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Maria Raquel Brito
Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 05:00
O prejuízo gerado por acidentes nas rodovias baianas em 2024 somou R$1,14 bilhão. O número foi quase três vezes superior ao valor investido pelo governo em obras de infraestrutura rodoviária de transporte, nas quais foram gastos R$411,80 milhões no ano passado. >
Os dados são da Pesquisa CNT de Rodovias, feita pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), que avalia toda a malha pavimentada das rodovias federais e os principais trechos estaduais. Em 2025, foram analisados 9.302 km na Bahia, que representam 8,1% do total pesquisado no Brasil. >
Rodovias baianas
Se o prejuízo é expressivo o ano inteiro, a situação se agrava durante as festas de fim de ano, época em que tradicionalmente há um aumento no número de ocorrências nas rodovias. O crescimento nas ocorrências acontece majoritariamente devido ao aumento da movimentação nas estradas e à negligência humana, mas outro fator importante é a qualidade das rodovias baianas: de acordo com o levantamento da CNT, dos mais de 9 mil quilômetros avaliados na Bahia, falta acostamento em 38,1%. Além disso, 39,8% dos trechos com curvas perigosas no estado não têm sinalização. >
“Infelizmente nós temos alguns problemas estruturais nas rodovias, não só aqui na Bahia, que causam acidentes, que são pontos modificadores de acidente. Com destaque à questão da inexistência de acostamento ou dos acostamentos estarem sem condições de utilização, muitas vezes cobertos com vegetação ou muitos esburacados. Temos uma deficiência na sinalização”, afirma Fábio Rocha, policial rodoviário e integrante do núcleo de comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF). >
Este ano, a PRF registrou 61 sinistros e 24 sinistros graves nas rodovias federais que cortam a Bahia durante a Operação Natal. O número apresenta uma queda quando comparado com o mesmo período de 2024, em que foram registrados 76 sinistros, sendo 30 graves. A quantidade de óbitos, porém, chama atenção: foram 19 mortes em 2025, frente a 12 em 2024. No último sábado (27), um acidente no km 953 da BR 101, nas imediações da cidade de Mucuri, no extremo sul baiano, vitimou 11 pessoas após uma colisão frontal entre uma pickup e um carro de passeio. >
“A BR 101, especificamente na região sul, é um trecho muito sinuoso. Então esse excesso de curvas da própria estrutura da rodovia muitas vezes contribui também para que haja acidentes. É um trecho de maior atenção e requer maior cuidado por parte dos condutores”, diz.>
Questionado se há ações e investimentos direcionados à restauração dos trechos irregulares atualmente, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pela infraestrutura das rodovias federais, afirmou acompanhar mensalmente, por meio do Índice de Condição da Manutenção (ICM), as condições de trafegabilidade dos trechos rodoviários sob sua responsabilidade. “O objetivo é manter uma radiografia atualizada da malha federal sob jurisdição da autarquia, considerando aspectos como a situação da pista, a sinalização, o funcionamento dos dispositivos de drenagem, entre outros itens”, disse o órgão, em nota.>
“O ICM, metodologia própria do DNIT, é dividido em quatro faixas de classificação: bom, regular, ruim e péssimo. O último levantamento, referente a novembro de 2025, apontou que, na Bahia, dos cerca de 7,4 mil quilômetros de rodovias sob responsabilidade do Departamento, 74% estão em boas condições de trafegabilidade conforme os valores obtidos no ICM. Esse desempenho é reflexo dos investimentos realizados ao longo do ano, que contou com o aporte aproximado de R$865,6 milhões para execução das melhorias”, completou.>
O estudo da CNT mostra ainda que as condições do pavimento no estado geram um aumento de custo operacional do transporte de 28,7%, o que se reflete na competitividade do Brasil e no preço dos produtos. Isso porque nos custos operacionais está tudo aquilo que o transportador precisa pagar para manter um veículo rodando: combustível, manutenção, pneus, peças, depreciação do caminhão, tempo de viagem e até perdas indiretas, como atrasos e avarias na carga. >
É o que explica Danilo Oliveira Costa, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Trânsito e da Comissão Especial de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Em rodovias mal conservadas, o consumo de combustível aumenta, o desgaste dos veículos é acelerado e o tempo de deslocamento se alonga. Isso significa menos produtividade e mais despesas para realizar o mesmo serviço”, diz.>
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Ele acrescenta que, na prática, uma rodovia em más condições funciona como um custo oculto para o país. “Ela reduz a eficiência logística, diminui a margem dos produtores, encarece os produtos brasileiros e enfraquece a capacidade de competir tanto no mercado interno quanto no externo. Investir em infraestrutura viária, portanto, não é apenas uma questão de mobilidade ou segurança, mas uma estratégia essencial para reduzir custos, aumentar produtividade e fortalecer a economia nacional.”>
Para o especialista, é fato que a falta de qualidade das rodovias baianas aumenta a sinistralidade. Ele defende que, para minimizar os riscos, o Brasil precisa enxergar o trânsito como investimento, não como custo. “Os números revelam isso faz décadas”, diz.>
De acordo com a Pesquisa CNT de Rodovias, para recuperar as rodovias na Bahia são necessárias ações emergenciais – reconstrução e restauração – e manutenção, o que demandaria um investimento de R$8,75 bilhões. >
Segundo Danilo Oliveira, existem alguns caminhos para isso. Ele explica que existem recursos públicos para que haja recuperação, além da necessidade de recursos do Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (FUNSET).>
“O conceito de segurança viária contempla vias adequadas e sinalizadas, educação para o trânsito e fiscalização. Se algum desses itens não estiver em conformidade, teremos aumento dos sinistros de trânsito. É preciso investir na infraestrutura viária”, afirma.>
Luide Souza, especialista em Trânsito e Segurança Viária e professor da Escola Pública de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito da Bahia (Detran-BA), avalia que os valores gastos na infraestrutura e educação para o trânsito representam investimentos que podem salvar vidas.>
De acordo com ele, um modo de pôr em prática a recuperação das rodovias é através de parceria público-privada e de destinação dos recursos obtidos nas multas para reestruturação das rodovias. “O primeiro passo é promover a transparência no emprego dos recursos públicos e colocar gestores técnicos nos órgãos de trânsito”, acrescenta.>