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"Biópsia líquida": conheça a verdade por trás do exame que promete detectar 50 tipos de câncer

Os chamados exames de detecção precoce multicâncer (MCED) avançam no mercado, mas especialistas alertam para a falta de comprovação de eficácia e riscos de diagnósticos imprecisos

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 4 de março de 2026 às 23:13

Estudo mostra que exame de sangue com p-tau217 aumenta a precisão no diagnóstico de Alzheimer e reduz erros na avaliação clínica
A realidade científica por trás dessa promessa ainda é complexa e cercada de incertezas Crédito: Freepik


Imagine um mundo onde, com um simples toque no celular, você recebe a mensagem: "nenhum sinal de câncer detectado". O alívio é imediato, mas a realidade científica por trás dessa promessa ainda é complexa e cercada de incertezas. De acordo com uma reportagem especial da revista Nature, embora dezenas desses testes de sangue estejam em desenvolvimento ou já à venda, muitos cientistas questionam se eles são realmente capazes de entregar o que prometem.

A promessa de detectar 50 tipos de câncer em um único exame

Atualmente, existem cerca de 40 testes de detecção precoce multicâncer (MCED) que prometem identificar sinais de mais de 50 tipos da doença através de uma única amostra de sangue. O objetivo principal é encontrar o câncer em estágios iniciais, quando o tratamento é geralmente mais barato, menos invasivo e possui maiores taxas de sobrevivência.

Bons hábitos podem ajudar a evitar o surgimento do câncer de esôfago (Imagem: ViDI Studio | Shutterstock) por Imagem: ViDI Studio | Shutterstock

Atualmente, os programas de rastreamento convencionais, como mamografias e colonoscopias, cobrem apenas uma fração dos cânceres diagnosticados. Nos Estados Unidos, por exemplo, esses programas detectam apenas 14% dos casos, deixando a maior parte para ser descoberta apenas quando os sintomas aparecem. É nesse vácuo que os testes de sangue pretendem atuar, oferecendo uma ferramenta potencialmente revolucionária para tipos de câncer que hoje não possuem métodos de rastreio.

Como funciona a ciência da "biópsia líquida"

A tecnologia por trás desses exames baseia-se no fato de que os tumores liberam fragmentos de si mesmos — como células e pedaços de DNA — na corrente sanguínea. Esse material é conhecido como DNA tumoral circulante (ctDNA).

No entanto, detectar câncer em estágio inicial é um desafio imenso porque a quantidade de DNA do tumor no sangue é escassa. O ctDNA pode representar apenas 0,006% de todo o DNA livre flutuando no sangue. Para superar isso, cientistas têm utilizado técnicas avançadas:


  • Sequenciamento de DNA de alta velocidade: Para identificar mutações genéticas específicas.
  • Mudanças epigenéticas (Metilação): Análise de marcas no genoma que ligam ou desligam genes, ajudando a localizar onde o tumor está no corpo.
  • Fragmentômica: Observação da aparência física e da estrutura dos fragmentos de DNA.

O desafio da precisão: o que os dados revelam

Apesar do entusiasmo, a eficácia clínica desses testes ainda não foi totalmente comprovada pelo "padrão ouro" da ciência: os ensaios clínicos controlados e randomizados. Um dos testes mais conhecidos, o Galleri, passou recentemente por um grande estudo em colaboração com o NHS (serviço de saúde britânico). Os resultados iniciais indicaram que o teste não atingiu o objetivo de reduzir o número de cânceres detectados em estágios avançados quando usado junto aos programas de rastreamento já existentes.

Dados compilados mostram que, embora esses testes sejam muito bons em identificar corretamente quem não tem a doença (especificidade de 96% a 99,5%), a capacidade de detectar quem realmente tem câncer (sensibilidade) varia drasticamente, ficando entre 30% e 80%. Em um estudo com o teste CancerSEEK, por exemplo, o exame detectou apenas 26 de 96 cânceres diagnosticados durante o período da pesquisa.

Riscos de diagnósticos incorretos e o debate ético

A comunidade científica está dividida. Enquanto alguns veem um futuro onde esses testes serão o padrão de cuidado, outros, como o médico-pesquisador Eric Topol, consideram "irresponsável" promover esses exames com os dados atuais.

Os principais riscos apontados são:


  • Falsos negativos: O paciente recebe um resultado limpo, mas ainda pode abrigar um câncer que o teste não foi sensível o suficiente para detectar.
  • Falsos positivos: O teste indica uma suspeita de câncer em uma pessoa saudável, gerando ansiedade extrema e levando a procedimentos invasivos e desnecessários de acompanhamento.

Até o momento, nenhum desses testes recebeu aprovação total de órgãos reguladores, como a FDA nos Estados Unidos, embora alguns já possam ser comercializados em determinados países. A recomendação dos especialistas é cautela: embora a tecnologia prometa transformar a medicina, ela ainda precisa provar que pode, de fato, salvar vidas sem causar danos colaterais desnecessários.

Por @flaviaazevedoalmeida , com dados da revista Nature