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Bruno Wendel
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 05:00
A proximidade com o Complexo do Nordeste de Amaralina transformou o Rio Vermelho, tradicional bairro boêmio de Salvador, em mais um dos territórios sob influência do Comando Vermelho (CV) na Bahia. Inscrições da facção espalhadas por alguns pontos reforçam o domínio, mas a presença do grupo criminoso também se manifesta de forma mais discreta: por meio de um esquema de falsos flanelinhas que atuavam de maneira irregular no bairro. >
De acordo com a Polícia Civil, a cobrança ilegal por vagas de estacionamento era realizada por integrantes do CV. “Um deles aparece numa foto segurando um fuzil e uma pistola, ao lado de integrantes do CV do Nordeste”, afirma o delegado Nilton Borba, titular da 28ª Delegacia Territorial (Rio Vermelho). O esquema foi descoberto após a prisão de três suspeitos. “Os três são ligados ao CV, porque quem mora lá não pode aderir ao Bonde do Maluco (BDM)”, completa.>
Integrantes do CV controlam esquema de flanelinhas no Rio Vermelho
Entre os presos está o traficante Adimanel, que aparece na fotografia citada pelo delegado. Ele foi detido ao lado de um segundo integrante do grupo. Já a liderança do esquema, Carlos Alberto Santos Silva, conhecido como “Fumaça”, teve a prisão efetuada no último dia 9, no próprio Rio Vermelho.>
Segundo Borba, a atuação dos falsos flanelinhas também tinha como objetivo justificar a presença constante do grupo criminoso na área e afastar facções rivais. “Eles descem para justificar a presença no território”, explica. O Rio Vermelho faz divisa com o Engenho Velho da Federação, bairro historicamente marcado por confrontos entre o CV e o Bonde do Maluco.>
Esquema>
Por concentrar, em um mesmo espaço, gastronomia, vida noturna e manifestações culturais, o Rio Vermelho atrai moradores de vários bairros e turistas, especialmente nesta época do ano, quando bares e restaurantes ficam lotados. “A demanda por estacionamento é grande. Eles fingem que vão tomar conta dos carros, mas, na verdade, ficam observando o que tem dentro para arrombar”, relata o delegado.>
Ainda segundo a investigação, o trio liderado por “Fumaça” é responsável por mais de 45 arrombamentos de veículos registrados no segundo semestre de 2025. “Uma média de 15 para cada um. Um celular, por mais simples que seja, é vendido por cerca de R$ 100. Se conseguem dez em um dia, são R$ 1 mil”, detalha Borba.>
Com as prisões, o delegado afirma que a atuação de flanelinhas ligados ao CV foi encerrada. “Hoje, quem está na área são os cadastrados pela Prefeitura e alguns não cadastrados, mas que têm a confiança de moradores e comerciantes”, diz. Policiais militares ouvidos pela reportagem, porém, discordam. “Eles saem de cena, mas rapidamente colocam outros no lugar. É assim. O tráfico não para”, afirma um PM.>
Grande parte das ocorrências foi registrada na Rua do Meio, a poucos metros da 7ª Delegacia Territorial. “A gente vê tudo, mas não pode fazer nada. A pessoa estaciona com eles e, quando volta, encontra o carro arrombado, todo revirado. Levam tudo”, relata o segurança de um restaurante. “Eles também assaltam. As pessoas passam por aqui distraídas, bebem muito e esquecem que estão em Salvador”, acrescenta.>
Outro ponto sensível é o entorno da Igreja de Sant’Ana. “Durante o dia é mais tranquilo, mas à noite a situação muda. Eles chegam a ameaçar a gente se não deixarmos colocar os carros nas vagas da Zona Azul”, relata um guardador de veículos cadastrado pela Prefeitura.>
O Comando Vermelho chegou à Bahia em 2020 e, desde então, além do tráfico de drogas e armas, passou a explorar outras atividades criminosas. Em comunidades como Cosme de Farias, Complexo do Nordeste de Amaralina e Engenho Velho da Federação, provedores de internet são obrigados a pagar taxas para operar, prática semelhante à adotada pela facção em áreas do Rio de Janeiro.>
A imposição de regras vai além do setor de telecomunicações. Em Cosme de Farias, por exemplo, comerciantes de diferentes segmentos relatam a cobrança de “pedágio” pelo CV. Padarias, bares, salões de beleza, barbearias e lojas estariam entre os alvos. Nada escapa ao controle da facção.>