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Flavia Azevedo
Publicado em 4 de março de 2026 às 23:13
Imagine um mundo onde, com um simples toque no celular, você recebe a mensagem: "nenhum sinal de câncer detectado". O alívio é imediato, mas a realidade científica por trás dessa promessa ainda é complexa e cercada de incertezas. De acordo com uma reportagem especial da revista Nature, embora dezenas desses testes de sangue estejam em desenvolvimento ou já à venda, muitos cientistas questionam se eles são realmente capazes de entregar o que prometem.>
A promessa de detectar 50 tipos de câncer em um único exame>
Atualmente, existem cerca de 40 testes de detecção precoce multicâncer (MCED) que prometem identificar sinais de mais de 50 tipos da doença através de uma única amostra de sangue. O objetivo principal é encontrar o câncer em estágios iniciais, quando o tratamento é geralmente mais barato, menos invasivo e possui maiores taxas de sobrevivência. >
Câncer: sintomas e tratamentos
Atualmente, os programas de rastreamento convencionais, como mamografias e colonoscopias, cobrem apenas uma fração dos cânceres diagnosticados. Nos Estados Unidos, por exemplo, esses programas detectam apenas 14% dos casos, deixando a maior parte para ser descoberta apenas quando os sintomas aparecem. É nesse vácuo que os testes de sangue pretendem atuar, oferecendo uma ferramenta potencialmente revolucionária para tipos de câncer que hoje não possuem métodos de rastreio.>
Como funciona a ciência da "biópsia líquida">
A tecnologia por trás desses exames baseia-se no fato de que os tumores liberam fragmentos de si mesmos — como células e pedaços de DNA — na corrente sanguínea. Esse material é conhecido como DNA tumoral circulante (ctDNA).>
No entanto, detectar câncer em estágio inicial é um desafio imenso porque a quantidade de DNA do tumor no sangue é escassa. O ctDNA pode representar apenas 0,006% de todo o DNA livre flutuando no sangue. Para superar isso, cientistas têm utilizado técnicas avançadas:>
O desafio da precisão: o que os dados revelam>
Apesar do entusiasmo, a eficácia clínica desses testes ainda não foi totalmente comprovada pelo "padrão ouro" da ciência: os ensaios clínicos controlados e randomizados. Um dos testes mais conhecidos, o Galleri, passou recentemente por um grande estudo em colaboração com o NHS (serviço de saúde britânico). Os resultados iniciais indicaram que o teste não atingiu o objetivo de reduzir o número de cânceres detectados em estágios avançados quando usado junto aos programas de rastreamento já existentes.
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Dados compilados mostram que, embora esses testes sejam muito bons em identificar corretamente quem não tem a doença (especificidade de 96% a 99,5%), a capacidade de detectar quem realmente tem câncer (sensibilidade) varia drasticamente, ficando entre 30% e 80%. Em um estudo com o teste CancerSEEK, por exemplo, o exame detectou apenas 26 de 96 cânceres diagnosticados durante o período da pesquisa.>
Riscos de diagnósticos incorretos e o debate ético>
A comunidade científica está dividida. Enquanto alguns veem um futuro onde esses testes serão o padrão de cuidado, outros, como o médico-pesquisador Eric Topol, consideram "irresponsável" promover esses exames com os dados atuais.>
Os principais riscos apontados são:>
Até o momento, nenhum desses testes recebeu aprovação total de órgãos reguladores, como a FDA nos Estados Unidos, embora alguns já possam ser comercializados em determinados países. A recomendação dos especialistas é cautela: embora a tecnologia prometa transformar a medicina, ela ainda precisa provar que pode, de fato, salvar vidas sem causar danos colaterais desnecessários.>
Por @flaviaazevedoalmeida , com dados da revista Nature>