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Matheus Marques
Publicado em 28 de abril de 2026 às 11:00
O Lago Paranoá, subsiste hoje com uma "cidade fantasma" que dá voz a uma lenda candanga que nem as muitas águas turvas e escuras foi capaz de apagar. A Vila Amaury, uma vila operária que serviu de morada para cerca de 16 mil pessoas durante a construção da capital, foi submersa em 1959 escondida pelas águas. >
Inundada para a formação do lago, a região transformou-se em um sítio arqueológico, onde mergulhadores exploram alicerces, escadarias e objetos que testemunham o cotidiano dos pioneiros que ergueram a cidade.>
A vila submersa que o cerrado brasileiro esconde há 67 anos
A Vila Amaury transcendia o conceito de simples acampamento; era uma comunidade pulsante, dotada de igrejas, escolas e comércio ativo. Contudo, sua localização no fundo de um vale selou seu destino. >
Em 1959, com a conclusão da barragem e o iminente fechamento das comportas, a retirada tornou-se obrigatória. Houve resistência: os moradores se negavam a abandonar o local sem garantias habitacionais para suas famílias.>
A professora Maria Fernanda Derntl, da UnB, explicou em entrevista ao jornal O Globo sobre a natureza provisória da ocupação: “A ideia é que esse lugar era, por natureza, um lugar provisório, justamente porque quando a barragem do Lago Paranoá ficasse pronta, ele acabaria sendo inundado. Então, ele estava fadado a desaparecer”, pontuou a especialista.>
Diante da subida das águas, que já alcançavam a altura dos joelhos dos residentes, a NOVACAP emitiu um ultimato para a desocupação. Esse movimento deu origem a cidades-satélites como Taguatinga, Gama e Sobradinho. >
Relatos confirmam que a inundação superou a velocidade prevista, forçando famílias a abandonarem pertences e até carcaças de veículos, hoje relíquias subaquáticas.>
A exploração dessas ruínas hoje é conduzida por mergulhadores técnicos como o fotógrafo Beto Barata. Nascido em Brasília, ele relata que a experiência vai muito além do exercício profissional; trata-se de um reencontro com o imaginário da sua infância. Para quem cresceu ouvindo as lendas sobre uma cidade escondida sob o lago, ver as estruturas surgirem diante dos olhos traz uma carga emocional única.>
Beto descreve a profundidade como um depósito de memórias dos operários que ali residiam. “Havia vários mergulhadores que já fizeram esse mergulho, retiraram muitos objetos debaixo d'água, como garrafas, óculos, sapatos da época, porque ficaram para trás; as pessoas saíram fugidas e deixaram essas coisas para trás”, relatou.>
A exploração, entretanto, exige perícia. Segundo Barata, a visibilidade restrita do lago forjou uma escola de mergulhadores mais capacitados no Distrito Federal. “A visibilidade do lago não é muito boa. Tem alguns mergulhadores que falam que o Lago Paranoá é o pior lugar do mundo para se mergulhar por causa disso. Mas, em compensação, a flutuabilidade e a navegabilidade dos mergulhadores daqui são bem melhores do que no resto do Brasil, porque é um mergulho mais técnico”, destaca.>
Em suas incursões mais profundas, próximo à barragem, onde o leito atinge os 40 metros, ele chegou a localizar um antigo píer perdido a cerca de 37 metros de profundidade.>
O surgimento do lago foi um projeto defendido com ardor pelo presidente Juscelino Kubitschek. Para o fundador, a capital seria incompleta sem seu espelho d'água: “Como inaugurar Brasília sem o lago tão amplamente anunciado e que, além do mais, seria a moldura líquida da cidade?”, questionava JK.>
Apesar das dificuldades geológicas que adiaram as obras de engenharia — sob responsabilidade da norte-americana Raymond Concrete Pile of the Americas —, o otimismo de Kubitschek prevaleceu sobre o ceticismo dos críticos que duvidavam do enchimento da bacia. Ao ver o projeto concretizado, o ex-presidente não hesitou em responder aos opositores com uma ironia histórica: “Encheu, viu?”.>
Hoje o lago Paranoá, abriga além da "Atlântida" brasiliense , a ponte JK, considerada a mais bonita do mundo.>