Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Larissa Almeida
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 06:00
A versatilidade encarnada responde pelo nome de Ney Matogrosso. Aos 84 anos, o artista brasileiro que já foi eleito como dono da terceira maior voz do país segue inquieto sobre o fazer o artístico e apegado aos palcos. No sábado (24), será a vez de Salvador recebê-lo, no Festival de Verão, com o espetáculo Bloco na Rua, que, nas palavras dele, é uma obra estética diferente, diversa e feita para agradá-lo também, não apenas ao público. É com essa relação de fidelidade a si mesmo que ele conta que quem for ao show vai ser capaz de se surpreender com sua performance. >
“É o Bloco na Rua, mas eu estou mudando algumas músicas para não ficar repetitivo. Até a sexta música será o Bloco na Rua, daí para frente já é outra coisa. Eu estou colocando sucessos, coisa que nunca fiz na minha vida. Vai ter músicas como ‘Casinha de Sapê’ e ‘O Vira’. Então, vai ser um show diverso”, promete. >
Homem com H, cinebiografia de Ney Matogrosso
O cuidado com o setlist ocorre, em primeiro lugar, porque fazer um bom show é a única coisa que o envaidece, segundo afirma. Outro motivo é o fato de o cantor já ter trazido o espetáculo para Salvador três vezes, sendo a última em agosto do ano passado. Além disso, pesa também o fato de que a Bahia é um lugar que ele sempre gosta de estar. >
“Minha relação com a Bahia é muito maior que o meu trabalho. Eu morei aqui, tenho um irmão que nasceu aqui. Morei em Amaralina, quando ela era apenas uma praia deserta. A casa era no alto, cercada de coqueiros, com um quartel do lado. Atrás da minha casa, tinha um terreiro. Acho que hoje não tem mais nada disso, mas eu sempre venho aqui. Todo trabalho que faço eu venho pelo menos duas vezes”, conta. >
Aberto a todas as tendências musicais, ele já sabe que está na moda ‘o molho’ da Bahia, que nada mais é que a autenticidade do fazer artístico de quem é do estado, e pontuou que também o tem. “Eu não sei definir meu próprio molho, mas sei que tenho. Eu trabalho com muita liberdade, não sou restrito a nenhum estilo, mas não busco a moda. No geral, eu nem sei qual é a moda”, brinca. >
A despreocupação com o hit, um luxo subsidiado em parte pela consagração da sua trajetória, é também reflexo da natureza transgressora que ostenta. “Não tem nada premeditado na minha arte, tem momento que abre a minha vontade de fazer coisas e eu vou atrás. Repertório por repertório é o que não falta no Brasil”, diz. “Eu nasci assim [transgressor] e acho que vou morrer assim, não tem como mudar”, frisa. >
Ao falar do cenário artístico atual, ele relata ver os mesmos artistas da sua geração sendo aqueles que se destacam quebrando paradigmas e cita Gil, Caetano e Djavan como exemplos disso. No entanto, diz acompanhar com interesse uma leva de artistas trans que pedem passagem para serem acolhidos. “Gosto, adoro e admiro muito a Liniker, gosto muito da Catto e de Fitti, que está fazendo um trabalho só com músicas que eu gravei e eu gostei muito do resultado”, pontua. >
É com a mesma naturalidade de quando fala de si que ele tem encarado as limitações do corpo, sempre artístico, político apartidário e conhecido pelo molejo no palco. Para ele, a velhice é algo normal e que não lhe deixa complexado. “Sou vaidoso, mas dentro de um limite. Não sou uma criatura vaidosa, mas sou vaidoso das coisas boas que eu faço. Fora isso, minha única rotina de cuidado é a ginástica, que faço diariamente”, diz. >
No que diz respeito a mente, o equivalente à ginástica do corpo é a leitura. É através dos livros que Ney Matogrosso visita outros pontos de vista. Para Salvador, ele trouxe na mala o livro “Mejda: A Família e os primeiros anos de Paramahansa Yogananda”, escrito pelo indiano Sananda Lal Ghosh. A obra fala, do ponto de vista do irmão, sobre a vida de Yogananda, um iogue, guru, professor e escritor indiano que tinha a frase ‘Seja Livre’ como lema da filosofia de vida que propagava. >
O artista revela que a liberdade, que sempre foi e segue sendo a sua principal bandeira, nunca lhe causou dor. “Sou responsável pela minha liberdade e tudo que vier contra isso eu estou disposto a encarar. Não acho que seja um preço que estou pagando. Nada me custou, porque tudo que fiz na minha vida até hoje foi uma expressão minha, particular e pessoal. Não me custou, porque eu não estava me contrariando para fazer alguma coisa. Sou consciente da minha vida, do que quero e do que faço”, reitera. >
A crença na liberdade divide espaço com a espiritualidade, que, à própria maneira, Ney Matogrosso também abre espaço. “A minha espiritualidade não é religião, é outra coisa. É uma maneira de olhar para a vida e as pessoas de maneira diferente. Quando vejo um mendigo deitado na rua, alguma coisa dentro de mim acende e eu aponto para aquela pessoa, para aquilo ir lá. É como eu peço a dignidade dela a essa coisa positiva”, explica. >
A conexão espiritual, para ele, também é possível através do sexo, mas somente quando há amor. O cantor, que ressalta que a relação carnal ainda é muito importante na sua vida, expande o desejo para realizações de sonhos antigos, como o de atuar. Segundo afirma, chegou a receber proposta para um filme, mas o projeto não avançou por falta de subsídio. >
Enquanto busca lugar para si na atuação, Ney ainda saboreia a história da sua vida no cinema diante do sucesso de ‘Homem com H’, cinebiografia que foi lançada no ano passado. Ele conta que lidou com a obra de maneira natural. “Minha única condição era que só tivesse verdades no filme. Eu não queria que me defendessem ou limpassem a minha barra. Quero que as pessoas saibam de mim como eu sou e como eu fui”, finaliza. >