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Catraca livre: tarifa zero avança e já alcança quase 180 cidades brasileiras em 2026

Reconhecido como direito social, o transporte gratuito muda a dinâmica das periferias e registra aumento de até 30% na demanda por ônibus logo após a implementação

  • Foto do(a) author(a) Amanda Cristina de Souza
  • Amanda Cristina de Souza

Publicado em 11 de março de 2026 às 07:26

DIREITO SOCIAL: Passageiros utilizam ônibus gratuito em cidade do interior; modelo busca equiparar o transporte ao acesso à educação
Direito social: passageiros utilizam ônibus gratuito em cidade do interior; modelo busca equiparar o transporte ao acesso à educação Crédito: Pexels, Vlah

A ideia parece simples: entrar no ônibus e não pagar nada por isso. É o que propõe a chamada tarifa zero, modelo que vem ganhando espaço em diferentes cidades brasileiras e reacende um debate antigo, afinal, quem deve financiar o transporte público?

Na prática, o sistema continua tendo custo. A diferença é que ele deixa de ser pago diretamente pelo passageiro e passa a ser bancado com recursos públicos ou fundos específicos de mobilidade.

Defensores da proposta dizem que o transporte deve ser tratado como um direito social, assim como saúde e educação. Desde 2015, a Constituição passou a reconhecer o transporte como um direito da população, o que abriu espaço para que prefeituras testassem modelos de gratuidade.

Número de cidades cresce no país

Nos últimos anos, principalmente depois da pandemia e da crise financeira que atingiu os sistemas de ônibus urbanos, mais cidades começaram a experimentar a tarifa zero.

Um levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), divulgado em outubro de 2025, mostra que 132 municípios brasileiros já adotam tarifa zero universal, válida todos os dias e para todos os passageiros.

Quando entram na conta modelos parciais de gratuidade, como fins de semana ou grupos específicos, o total chega a 170 cidades.

Estimativas mais recentes indicam que o número pode ter avançado para cerca de 182 municípios em fevereiro de 2026.

Mesmo assim, o modelo ainda representa uma fatia pequena do país: cerca de 3% dos 5.570 municípios brasileiros.

Cidades menores lideram as experiências

A maior parte das experiências acontece em municípios pequenos e médios. O motivo é simples: sistemas menores costumam ter custos mais previsíveis e uma operação mais fácil de administrar.

Levantamentos indicam que 62% das cidades com tarifa zero têm até 50 mil habitantes. Já 80% possuem menos de 100 mil moradores.

Esse cenário ajuda a explicar por que grandes capitais ainda adotam a política de forma limitada, geralmente com gratuidade em dias específicos ou voltada a determinados públicos.

Quem paga a conta do transporte

Sem a cobrança da passagem, as prefeituras precisam encontrar outras formas de financiar o sistema.

Entre os modelos mais usados estão:

  • subsídios diretos do orçamento municipal
  • criação de fundos de mobilidade urbana
  • receitas vinculadas a impostos locais
  • parcerias e compensações urbanas

O desafio da sustentabilidade

Apesar do avanço, especialistas alertam que a conta precisa fechar no longo prazo.

A própria Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) chama atenção para a diferença de custos entre cidades.

Em municípios menores, como Formosa (GO), a operação anual gira em torno de R$4 milhões. Já em cidades com sistemas mais robustos, como Maricá (RJ), o gasto pode chegar a R$87 milhões por ano.

O principal desafio, segundo especialistas em mobilidade, é garantir fontes permanentes de financiamento para sustentar o aumento da demanda sem comprometer a qualidade do serviço.

Impactos reais nas cidades

Onde a tarifa zero foi implementada, o comportamento da população mudou rapidamente. O primeiro efeito aparece nos números: mais gente passa a usar o transporte público.

Em alguns municípios, o aumento da demanda superou 30% logo nos primeiros meses de funcionamento do sistema.

Mas os impactos vão além do ônibus cheio.

Entre os resultados observados nas cidades estão:

  • aquecimento do comércio: o dinheiro que antes era gasto com passagem acaba circulando em lojas e serviços locais;
  • mais acesso a serviços públicos: aumento na frequência de consultas médicas e redução da evasão escolar;
  • redução de desigualdades: moradores de regiões periféricas passam a circular pela cidade com mais liberdade, sem a barreira do custo da passagem.

Estudos recentes reforçam que o valor da passagem pode se transformar em uma barreira silenciosa de acesso à própria cidade. Pesquisa divulgada neste mês por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) aponta que famílias de baixa renda acabam destinando uma fatia maior do orçamento ao transporte público e, mesmo assim, enfrentam deslocamentos mais longos no dia a dia.

O levantamento indica que, em algumas cidades, o gasto mensal com ônibus pode chegar a cerca de R$260 por pessoa. Na prática, esse custo acaba limitando a frequência com que muitas pessoas conseguem se deslocar pela cidade, o que reduz o acesso a oportunidades de trabalho, educação e serviços públicos.

O dilema das capitais

Nas grandes metrópoles, a adoção da tarifa zero ainda avança com cautela.

O motivo é simples: operar sistemas de transporte em cidades grandes custa bilhões por ano. Por isso, capitais como Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba têm apostado em modelos híbridos.

Entre as experiências estão:

  • gratuidade aos domingos
  • passe livre para estudantes
  • tarifa zero em linhas circulares ou regiões centrais

A pergunta que ainda não tem resposta

Com o avanço do debate, uma discussão começa a ganhar força em Brasília: a criação de um Sistema Único de Mobilidade (SUM), inspirado em modelos nacionais de financiamento de políticas públicas.

A proposta seria criar um mecanismo federal para ajudar estados e municípios a custear o transporte público.

Com a expansão recente, a tarifa zero entrou de vez na agenda de mobilidade urbana do país. A dúvida que fica para o final de 2026 é direta: o Governo Federal entrará na conta da tarifa zero ou o modelo continuará a depender somente do fôlego financeiro de cada prefeitura?

Tags:

Brasileiros Transporte