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Saiba como baiano conquistou concurso que paga mais de R$30 mil por serviço com expediente de até 170 dias ao ano

José Valdomiro Oliveira Cavalcante Filho é profissional de praticagem e já obteve quatro aprovações em concursos públicos

  • Foto do(a) author(a) Larissa Almeida
  • Larissa Almeida

Publicado em 31 de agosto de 2025 às 09:00

José Miro trabalha como prático no Rio Amazonas
José Miro trabalha como prático no Rio Amazonas Crédito: Acervo pessoal

Aprovado quatro vezes em concursos públicos, o baiano José Valdomiro Oliveira Cavalcante Filho, 46 anos, já está na carreira pública há quase metade do tempo que tem de vida. Ele começou na área bancária, mudou de ideia ao longo do caminho e tentou ser professor, para tão logo decidir investir nos estudos em busca da aprovação no setor fiscal. Foi auditor fiscal por nove anos até ingressar em uma das carreiras mais exclusivas existentes no Brasil: a de prático.

Ao CORREIO, ele contou toda a trajetória que fez para, hoje, ter a possibilidade de ganhar a partir de R$ 30 mil por escala de trabalho, estar de férias ou sobreaviso por quase 200 dias do ano e – o mais importante – realizado e com tempo de sobra para a família e para uma nova graduação. 

Confira abaixo o relato:

“Tudo começou quando fui influenciado por Maria Laura, minha mãe. Ela é aposentada da Justiça do Trabalho e deu esse direcionamento para mim quando eu era bem novo, ainda estava no Ensino Médio. Apareceu, na época, um concurso da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Eu não sabia direito nem como era o cargo que eu exerceria e percebo que isso era muito comum. Eu só fui lá, comprei uma apostila e estudei.

Eu tinha acabado o Ensino Médio, quando fiz a prova para os dois concursos. Basicamente, estudei por seis meses pela apostila e fiz algumas aulas de conhecimento bancário. Acabei passando nos dois, mas fui para o Banco do Brasil, que me chamou primeiro, em 2003. Nesse tempo, eu estava fazendo faculdade de Engenharia Civil e dava aulas de Física esporadicamente. Eu não sei como arrumava tempo, mas me desdobrava e conseguia fazer tudo.

Depois de nove anos vivendo em Manaus, José Miro voltou a morar em Salvador quando passou no processo seletivo para prático da Marinha por Acervo pessoal

Vejo hoje que os dois concursos eram bons, ideais para as pessoas fazerem quando estão jovens, para experimentar e, de repente, seguir carreira no banco. Comigo, o que aconteceu foi que, depois de um ano, eu era monitor de um cursinho e recebi um convite para ser professor titular de física do Colégio ISBA e do Colégio Salesiano. Como eu estava no meio da faculdade de engenharia, aquela proposta tinha tudo a ver comigo, então eu pedi demissão do banco e fui trabalhar na escola de carteira assinada.

As pessoas me perguntavam por que eu iria deixar de ser concursado para ser professor. Acabei pedindo para sair do banco de forma precoce, mas não dava para fazer muitas coisas de uma só vez. Sacrifiquei o concurso porque, naquele momento da minha vida, eu achava que seguiria o caminho de ser professor. Era uma coisa que eu estava gostando e que tinha despertado meu interesse.

Fiquei sendo professor, no total, por cinco anos, até eu me formar em engenharia, no final de 2004. No ano seguinte, eu me preparei para passar em outro concurso e foi uma virada na minha vida. Eu precisei me preparar bastante, já estava com o nível superior, e havia escolhido tentar o cargo de auditor fiscal na Secretaria da Fazenda do Amazonas.

Na época, eu não sabia nem o que era um auditor fiscal. Um colega meu, que tinha formado ante, estava estudando e eu comecei também. Continuei dando aula pela manhã e larguei as monitorias, porque eu morava em Brotas e dava só duas horas de aula em Vilas do Atlântico. À tarde, eu estudava das 14h às 18h, e às 19h eu tinha cursinho preparatório até 22h. Eram sete horas de estudos diários.

