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Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 11:00
O que está acontecendo com O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho, e com Wagner Moura não é pouca coisa. Eles atingiram um patamar de força e brilho no meio artístico mundial que não nos é comum. >
São muitos prêmios, homenagens e entrevistas pelo mundo todo. Um reconhecimento raro dos meios intelectuais e também da indústria. O Agente Secreto é um sucesso no campo artístico e faz dinheiro, gera renda e empregos que irradia por todo o mercado. Um movimento generoso que beneficia direta e indiretamente diversos produtores, distribuidoras, salas de cinema, trabalhadores do audiovisual… muita gente ganha com o sucesso do filme.>
O Agente Secreto exerce um legítimo "soft power”, que é a capacidade de influenciar brasileiros e estrangeiros mundo afora.>
O Agente Secreto
Kleber, Wagner e Emilie Lesclaux (produtora do longa) não descansam desde maio (Festival de Cannes) e já quase não lembram mais onde estão quando acordam.>
O Agente Secreto é um filme autoral, de personalidade própria, com leis próprias (apesar de todas elas estarem calcadas na história do cinema). Cenas e situações únicas, que ficam na memória de todos os que assistem ao filme. Mesmo daqueles que não se encantaram num primeiro momento. Vale lembrar que quando falamos de arte, gostar ou não passa a ser irrelevante. Temos de entender, com o tempo, o que fica da obra em nós. Em se tratando de O Agente Secreto, há muita lenha para queimar. Debates ricos surgem diariamente a partir das mais variadas possibilidades de reflexão que o filme carrega.>
O filme tem a cara do Recife, carrega as lendas da cidade, mas isso não o impede de ser visto, apreciado e elogiado por críticos do mundo todo.>
Para completar, o protagonista, Wagner Moura, é baiano de Salvador. É a velha conexão PEBA (Pernambuco e Bahia) funcionando mais uma vez. Dessa feita, de forma emblemática e quebrando uma hegemonia secular do eixo sul do país.>
Veja outros momentos e trabalhos de Wagner Moura
Não posso deixar de mencionar, no entanto, a distribuidora independente Vitrine Filmes que vem fazendo um trabalho espetacular desde antes do lançamento do longa. Silvia Cruz, fundadora da Vitrine, é a responsável pela distribuição de centenas de filmes nacionais na última década, fazendo com que o público brasileiro descubra o seu cinema e a nova geração de cineastas.>
Mas, como explicar esse sucesso de Wagner Moura? Como compreender tamanho reconhecimento a partir dessa atuação em O Agente Secreto?>
Trata-se, obviamente, de um ator talentoso, dedicado, vibrante e arrojado. Wagner jamais se acomodou em zonas de conforto. Ele encarou situações arriscadas e soube dizer não no momento correto. Após o sucesso de Narcos, Wagner recusou papéis caricaturais em Hollywood e levou seus agentes à loucura. “Um filme leva a outro”, diziam. Wagner não topou. Pode-se dizer que Wagner tomou a decisão correta.>
Wagner vem do teatro baiano dos anos 90, celeiro absurdo de atrizes e atores talentosos. Havia uma cena estabelecida, um tanto caótica e anárquica, mas que funcionava muito bem naquela época. Os teatros da cidade estavam cheios. Os atores e atrizes estavam contentes. Trabalhando. Criando. Peças diversas e que interessavam ao público ficavam meses em cartaz. Isso não existe mais. Infelizmente. Foi nesse cenário que Wagner floresceu.>
Esse ambiente fértil despertou Wagner, que fez amigos para a vida toda no teatro da Bahia. Tanto que Wagner resolveu voltar a sua cidade natal esse ano ao montar a peça "Um Julgamento, depois do Inimigo do Povo", uma adaptação de Henrik Ibsen dirigida por Christiane Jatahy, em meio à promoção de O Agente Secreto pelo mundo. Aliás, algo que foi considerado insano por muitos. Wagner não abriu mão e retornou.>
No teatro, o ator está no centro das atenções. Os gestos são naturalmente maiores para que todos do público possam ver. A voz é, via de regra, impostada para ecoar ao máximo. Lembremos dos teatros gregos com capacidade para vinte mil espectadores. A grandiloquência imperava. E vale lembrar que o baiano é barroco… O exagero dá o tom das performances cotidianas. Gostamos de nos ver dessa forma no estilo “Ó Pai, Ó”. >
