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Agência Correio
Publicado em 28 de dezembro de 2025 às 07:00
A mosca tsé-tsé está longe de ser apenas um inseto incômodo. Sua picada é agressiva e dolorosa, já que, ao contrário do mosquito comum, ela possui estruturas serrilhadas na boca que rompem a pele para alcançar o sangue. >
O maior risco, no entanto, não está na dor momentânea, mas na transmissão da doença do sono, nome popular da Tripanossomíase Humana Africana. Trata-se de uma infecção grave causada por parasitas do gênero Trypanosoma e que pode levar à morte se não for tratada adequadamente.>
Mosca tsé-tsé
Duas variantes são responsáveis pela doença em humanos. A Trypanosoma brucei gambiense responde por cerca de 95% dos casos e é mais comum na África Ocidental, com evolução lenta. Já a T. b. rhodesiense, menos frequente, é mais agressiva e pode causar a morte em poucos meses.>
Nos estágios iniciais, os sintomas costumam ser genéricos, como febre, dores musculares e dor de cabeça, o que dificulta o diagnóstico precoce. Com o avanço da infecção, surgem sinais neurológicos, incluindo sonolência intensa, confusão mental, mudanças de comportamento e dificuldades motoras.>
É justamente esse quadro de fadiga progressiva que dá nome à doença.>
Mesmo com essa redução, especialistas alertam que a subnotificação ainda é um problema, especialmente em áreas rurais e de difícil acesso, o que dificulta a erradicação completa da doença.>
Estudos recentes mostraram que o parasita é mais sofisticado do que se pensava. Uma pesquisa publicada em 2016 revelou que ele não se limita ao sangue, podendo permanecer também na pele e no tecido adiposo.>
“Achamos que a pele é, portanto, um reservatório escondido da infecção”, afirmou Annette MacLeod, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, à BBC. Segundo a pesquisadora, isso explica como pessoas sem sintomas aparentes podem continuar transmitindo a doença.>
Outro obstáculo é a habilidade do parasita em escapar do sistema imunológico. Em 2014, Etienne Pays, da Universidade de Bruxelas, classificou esse embate como uma “corrida armamentista”. Ele explicou à BBC que a apolipoproteína L1, uma proteína humana, já foi eficaz contra formas antigas do parasita, mas que as cepas atuais evoluíram para driblar essa defesa.>
Pesquisas mais recentes também mudaram a compreensão da progressão da doença. Antes dividida em duas fases, hoje os cientistas reconhecem três estágios distintos.>
Michael Duszenko, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, explicou à BBC que o parasita pode permanecer por longos períodos em uma fase intermediária, liberando substâncias que induzem o sono e retardam a invasão do cérebro.>
Mesmo com novos medicamentos em desenvolvimento, a doença do sono ainda é classificada como negligenciada, recebendo pouco investimento da indústria farmacêutica.>
Ainda assim, pesquisadores acreditam que desvendar os mecanismos do parasita pode levar a tratamentos mais seguros e eficazes. Embora menos frequente do que no passado, a doença segue como um alerta constante sobre infecções tropicais e a importância da vigilância contínua.>