Nesse percurso, eu consegui equilibrar bem a minha vida social. Na época, eu até tocava em uma banda e toda sexta-feira nos apresentávamos. Eu tinha essa atividade prazerosa, o que me fez muito bem, porque é preciso ter uma vida social e cuidar da saúde enquanto está se preparando. Além disso, é importante ter uma estratégia, uma motivação, um sonho que gere a vontade de acordar todos os dias tentar.

Minha grande motivação era o fato de que eu queria viajar. Eu tinha 25 anos. Fui olhar os concursos que tinham e vi algumas carreiras interessantes, como a da Polícia Federal, mas não era meu perfil andar armado. Vi que tinha a carreira dos bancos, mas percebi que também não era a minha praia. Quando fui entendendo o que era auditor fiscal, vi que combinava comigo e decidi focar nesse cargo.

Estudei bastante Contabilidade e Direito. Era um mundo novo. Na época, o salário de R$ 8 mil era muito mais do que eu ganhava como professor. Para se ter ideia, para conseguir aquele dinheiro dando aula, eu precisaria trabalhar 70 horas por semana. Então, me joguei na preparação por nove meses até a prova, que foi no dia 18 de setembro de 2005. Estava dando aula quando recebi a mensagem, por SMS, da minha aprovação.

Tive que me conter na hora que recebi a notícia de um colega porque estava na frente dos alunos e fiquei contido ali. Quando acabou a aula, falei com alguns colegas que já tinham visto meu nome na lista de aprovados. Uma reação que me marcou foi da minha mãe, que ficou com um aperto no coração porque eu iria morar em Manaus, mas logo ela percebeu que eu estava bem e me adaptei muito bem à cidade.

Depois da aprovação, foi tudo muito rápido. Em novembro de 2005, eu já estava fazendo o curso de formação e, em dezembro, fazendo uma segunda prova para determinar a posição final no concurso. Essa segunda etapa era sobre coisas mais específicas da área, como legislação e processos administrativos. Eu passei também e fui morar em Manaus em março de 2006.

Eu trabalhava de plantão fazendo a fiscalização das mercadorias que chegavam no Centro de Manaus através de navios, balsas e caminhões, seguindo o rastro do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Então, um mês eu estava no porto, no outro mês no aeroporto, em outra ocasião eu ia para uma zona comercial que tinha lá. Era bem dinâmico.

Vivi assim por nove anos, até que tive contato com uma carreira diferente, que comecei a me interessar a partir de 2011. Tudo começou quando, trabalhando no porto, eu vi um colega meu com um livro, estudando no navio. Eu, curioso, perguntei o que ele estava estudando e ele me disse que tinha começado a se preparar para um processo seletivo da Marinha para o serviço de praticagem.

Ele passou na prova que fez e deixou o material lá para o pessoal, com cópia em pen-drive. Eu, então, me inteirei a respeito da carreira e comecei a estudar por conta própria. Foram quase três anos de estudo, mas num ritmo pouco intenso. Fui tendo contato aos poucos com o material e, naquele período, ainda havia pouca disponibilidade de informações em comparação com os dias atuais.

Descobri que o concurso de prático tinha algumas exigências específicas. Uma delas é o fato de que o profissional da praticagem não pode ser daltônico. Por isso, no início, procurei saber cada um dos requisitos no edital. Mergulhei nessa oportunidade porque, em Manaus, eu não tinha a menor possibilidade de ser encaminhado para outros estados e isso, com o tempo, começou a me incomodar.

Minhas únicas opões na época eram estudar para passar em outro concurso para auditor. Eu sabia que não adiantava passar para esse cargo em outro estado porque, para mim, só serviria um trabalho em Salvador ou alguma cidade da Bahia. Foi então que me dei conta que a carreira de prático era a minha chance.

