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Donaldson Gomes
Publicado em 7 de março de 2026 às 06:00
Após uma semana de combates entre a coalizão formada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, os dois lados caminham para a adoção de estratégias bastante distintas. Enquanto, norte-americanos e israelitas prometem ampliar a intensidade dos ataques, as forças armadas iranianas se preparam para estender o combate, tornar o conflito cada vez mais caro e “vencer” os inimigos pelo cansaço – como em um jogo de gato e rato. >
Os novos ataques norte-americanos serão direcionados ao programa de mísseis de Teerã e à neutralização da “infraestrutura do regime” dos aiatolás, segundo fontes militares. Ainda no dia 28 de fevereiro, quando iniciaram-se os bombardeios à capital persa, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, foi morto em seu quartel-general. Além dele, diversos líderes do exército e da guarda revolucionária – uma força de elite da teocracia islâmica – foram abatidos. >
Quem era Ali Khamenei
“À medida que transitamos para a próxima fase desta operação, desmantelaremos sistematicamente a capacidade futura de produção de mísseis do Irã, e isso já está em andamento”, disse o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central dos EUA (Centcom), em coletiva na última quinta-feira (5). Isso deve levar algum tempo, segundo ele. Cooper disse que as forças dos EUA destruíram mais de 200 alvos no Irã e destruíram 30 navios de guerra desde o início do conflito, incluindo uma embarcação porta-drones na quinta-feira. Na quarta-feira, o chefe das Forças Armadas, Dan Caine, afirmou que os EUA já tinham atingido mais de dois mil alvos iranianos no conflito.>
Israel também falou em nova fase do conflito, que inclui novos impactos às capacidades militares do Irã.>
“Após concluir a fase de ataque surpresa, na qual estabelecemos superioridade aérea e suprimimos o arsenal de mísseis balísticos, agora estamos avançando para a próxima fase da operação. Nesta fase, iremos desmantelar ainda mais o regime e suas capacidades militares. Temos outras surpresas pela frente que não pretendo revelar”, afirmou o tenente-general Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior do Exército israelense.>
O secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth, acrescentou que os bombardeios norte-americanos na nova fase do conflito serão mais devastadores e terão como alvo “infraestrutura do regime” iraniano.>
Donald Trump
“O poder de fogo sobre o Irã está prestes a aumentar drasticamente”, projetou. “Se vocês acham que já viram algo, apenas esperem. A quantidade de poder de fogo que ainda está vindo, combinada com as forças de Israel, vai se multiplicar”, afirmou.>
A nova fase deve incluir o uso de bombas gravitacionais de alta precisão, segundo indicou na quarta-feira o almirante Dan Caine, comandante do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA. Segundo ele, o Exército dos EUA mudarão a estratégia dos bombardeios, de grandes ondas para ataques mais precisos, com armamentos que terão ogivas de 225 kg, 450 kg e 900 kg.>
Guerra longa >
Hegseth ainda afirmou que o Irã está cometendo um erro se acredita que os Estados Unidos não podem sustentar a guerra em andamento, acrescentando que Washington apenas começou a lutar. “O Irã espera que não possamos sustentar isso, o que é um erro de cálculo muito grave”, disse. “Podemos continuar essa guerra pelo tempo que precisarmos”, garantiu.>
Ganhar tempo parece ser mesmo a estratégia iraniana. Como em um jogo de futebol com duas equipes de qualidades bastante diferentes, os “donos da casa” farão de tudo para levar o jogo até à prorrogação, e, quem sabe, à disputa de penalidades. >
O especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), afirmou à BBC que o atual objetivo militar do Irã não é vencer os Estados Unidos ou Israel “em uma guerra convencional”, mas sim transformar o conflito em um evento “prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro”.>
A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião. Ela descreve a estratégia do Irã como “uma guerra de atrito”, projetada para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.>
Com uma das maiores forças armadas do Oriente Médio, estima-se que o Irã mantenha cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês). >
Apesar das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados, segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da inferioridade convencional.>
Em entrevista à emissora norte-americana NBC, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o Irã está preparado para uma possível invasão terrestre por tropas dos Estados Unidos. A Guarda Revolucionária Islâmica disse que está pronta para travar uma guerra prolongada.>
Araghchi ainda afirmou que está “esperando” pela chegada das tropas americanas. “Isso seria um desastre para eles”, disse o chanceler. “O sistema está funcionando, os comandantes foram substituídos e o líder supremo será substituído”, avisou. >
Segundo o porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica, o país pretende introduzir armamentos avançados que ainda não foram vistos no campo de batalha. Em comunicado, o brigadeiro-general Ali Mohammad Naeini disse que os inimigos do Irã “devem esperar golpes dolorosos” na próxima nova onda de ataques.>