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Carol Neves
Agência Einstein
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 09:30
A endometriose permanece como um dos maiores desafios da ginecologia moderna. Crônica, recorrente e sem cura definitiva, a doença atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a estimativa varia entre 5% e 15%, de acordo com o Ministério da Saúde. Ainda assim, o diagnóstico costuma levar anos — um atraso que agrava sintomas, compromete a fertilidade e afeta a qualidade de vida das pacientes. >
Caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, a endometriose pode atingir ovários, tubas uterinas, intestino e peritônio. Essas células respondem ao ciclo hormonal menstrual da mesma forma que o endométrio dentro do útero: crescem e sangram. A diferença é que, fora do útero, o sangue não tem como ser eliminado, provocando inflamação, aderências e dor persistente.>
Por esse comportamento, a doença é classificada como benigna, mas tem caráter crônico e recidivante. Não há, até o momento, um tratamento capaz de eliminar definitivamente as lesões e impedir seu retorno. “É uma doença que depende de mecanismos genéticos que a fazem persistir no corpo da mulher”, explica o ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho, especialista em endometriose do Einstein Hospital Israelita.>
Jovem perdeu movimentos após tratamento para endometriose
Apesar disso, nem todas as mulheres convivem com sintomas ao longo da vida. Com acompanhamento adequado, muitas conseguem controlar a dor e preservar a fertilidade. “Se ela não tem dor e vive bem, por que não dizer que poderia estar ‘curada’?”, questiona o ginecologista Ricardo De Almeida Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).>
Doença multifatorial e manifestações diversas>
Descrita há mais de um século, a endometriose passou a ser compreendida com maior profundidade apenas nas últimas décadas. Hoje, a medicina reconhece seu caráter multifatorial, resultante da interação entre fatores genéticos, hormonais e imunológicos.>
Essa complexidade explica a diversidade de sintomas. Cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, alterações intestinais ou urinárias cíclicas e dificuldade para engravidar estão entre as manifestações mais comuns. A infertilidade, segundo a Febrasgo, está presente em 30% a 50% dos casos. “A dor pode vir acompanhada da dificuldade de engravidar, que pode coexistir com outros sintomas. As manifestações mais comuns são dor pélvica e infertilidade, mas isso não exclui que a mulher apresente todo o conjunto”, relata Gonçalves Filho.>
Do ponto de vista biológico, a predisposição genética cria um terreno favorável, enquanto o estrogênio e falhas do sistema imunológico contribuem para a progressão da doença. A inflamação exacerbada na região pélvica desempenha papel central tanto na dor crônica quanto no crescimento das lesões.>
Alguns grupos apresentam maior risco, como mulheres com menarca precoce, ciclos menstruais curtos, fluxo intenso e ausência de gestações. “A medicina já sabe muita coisa: que é uma doença genética, imunológica, como cuidar, tratar e diagnosticar”, afirma Quintairos. “O que ainda não sabemos é por que, em algumas mulheres, a endometriose é leve, e em outras, tão grave.”>
A hipótese mais aceita para a origem das lesões é a da menstruação retrógrada, quando parte do fluxo retorna pelas tubas uterinas para a cavidade abdominal. No entanto, como esse fenômeno ocorre na maioria das mulheres e apenas entre 6% e 10% desenvolvem endometriose, a teoria não explica todos os casos, segundo estudo de 2024 no International Journal of Molecular Sciences.>
Tratamentos focados em controle, não em cura>
Sem possibilidade de erradicação definitiva, o tratamento da endometriose tem como objetivo principal aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida. A abordagem é individualizada e leva em conta a gravidade da doença, a idade da paciente, o desejo reprodutivo e a resposta a terapias anteriores.>
Anti-inflamatórios são usados para o controle da dor, enquanto terapias hormonais buscam suprimir a menstruação e reduzir o estímulo às lesões. Anticoncepcionais combinados, progestagênios, dispositivos intrauterinos com levonorgestrel e análogos de GnRH integram o arsenal terapêutico. Ainda assim, a interrupção do tratamento costuma levar à volta dos sintomas. “Uma mulher pode fazer tratamentos muito bem-feitos e a endometriose, infelizmente, voltar”, lamenta Gonçalves Filho.>
Pesquisas recentes indicam que estratégias complementares podem ajudar no controle da dor. Estudos apontam benefícios da acupuntura, da prática regular de exercícios físicos e de ajustes alimentares. Revisões científicas sugerem que a suplementação de vitaminas D, C e E pode reduzir sintomas, embora os especialistas ressaltem a necessidade de mais evidências para protocolos consistentes.>
Quando o tratamento clínico falha — especialmente em casos de dor refratária, infertilidade ou comprometimento de órgãos —, a cirurgia pode ser indicada. A videolaparoscopia é o procedimento mais comum, com técnicas como a cirurgia robótica sendo utilizadas para aumentar a precisão. Mesmo assim, a recorrência permanece possível. “Não existe um tratamento melhor, existe um tratamento melhor para determinadas condições clínicas que a mulher tem”, ressalta Quintairos.>
Diagnóstico tardio e impactos além da dor>
O diagnóstico segue como um dos principais entraves. Embora a videolaparoscopia com biópsia seja o padrão-ouro, trata-se de um método invasivo. Exames de imagem, como a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética, têm ampliado a capacidade diagnóstica, sobretudo nos casos de endometriose profunda.>
Ainda assim, no Brasil, o tempo médio até o diagnóstico é de sete anos. “No mundo todo, há uma grande dificuldade para fazer o diagnóstico precoce. É uma barreira que ao longo do tempo não melhorou”, afirma Quintairos. Segundo ele, a falta de familiaridade de médicos generalistas com a doença contribui para esse atraso.>
As consequências vão além do aspecto físico. Estudos associam a endometriose a maior prevalência de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e estresse crônico. Há também impacto econômico significativo: uma revisão sistemática estimou custos anuais de até US$ 12,9 mil por paciente com diagnóstico prévio, com predominância de perdas relacionadas à produtividade.>
“O que falta é um pouco de trabalho do ponto de vista governamental e político com campanhas públicas que massifiquem a mensagem para que as mulheres entendam que aquela cólica forte não é normal”, defende Quintairos.>
Novas frentes de pesquisa>
Diante das limitações atuais, a ciência busca alternativas mais eficazes e menos invasivas. Terapias antifibróticas, medicamentos hormonais mais seletivos e abordagens baseadas em medicina de precisão estão entre as principais apostas. Estudos investigam desde compostos naturais, como a neferina, até antagonistas de GnRH de segunda geração, como elagolix e relugolix.>
A inteligência artificial também começa a ser incorporada, sobretudo no auxílio ao diagnóstico, com modelos capazes de identificar padrões em exames e prontuários. Pesquisas com biomarcadores, como microRNAs na saliva, indicam caminhos promissores para diagnósticos mais precoces no futuro.>
“Acho que nos próximos quatro ou cinco anos sairão medicamentos interessantes”, projeta Quintairos. “O problema é que o preço muitas vezes é incompatível com a realidade que vivemos aqui. Mas espero que, com o tempo, a gente consiga usar e resolver alguns casos de maneira mais tranquila.”>