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Maiara Baloni
Publicado em 11 de março de 2026 às 17:00
O mercado de empréstimos no Brasil passa por uma mudança que bate direto na porta de quem trabalha com carteira assinada. O chamado consignado privado, aquele crédito com desconto direto no contracheque, deixou de ser uma opção secundária para virar o motor da economia das famílias. Só em 2025, o valor emprestado nessa modalidade deu um salto de 183,6%, somando R$54,5 bilhões. >
CRÉDITO CONSIGNADO PRIVADO
O movimento não deve parar por aí. A expectativa para 2026 é que a carteira de crédito chegue a R$120 bilhões, alcançando cerca de 19 milhões de trabalhadores. Mas por trás desses números gigantes, existe uma realidade que preocupa especialistas e o próprio Banco Central.>
Para entender por que tanta gente está correndo atrás do consignado, é preciso olhar para o carrinho de compras. Com o salário mínimo e a renda média sofrendo para acompanhar o aumento constante de itens básicos, como comida, luz e aluguel, o trabalhador CLT se vê em um beco sem saída. Muitas vezes, o empréstimo não é para comprar um carro ou viajar, mas para cobrir o buraco que fica entre o pagamento de uma conta e a chegada do próximo salário. >
Além da necessidade de fechar o mês, o custo pesa na decisão. Enquanto os juros do cartão de crédito rotativo são proibitivos, passando dos 450% ao ano, o consignado para o setor privado fica na casa dos 51,1% ao ano. Na ponta do lápis, trocar uma dívida de cartão por um consignado pode custar dez vezes menos, o que acaba sendo a única alternativa para quem tenta sair do sufoco.>
Se antes era preciso ir ao banco, hoje tudo acontece em poucos cliques. Com o programa Crédito do Trabalhador, a contratação ficou simples pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital, usando o FGTS como garantia. Essa facilidade, porém, traz um efeito colateral que o Banco Central já identificou: o endividamento do trabalhador costuma subir 58% logo no primeiro mês após pegar o dinheiro. >
O risco é que, com o desconto automático limitado a 35% do salário líquido, o trabalhador passa a viver com menos do que o habitual. Sem um planejamento rígido, essa redução na renda mensal pode levar a novas dívidas, criando um ciclo difícil de quebrar.>
Uma das regras que mais pedem atenção é o uso do fundo de garantia. Atualmente, o banco tem o direito de reter até 10% do saldo total da conta do FGTS e até toda a multa de 40% em caso de demissão sem justa causa para quitar o empréstimo. Isso significa que, se o trabalhador for desligado da empresa, aquele dinheiro que deveria ser sua reserva de emergência pode ser usado quase inteiramente para pagar o banco. >
Para evitar que o endividamento tire o básico da mesa do brasileiro, a legislação estabelece limites. A Lei do Superendividamento surge como um caminho para quem já comprometeu a renda a ponto de não conseguir mais pagar as contas essenciais. Ela permite renegociar os prazos com todos os credores ao mesmo tempo, garantindo que o trabalhador mantenha o chamado "mínimo existencial" para sobreviver com dignidade. >