqueza da cidade circulava. "A Cidade Baixa dessa região, do que hoje conhecemos como a área da Conceição da Praia até onde fica o Mercado do Ouro, era uma área de grande relevância, que concentrou parte significativa de todos os índices da economia do hemisfério Sul ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII", complementa Dantas.

Barbalho (2011) por Arquivo/CORREIO

Divisão sociopolítica

Desde o período colonial, o desnível natural entre o platô e a área portuária estruturou também uma hierarquia de poder, circulação e ocupação social. "A divisão sociopolítica se manifestava entre esses dois aspectos de uma forma muito clara. Primeiro na arquitetura, nos casarios, na divisão das ruas e, com o passar do tempo, evidentemente, nas intenções de melhoramentos urbanos ao longo das transformações urbanas de Salvador", destaca Dantas.

A escravidão teve papel central nessa configuração. A Cidade Baixa era o principal ponto de chegada de africanos escravizados trazidos pelo tráfico atlântico, além de ser espaço de trabalho compulsório em atividades portuárias, comerciais e de serviços. O movimento constante moldava a paisagem humana do local.

"Escravidão está presente em todo o aspecto desde a criação de Salvador. E, principalmente, na área baixa, todo esse trabalho comercial, marítimo, de navegação, de uma forma ou de outra, estava voltado à mão negra. Não só a questão naval, a arquitetura, a construção da cidade, as ferragens, os carregadores, os carregadores de cadeirinha etc. Quem movimentava tudo isso era a mão negra", diz Dantas.

Mesmo com investimentos simultâneos em diferentes períodos, especialmente entre os séculos XVIII e XIX, a experiência cotidiana reforçava as distinções. Mais do que dois níveis topográficos, Cidade Alta e Cidade Baixa representaram, ao longo da história, dois polos complementares e desiguais de uma mesma cidade, estruturados pela lógica do poder, do comércio atlântico e pela profunda marca da escravidão na formação social de Salvador.

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Salvador Cidade Alta Cidade Baixa