Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maria Raquel Brito
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 06:00
Duas décadas são uma vida inteira. Para Lázaro Ramos, uma vida inteira de aprendizado e debates pioneiros na tela do Canal Brasil com o programa Espelho, que dirigiu e apresentou entre 2006 e 2021. Este ano, celebrando 20 anos do quadro, ele retorna com a temporada especial Espelho - 20 Anos Depois, que estreia hoje (30), às 22h. >
Ao longo de 12 episódios, cada um com 25 minutos, Lázaro conversa com convidados como a deputada federal Erika Hilton, os atores Juan Paiva, Clara Moneke, Tony Ramos e Andrea Beltrão, Xamã, o grupo Os Garotin, a cantora Ebony, o escritor Itamar Vieira Junior, entre outros. Tudo isso com o olhar atualizado para 2026.>
Primeiro episódio de Espelho tem participação de Zileide Silva e Kenya Sade
Ao CORREIO, o ator falou sobre o retorno do programa, as estreias no cinema e na TV este ano, a homenagem que ele e Taís Araújo receberão no Festival de Cinema Brasileiro em Paris e a sensação de assistir ao amigo-irmão Wagner Moura receber reconhecimento internacional com O Agente Secreto. >
O que você tinha como indispensável ao pensar esse retorno do “Espelho”? Quais os maiores desafios nesse momento de repensar o programa para 2026? >
Desafio não, metas, porque essas metas me ajudam a não ter tantas questões assim. A primeira coisa foi reunir a mesma equipe que está nesse programa há tantos anos. A equipe é fundamental para criação dessa linguagem, para me provocar na seleção dos entrevistados e ajudar na concepção do programa. E é uma temporada que eu quero muito celebrá-los e poder juntar a turma.>
Segunda coisa é fazer um programa que renovasse a discussão sobre as questões que o Espelho sempre debateu. A luta anti-racista, a formação da nossa identidade, a importância da cultura e da educação, trazer novas vozes para os debates. Tem várias pessoas que tiveram sua primeira entrevista no audiovisual para o Espelho. Então, manter essa característica e fazer uma avaliação dessas questões ao longo dos 20 anos. O Espelho ajudou um pouco a pensar o Brasil em diversos temas. Foi muito legal fazer isso, porque todas as questões que o Espelho começou a falar não eram discutidas na televisão brasileira. >
O Espelho participa desse movimento ao longo dos 20 anos e agora a gente pensa assim: “o tema se espalhou em vários lugares, inclusive na internet, o jornalismo potencializou, várias coisas melhoraram, mas temos vários desafios. Qual é o novo caminho? Para onde a gente vai apontar no momento de dificuldade para debater esses temas?”. Foi essa a meta e acho que cumprimos bem. Estou muito feliz com a temporada, ela celebra uma voz importante nesses debates e ao mesmo tempo aponta novos caminhos.>
Uma marca de ‘Espelho’ sempre foi a diversidade de convidados, que são de diferentes gerações e áreas. De fato, como um espelho do Brasil. Para você, qual a importância de manter acesos esses diálogos plurais, sobretudo com personalidades negras, trazendo debates que permeiam a presença negra nos mais variados campos?>
Primeiro, se fortalecer. Segundo, circular as informações. Terceiro é o aprendizado, aprendo muito com o Espelho. Revejo opiniões, estratégias, o meu discurso e o meu posicionamento a cada pessoa que eu encontro. Me considero mais escutador que entrevistador. Provoco e escuto porque eu também estou querendo absorver. Quando eu junto Dom Filó, que é o cara que trouxe a Black Music para o Brasil, e o L7nnon, que é a nova geração da música preta, tem uma conexão ali brilhante. Quando eu junto a Zileide Silva com a Kenya Sade e a gente lembra da Glória Maria e tantas outras jornalistas negras que estão por aí, fortalecemos um lugar, mas pensamos quais são os novos caminhos.>
Duas décadas depois da estreia, o que você diria que levou de aprendizado do programa?>
Senso de comunidade é o primeiro. Tanto na frente quanto fora das telas. Este ano tem um programa especial que é uma homenagem à equipe que está nesses anos todos. A gente relembra os 20 anos, com trechos inéditos de bastidores que nunca foram mostrados. Esse senso de coletividade, de criação coletiva, de provocar um ao outro, de não ter um “ISO 9000” de ativismo. A gente vai sempre se encontrando, se fortalecendo e aprendendo. >
