Saiba o porquê Jayme Figura passou a esconder o rosto, mantido sob mistério até após sua morte

Artista começou a usar máscara na década de 1990

Publicado em 28 de novembro de 2023 às 08:00

Filho de Jayme Figura com última máscara feita pelo artista
Filho de Jayme Figura com última máscara feita pelo artista Crédito: Paula Fróes/ CORREIO

A história por trás da emblemática roupa de metal usada por Jayme Figura, o artista plástico baiano que morreu aos 64 anos, sem revelar o rosto que guardava atrás da máscara que compunha o traje, é de defesa.

Tudo começou na década de 1990, quando Jayme desbravava as ruas do Centro Histórico de Salvador vestido de preto dos pés à cabeça. O problema era que a volta para casa, à noite, envolvia escapar de cachorros que não simpatizavam com o figurino e latiam quando o viam passar.

É o que conta um dos amigos mais antigos de Jayme, o também artista plástico Leonel Mattos. Os dois tinham uma amizade de 30 anos e trabalhavam juntos. Leonel lembra que Jayme primeiro passou a usar luvas para se proteger dos cachorros.

“E aí os carros começaram a jogar para cima dele, porque achavam que era uma coisa meio estranha. Então ele começou a usar aquelas chapas de gráfica nos joelhos. Depois começou a colocar as máscaras”, conta Leonel.

A reação das pessoas diante do figurino inusitado não intimidou Jayme. “As pessoas se assustaram e ele achou que esse era um bom caminho: as pessoas se assustariam e não chegariam perto. Então veio a polícia para saber qual era, até que se acostumaram com Jayme Figuram, entendendo que ele era um artista”, complementa Leonel.

Rosto lendário

O personagem ganhou as ruas de Salvador em 1992, quando o plano Collor desestruturou a vida do então desenhista publicitário que se identificava com o movimento punk. “Eu ganhava 15 salários, minha esposa estava grávida do segundo filho. Tinha carro, três cadernetas de poupança, uísque embaixo do braço”, lembrou em entrevista ao Correio em 2017.

Apesar de ser conhecido como andarilho de Salvador, Figura gostava mesmo de produzir longe das ruas, em seu ateliê, no Carmo, que batizou de Sarcófago. Ele usava uma lucidez efusiva para defender sua arte performática e o valor da sua produção. O artista ultrapassava as aparições cidade afora para abraçar também esculturas de metais, pinturas, textos escritos e até bandas de rock.

“Diziam: ‘Coitado, grande desenhista, ficou maluco, todo rasgado’. Comecei a usar armadura para me proteger, porque jogavam pedra em mim. Mas nunca fui louco. É uma forma de mostrar minha revolta”, lembrou na época.

Há quatro anos, Jayme foi atropelado na Avenida Carlos Gomes, quando comemorava, em 2016, a reeleição do então prefeito ACM Neto - de quem se dizia um profundo admirador. As sequelas imediatas foram costelas fraturadas, jamais tratadas corretamente, que o impediam de continuar carregando a armadura com o mesmo vigor. O rosto, no entanto, se consolidou como um mistério.

O filho mais novo de Jayme, Pablo Almeida, revelou que o pai pediu para que mantivessem o rosto dele escondido até no enterro, ocorrido na última segunda-feira (27), no cemitério Campo Santo, em Salvador. "Ele queria ser conhecido como o artista Jayme Figura", justificou Pablo.