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Maria Raquel Brito
Publicado em 27 de março de 2026 às 20:50
A arte faz Salvador ser o que é. Aquela que está na rua, então, é um retrato fiel da efervescência da cidade. O Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC) nasceu para celebrar isso. Nesta semana, a iniciativa chega à 8ª edição em Salvador, ocupando o Centro de Salvador e Massaranduba com intervenções artísticas até domingo (29). >
O festival reúne este ano mais de 100 artistas locais, nacionais e internacionais para quatro dias de arte urbana, encontros e ocupação criativa da cidade. O tom é de celebração: além do aniversário de Salvador, o evento celebra sempre o Dia Internacional do Graffiti, celebrado nesta sexta-feira (27). Em homenagem à arte que guia o festival, as atividades do BTC voltaram-se hoje para a comunidade, com uma vivência na Fazendinha do Museu de Street Art de Salvador (MUSAS).>
Vivência de arte e graffiti no Coletivo Musas marca o festival
“A gente passa o final de semana comemorando. Pintando, fazendo graffiti, coisa que é o que a gente mais sabe fazer. E o muro, quem puder ter essa oportunidade, pode ver realmente que parece um bolo, aquele bolo de noiva. A gente vai fazer a decoração com os desenhos desse bolo para o aniversário de Salvador”, diz o grafiteiro Bigod O Sapo, um dos idealizadores do BTC.>
Nesta edição, o tema que guia o BTC é “Tecnologia e Ancestralidade”, que enaltece a arte mãos na massa num cenário em que a inteligência artificial reina. >
“Nesse momento novo que está todo mundo usando a tecnologia, inteligência artificial e realidade virtual para a arte, a gente traz essa provocação: e a tecnologia ancestral, a comunicação, a conexão que a gente perdeu? É provocar os artistas a não se prenderem só no meta quest e usando IA. Vamos voltar ao passado, vamos fazer essa tecnologia da conexão, da linguagem artística e sonora”, diz.>
Ao todo, 60 artistas foram selecionados via convocatória pública pelo Coletivo Vai e Faz, enquanto outros 40 participam de forma independente. Um dos artistas participantes é o paulista Fernando Reche, que veio como artista voluntário pela primeira vez, com o objetivo de estabelecer uma conexão com outros artistas. Segundo ele, esse é um intercâmbio cultural fantástico para ele e outros artistas, sobretudo com o tema deste ano. >
“Acho que o graffiti, no geral, sempre foi e sempre será resistência, então a gente traz isso do hip-hop, do próprio graffiti, dessa questão das lutas pelos oprimidos e desfavorecidos. É uma busca sempre por essa visibilidade e esse não apagamento. Acho que trazer de volta essa visibilidade para nossa ancestralidade, principalmente para os povos originários, tem tudo a ver. (...) Acho que esse evento, por ser aqui, tem um papel fundamental para a gente, culturalmente e de relembrança das nossas ancestralidades”, afirma.>
A programação inclui pinturas de murais e do circuito BTC 2026, mutirões de graffiti, masterclass e mesa de debate sobre arte urbana e mídias sociais. Mas não é só isso: o diálogo entre o spray e o som também se faz fortemente presente. >
A parte musical será concentrada na Praça Tereza Batista, no Pelourinho, com o BTC Sound Fest. O palco receberá shows de BNegão, Freelion e Fragmento de Samba. A cultura sound system será representada pelo Ministereo Público e coletivos como Respiro Soundz e Vidas Negras Sistema de Som, promovendo batalhas de dub e encontros musicais.>
Segundo Bigod, é impossível separar essas formas de arte. “Quando a gente está pintando individualmente, está com fone de ouvido, ouvindo música. Quando a gente está em casa desenhando, pensando no que vai pintar, a gente está ouvindo música. Quando estamos em amigos, comemorando aniversário, casamento de alguém, pintando no muro, a caixinha de som está ligada ali, com uma música que todo mundo gosta. O graffiti é um pilar do movimento hip hop, que tem o DJ, que tem o MC, que tem o B-Boy, então não tem como desassociar. A gente sempre pensa: depois de um dia inteiro pintando, os artistas vão para um lugar se reunir para ouvir um som, beber, comer alguma coisa. A gente pensa nesse pós graffiti”, afirma. >
O festival nasceu há 11 anos, através de uma inquietude do grafiteiro Bigod O Sapo e quatro outros membros do coletivo Vai e Faz: eles perceberam que iam com frequência para eventos do Brasil inteiro, mas Salvador não tinha nenhum. >
“Então a gente se reuniu, trocou ideia e falou: ‘não, a gente precisa montar um evento em Salvador para receber nossos amigos, porque a gente vai nas cidades deles e eles não conseguem vir aqui porque não acontece nada em Salvador de eventos do grafite’. Teve uma mostra internacional, mas foi uma vez só, então a gente queria fazer esse evento calendarizado”, conta.>