Como comunicador, o exercício das linguagens. É um programa que inaugurou linguagens televisivas. Às vezes a gente fala muito do conteúdo e não pensa na forma. Quando ninguém fazia isso, fazíamos entrevistas no carro. Não tinha câmera pequena, a gente se juntava com fita crepe para prender a câmera e criar um formato que era entrevista no carro. A gente vai com Seu Jorge nos lugares que ele tocou na vida dele, onde ele morou, o tempo que ele morou na rua, e a gente vai no carro. Eu, por exemplo, operava a câmera. Subindo o Morro do Vidigal, entrevistando Babu numa linguagem diferente. >
Também é um laboratório de linguagens, que a gente brinca e depois vê sendo reproduzidas em outros programas, mas o Espelho foi pioneiro. São 20 anos dessa contribuição. Como artista, eu tive também essa oportunidade de experimentar, aprender e provocar.>
Este início de ano vem a todo vapor pra você, com o retorno de Espelho e as estreias do filme Velhos Bandidos e da novela A Nobreza do Amor em março. Nesta, você interpreta seu primeiro grande vilão. Como foi a preparação para esse papel? É muito diferente dos outros personagens que viveu até hoje? >
É muito diferente, mas é um símbolo do que eu quero para mim agora. Nos últimos dois anos, me senti em banho-maria por questões de saúde ou porque fiquei muito tempo me dedicando à carreira de diretor. Aquilo que eu quero discutir continua sendo a mesma coisa, mas eu acho que apareceu um gás novo aí.>
Escolher fazer um vilão faz parte disso. Este vilão, nesta novela, escrita por um baiano também, Elísio Lopes Jr, [com] Duca Rachid e Júlio Fischer. O texto é muito bom. Eu estou estudando como se estivesse estudando uma peça de teatro. Me preparo com os meus colegas atores, mas em casa também estou estudando como se fosse teatro. Anoto o texto à mão, assisto filmes de referência e estudo mais da cultura africana, berço dessa novela. Apesar de se passar em um reino fictício, a nossa maior inspiração é o continente africano. Estou como se estivesse nos primeiros anos, no Bando de Teatro Olodum, me apaixonando e reapaixonando a cada cena.>
Além das estreias na TV e no cinema, 2026 também vem com uma homenagem merecidíssima a você e Taís Araújo no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, a homenagem máxima do festival, que pela primeira vez vai para um casal. O que significa esse reconhecimento para você, tanto pelo título como por estar recebendo junto com Taís? >
Acho que é uma celebração de uma parceria de vida e profissional que eu tenho com Taís, e que me deixa muito feliz. Você ser casado não significa que profissionalmente vai dar certo. Felizmente, a gente dá muito certo. >
E segundo, é fortalecer esse movimento de internacionalização do nosso cinema. A gente está vendo tudo o que está acontecendo com o Ainda Estou Aqui, com Wagner e O Agente Secreto, nessa coisa linda e emocionante que está acontecendo na carreira do meu irmão. Estar lá em Paris também mostrando o nosso cinema, falando sobre ele e sobre as nossas escolhas do cinema brasileiro.>
A gente vive esse momento delicado onde os streamings internacionais tentam votar os seus valores na linguagem do nosso cinema. Estar lá falando de cinema brasileiro, estética brasileira, temas brasileiros, é importantíssimo porque a gente demarca um território que é importante. Que continue e que não seja somente esses filmes.>
Falando em O Agente Secreto, sua amizade com Wagner Moura é conhecida e queridíssima pelos brasileiros, tanto que você se emocionou com a indicação dele ao Oscar. Como tem sido acompanhar esse reconhecimento internacional de Wagner?>
Como um irmão fica quando o irmão conquista uma coisa linda. A gente admira Wagner há muito tempo. É meu irmão, mas admiro ele como ator, como profissional, os trabalhos que ele faz, o jeito que ele aborda os personagens, as escolhas dele são coisas que eu admiro muito. A gente já sabe quem é Wagner, da qualidade. Agora que eles estão tendo o privilégio de bater palmas para ele. Dá um orgulho danado. E principalmente porque Wagner tem criado uma trajetória dizendo muitos “nãos” e eu acompanho isso. Tem uns projetos que ele diz: “não quero fazer, porque eu tenho uma meta, eu tenho um território a demarcar”. Ele tem algo de brasilidade, e digo mais, de baianidade, que ele leva nas escolhas dele internacionalmente e que é muito lindo de se ver.>
Ele não está se aculturando para ser visto fora do país. Eu acho isso muito lindo e celebro muito, acho merecido e realmente estou achando que no dia do Oscar eu não sei o que vai ser de mim [risos]. Ganhando ou perdendo, quando eu ver ele lá todo bonitão, para mim já vai ser um prêmio, acho que eu vou desmaiar na primeira imagem que ele passar. Não sei se vou poder acompanhar, porque acho que já ganhou. Já está lindo, já está tudo certo.>
Lázaro Ramos e Wagner Moura