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Carol Neves
Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 09:35
O Carnaval de Salvador de 2026 marca os 30 anos do Circuito Barra-Ondina, percurso que mudou definitivamente o mapa da folia baiana e se consolidou como o principal eixo da festa na capital. A criação do trajeto, hoje um dos mais movimentados do país, nasceu da necessidade de lidar com o crescimento do público e com os limites do circuito tradicional do Campo Grande. >
A história foi relembrada por Daniela Mercury em entrevista exibida nesta semana no Jornal da Globo, à jornalista Renata Lo Prete, quando a artista revisitou momentos decisivos da expansão do Carnaval de Salvador.>
Segundo Daniela, o sucesso dos discos lançados no início da década de 1990 ampliou de forma expressiva o número de foliões nas ruas, tornando o modelo então adotado insuficiente para comportar o público. O crescimento do samba-reggae, impulsionado por grupos como o Olodum, também ajudou a projetar a festa nacionalmente.>
Daniela relembra início do circuito Barra-Ondina
Com o circuito tradicional saturado, a cantora decidiu mudar o rumo do desfile do Bloco Crocodilo e apostar na orla, então pouco utilizada pelo grande público.>
“Como não coube lá em cima, eu rapidamente disse ‘Sabe de uma coisa? Eu vou para a beira do mar'”, contou Daniela ao Jornal da Globo.>
Na época, a região da Barra ainda não tinha iluminação adequada nem estrutura consolidada para grandes desfiles, além de receber menos atenção da mídia. Mesmo assim, a mudança aconteceu em 1996 e acabou marcando o surgimento do que viria a ser oficialmente o Circuito Barra-Ondina.>
O novo percurso passou a receber os principais desfiles no domingo, segunda e terça-feira de Carnaval, e aos poucos ganhou infraestrutura, serviços e cobertura nacional, atraindo cada vez mais blocos e foliões.>
Superlotação e mudança de rota>
A migração também foi consequência de problemas recorrentes no circuito tradicional, que já sofria com congestionamentos de trios e dificuldades de deslocamento. Em uma das edições, Daniela chegou a cantar por cerca de 11 horas praticamente sem conseguir avançar com o trio.>
Com a nova aposta, a artista também investiu em divulgação nacional, convidando foliões e imprensa para acompanhar o desfile na Barra, o que ajudou a consolidar o espaço como novo polo da festa.>
Ao avaliar o impacto da decisão, Daniela afirmou na entrevista: “Meu trabalho é sempre de fazer a minha cidade e a cultura ficarem mais conhecidas”.>
A artista fez um post nas redes sociais relembrando a efeméride. "Quem lembra desse momento? Em 1996, levamos o Bloco Crocodilo para Barra. Foi o primeiro grande bloco a desfilar à beira-mar. Há 30 anos, abrimos o Circuito Barra-Ondina e deslocamos o eixo do Carnaval de Salvador. Uma experimentação coletiva que mudou a vida do carnaval do país. O maior circuito brasileiro da folia nascia assim, com muita coragem. Eu e meus foliões somos a resposta dessa inovação. E eu me orgulho disso", escreveu. >
O nascimento dos camarotes>
Outro ponto marcante desse período foi o surgimento dos camarotes na nova área do Carnaval. Daniela afirma ter criado ali um modelo que depois se tornaria padrão na festa.>
“Fiz o primeiro camarote com essa característica que os camarotes têm também”, afirmou. Segundo ela, o espaço funcionou por cerca de 20 anos e ajudou a atrair artistas, empresários e jornalistas para acompanhar a folia.>
Ao relembrar o impacto do projeto, a cantora destacou: “Eu fico muito feliz de ter ampliado esse espaço que se tornou a principal avenida do Carnaval da Bahia”.>
De aposta arriscada a principal avenida da festa>
Com o passar dos anos, a Barra-Ondina deixou de ser alternativa e se transformou no principal circuito carnavalesco de Salvador, reunindo milhões de foliões ao longo da orla entre a Barra e Ondina, com vista para o mar e grande concentração de trios elétricos. Agora é a Barra que costuma enfrentar momentos pontuais de superlotação, levando a um movimento inverso, de tentativa de valorização do Carnaval do Centro.>
O percurso novo também virou palco para experimentações musicais e novas linguagens no Carnaval. Daniela relembrou que, mesmo enfrentando resistência, apostou em novas sonoridades no trio elétrico.>
“Eu resolvi fazer intervenções. Eu sempre fui bailarina, sempre trabalhei com teatro e queria trazer um pouco da experiência que eu tinha absorvido nas viagens para o exterior e das minhas pesquisas para o Carnaval”, explicou.>
Ao insistir na mistura de música eletrônica com ritmos baianos, ela recorda que o público inicialmente estranhou: “Primeiro ano não foi fácil. A turma estranhou muito”. A virada veio alguns anos depois, quando a proposta ganhou espaço e aceitação popular.>
Celebração em 2026>
O aniversário de três décadas do circuito coincide com o Carnaval comandado por Daniela Mercury sob o tema “Mulher de Poder”, homenagem às mulheres do samba e às tradições afro-brasileiras. A aposta musical para a festa é a canção “É Terreiro”, gravada com Alcione, que aborda o feminino e referências religiosas de matriz africana.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.>