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Ana Beatriz Sousa
Publicado em 15 de abril de 2026 às 12:06
Se você usa as redes sociais com frequência, especialmente o Instagram ou o X (antigo Twitter), certamente já se deparou com um post da Choquei. A página, que nasceu em 2014 como um passatempo de fã, cresceu a ponto de pautar conversas nacionais. No entanto, nesta quarta-feira (15), Raphael Sousa Oliveira, o fundador do perfil, foi preso pela Polícia Federal em Goiânia por envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro que ultrapassa a marca de R$ 1,6 bilhão.>
A prisão faz parte da Operação Narco Fluxo, uma ofensiva da PF contra uma organização criminosa com ramificações em diversos estados. Segundo as investigações, Raphael não era apenas um espectador. Ele é suspeito de atuar como um 'operador de mídia', usando o alcance gigantesco de sua página para gerenciar crises de imagem de criminosos e impulsionar conteúdos que favorecessem os investigados.>
Quem é o dono da Choquei preso pela PF
A operação não parou em Raphael. Nomes do funk, como MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, também foram alvos de mandados de prisão. A PF detalhou que o grupo utilizava um sistema sofisticado para ocultar valores, envolvendo desde o transporte de dinheiro vivo até transações complexas com criptoativos. Ao todo, mais de 200 policiais foram às ruas em cidades como Rio, São Paulo e Brasília para desarticular o que chamam de um verdadeiro hub de lavagem de dinheiro.>
Para entender como chegamos aqui, precisamos olhar para trás. A Choquei deixou de ser uma página nichada sobre o Big Brother Brasil para tentar se tornar um portal de notícias 'sério'. Em 2022, chegou a cobrir a guerra na Ucrânia e as eleições presidenciais, adotando um viés político claro que lhe rendeu tanto seguidores quanto críticas por sensacionalismo e falta de fontes.>
O estilo da página sempre foi pautado pela velocidade, com postagens rápidas, massivas, sem checagem profunda e focadas no engajamento. E, mesmo assim, esse 'modelo de negócio' lhe rendeu prêmios e contratos milionários de publicidade, incluindo parcerias com plataformas de apostas. No entanto, em dezembro de 2023, a jovem Jéssica Vitória Canedo, de 22 anos, tirou a própria vida após o perfil disseminar uma notícia falsa que a apontava como amante do humorista Whindersson Nunes.>
Quando o caso estourou na mídia, o perfil chegou a soltar uma nota, onde se eximia da responsabilidade afirmando que apenas 'republicou' o conteúdo de outro perfil e que, assim que descobriu a farsa, agiu rápido. Segundo o comunicado, eles teriam fornecido à Polícia Civil provas do gerador da notícia e registros de que o post foi retirado do ar imediatamente.>
No início, a Choquei adotou uma postura defensiva. Uma primeira nota, assinada pela advogada Adélia Prado, afirmava categoricamente que não houve 'qualquer irregularidade' e que a página agiu de 'boa-fé'. O tom mudou drasticamente quando, no mesmo dia, a advogada anunciou que não representaria mais o perfil judicialmente, e a nota foi apagada.
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Essa sucessão de acontecimentos geraram uma onda de revolta que chegou até Brasília. Ministros de Estado não pouparam palavras e classificaram o episódio como um 'imperativo civilizatório', exigindo que as redes sociais deixassem de ser um território sem lei para quem lucra com o sofrimento alheio.>
Em um novo comunicado, a página prometeu um 'profundo processo de reavaliação interna', com novos filtros e códigos de conduta para evitar que outras 'Jéssicas' perdessem a vida por cliques. Na época, chegaram a se colocar à disposição para 'ajudar no aprimoramento do setor de notícias online'. >
A vida de Raphael mudou drasticamente desde então. Em julho de 2025, o Instagram já havia suspendido a conta após decisões judiciais ligadas ao caso Jéssica. Agora, em 2026, as autoridades parecem ter fechado o cerco em outra frente, a financeira. A acusação de que a Choquei servia como braço midiático para o crime organizado sugere que o poder de influenciar multidões foi monetizado de forma ilícita.>