Depois, Wagner fez sucesso em novelas. A televisão está encharcada dum hiper-realismo e também não vemos economia nos gestos nem mesmo (necessariamente) um pensamento corporal nas atuações. Até mesmo pela velocidade industrial do meio.>
Já o cinema, é a arte do “menos é mais”. A telona revela qualquer maneirismo e descontrole. Paulo José, um dos mais importantes atores do cinema nacional, bem dizia: um movimento de sobrancelha se torna uma ponte levadiça no cinema. Um grande ator de teatro e da TV pode-se perder, facilmente, no cinema caso não exista um trabalho e transformação para o meio. Claro que existem propostas calcadas no exagero e que podem ficar incríveis. Glauber era barroco. A cineasta Lina Wertmuller (Amor e Anarquia, Pasqualino Sete Belezas) era barroca. Dois diretores fantásticos! Mas, é a exceção e não a regra.>
Wagner Moura é talentoso e está fenomenal ao encarnar Marcelo, em O Agente Secreto. Há um controle corporal e uma economia de gestos em sua atuação, que a transforma em uma das mais marcantes do cinema mundial dos últimos tempos. Wagner fala através de pequenos movimentos e é capaz de se comunicar mesmo no mais absoluto silêncio. Trata-se de uma inteligência artística que precisa ser treinada, fruto de muito trabalho.>
Parte do sucesso de Wagner no longa de Kleber vem desse trabalho de migração para o cinema muito bem feito. Um grande diretor cinematográfico falando através do silêncio e de sons diversos, e exigindo uma atuação plenamente cinematográfica de Wagner Moura. Nesse sentido, O Agente Secreto é o filme de Kleber onde percebo os atores, todos eles, mais bem trabalhados.>
Mas, precisamos ir além. O sucesso de Wagner Moura diz respeito, ainda, à aura e magnetismo que ele adquiriu ao longo de sua carreira. Algo que somente os grandes astros possuem.>
Em 2003, eu fui para o Festival de Berlim pela primeira vez. Na capital alemã, manhã cinzenta, menos vinte graus. Com muita dificuldade e um café sempre na mão, rodei pelos corredores do Berlinale Palast, localizado na mítica Potsdamer Platz. Totalmente perdido e sem saber por onde transitar, eu abria e fechava portas de forma aleatória. Acabei me aproximando da área onde ocorriam as coletivas e, literalmente, me esbarrei em Nicole Kidman. Eu não sou do tipo de gente que gosta de endeusar ninguém e nem era exatamente fã da atriz que nasceu em Honolulu, no Havaí. Mas…. havia essa aura, um magnetismo tamanho que me deixou paralisado. Ela, preocupada com a entrevista, deu as costas e saiu caminhando normalmente. Eu continuei sem reação por algum tempo.>
É algo raro.>
Pois, Wagner é desses atores hoje. Ele deixa as pessoas paralisadas, sem palavras. Já li diversas entrevistas com Wagner em que o jornalista começa citando o magnetismo e carisma dele. A força incontestável de sua presença. No perfil que o The New York Times fez com ele, o esforço maior era mostrar como aquele gigantesco ator é… uma pessoa comum.>
Para quem o conheceu jovem, em festinhas pela cidade, batendo um baba, às vezes fica mais difícil compreender esse poder que Wagner adquiriu, no que ele se transformou. Mas, hoje, o carisma que o ator baiano carrega transforma os ambientes por onde ele passa.>
Interessante perceber que a “energia" de Wagner Moura e do próprio filme ainda estão num crescente contínuo. A cauda é longa e ainda não vislumbramos seu final.>
Aonde tudo isso vai parar? O Agente Secreto e Wagner serão indicados ao Oscar? Vão Ganhar os prêmios máximos em termos de reconhecimento da indústria do cinema? Vamos torcer! O que sabemos é que o filme já tem trajetória irretocável.>
Wagner me confidenciou, quando do lançamento histórico do filme no Cine Glauber Rocha, que sonha em voltar para Salvador. Nadar na Baía de Todos os Santos e ver seus filhos se desenvolverem ligados à cidade.>
Esse sonho contrasta com os inúmeros convites que ele vem recebendo mundo à fora. Seja o que for, Wagner, Kleber e o filme merecem estar onde chegaram. É muito bom ver pessoas comprometidas e sérias conquistando espaços.>
Claudio Marques é exibidor, cineasta e idealizador e coordenador do Cine Glauber Rocha>