Havia a informação de que a carreira pagava entre R$ 30 mil e R$ 60 mil por serviço no mês. É uma variação de remuneração de acordo com a movimentação dos portos. Nos mais movimentados, costumam atracar navios maiores e o prático trabalha mais. Eu realmente me motivei pela possibilidade de voltar para casa, porque a situação financeira estava muito tranquila para mim. Então, foquei na apostila.

O resultado saiu em meados de 2013 e foi uma sensação muito boa quando vi meu nome na lista. Desde que descobri que fui aprovado, houve um processo extenso – e totalmente por minha conta – de realização de exames médicos, provas físicas no Rio de Janeiro, prova oral, prova de simulador de navio nos Estados Unidos e, passadas essas etapas, ainda tinha um estágio não-remunerado, em 2015. Somente em dezembro de 2016 eu concluí meu estágio e entrei realmente para a carreira.

A grande ironia do destino é que eu acabei sendo chamado, no final do processo seletivo, para trabalhar no Rio Amazonas. Existiam nove vagas para Salvador e tantas outras vagas mais próximas, que não consegui. Isso tudo porque ainda havia uma prova de títulos e, como o pessoal era da Marinha, eles ficaram com mais pontos e acabaram ocupando as melhores posições.

No Rio Amazonas, como a navegação não é em mar, havia pouca concorrência. Eu acabei ficando no cargo pelos inúmeros benefícios: eu não sou funcionário público, eu não tenho restrição de lugar onde posso trabalhar e, apesar da minha habilitação só permitir que eu atue como prático lá, eu faço minhas escalas e, ao fim delas, não preciso da autorização para poder sair do estado. Eu moro em Salvador e vou para Macapá, Manaus e Belém para trabalhar.

Meu trabalho consiste em pegar uma embarcação, navegar pelo Rio Amazonas – o que pode durar de 12h a 80h – e levar o navio até o destino dele. Todo navio é atendido por duas pessoas, que vão se revezando durante a navegação até a chegada no porto. Quando chega no porto, a pessoa de serviço faz a manobra do navio e chama o apoio do terminal. Depois que o navio é atracado, após o desembarque da soja e bauxita, o prático é chamado novamente para desatracar e fazer o caminho inverso pelo rio.

Cada serviço custa a partir de R$ 30 mil. A depender da escala, a pessoa pode receber mais, respeitando o limite de horas estabelecido pela Marinha. Não posso trabalhar em excesso para não ficar cansado e nem muito pouco a ponto de esquecer como se faz o serviço. Por isso, meu limite de trabalho é de 150 a 170 dias no ano. O restante dos dias estou de folga ou de sobreaviso.

Minha dica para quem quer tentar trilhar um caminho parecido é encontrar uma motivação forte para encarar essa maratona. A primeira coisa a fazer depois disso é ler o edital do concurso que tem interesse, pois as regras do concurso e o material que deve ser explorado estão lá. Hoje, tem muita coisa no Youtube também e é preciso cuidado para não se perder em tanto conteúdo.

É preciso se organizar e escolher o local de estudos. Se houver muita distração em casa, eu aconselho sair para estudar em alguma biblioteca pública ou em alguma faculdade. Eu estudei muito na faculdade, porque lá eu conseguia ter uma concentração melhor.

Acredito que, até hoje, não inventaram nada melhor do que fazer resumos manuscritos para aprender. Está comprovado que quando a pessoa escreve com as próprias mãos, faz desenho, mapas e manuscritos, em geral, consegue reter mais conteúdo. Se eu fosse estudar hoje, estudaria fazendo resumos escritos.

Vale ter uma leitura atenta, desconfiada, tirando uma pergunta de um parágrafo que se está lendo. É muito de concurseiro essa esperteza. No mais, é importante ter uma mentalidade de confiança, embasada em dados, se preparando e sempre medindo o próprio desempenho através de questões".