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Thais Borges
Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 05:00
Se, ao ouvir sobre livros de fantasia, você pensa imediatamente em nomes como J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin ou mesmo Brandon Sanderson, talvez esteja precisando atualizar suas referências no gênero. Esses autores podem até ter conquistado um status de grandeza e reconhecimento, mas, nos últimos tempos, passaram a dividir o mercado editorial com vozes mais diversas, tanto no que diz respeito à origem (o que se reflete nas mitologias abordadas) quanto ao gênero e à sexualidade. >
"A demanda dos leitores por vozes mais diversas, tanto em termos de identidade quanto de repertório cultural, temas e enredos cresceu muito na última década. Leitores, especialmente os mais jovens, passaram a buscar histórias que escapem do cânone eurocêntrico tradicional da fantasia, e estão em busca de outras referências históricas, mitológicas e emocionais", explica o editor de aquisição de livros jovens da Intrínseca, Antonio Castro. >
Fantasia se reinventa: antes dominado por homens, gênero ganha força com vozes diversas
Dois exemplos recentes foram lançados pela editora de janeiro para cá: Tiranos Celestiais (a sequência de Viúva de Ferro), de Xiran Jay Zhao, que nasceu na China; e Juramentados (terceiro livro da série Lendários), da autora negra Tracy Deonn. A editora também é responsável por trazer ao Brasil aquele que, hoje, talvez seja um dos maiores bestsellers da atualidade e que se encaixa totalmente nesse contexto: Alchemised, de SenLinYu. >
É uma mudança que vem se desenhando ao longo da década. Há 10 anos, havia quem tivesse, inclusive, a sensação de que a fantasia era um nicho saturado, como lembra a editora-executiva da Galera Record, Rafaella Machado. "A gente está sempre buscando novos recortes, novas mitologias e começou a ver que existia muito espaço de crescimento tanto para autores estrangeiros quanto internacionais", conta. >
Hoje, a Galera, que é um selo do Grupo Editorial Record, é a maior editora focada em fantasia do país e publica histórias baseadas em mitologias de países como a Índia e a Etiópia. Uma das principais autoras nacionais no catálogo é Giu Domingues, que se aproxima dos 100 mil exemplares vendidos. Outro dos títulos nacionais é a romantasia Herdeiras de pedra e ar, de Mar Freitas, lançada em novembro. A obra conta a história de duas mulheres de nações à beira da guerra e destinadas a se odiar, mas que se apaixonam. Já em outubro, um dos novos títulos foi Herança, de Sabaa Tahir, que traz uma história sobre amor, poder, traição e as consequências da ganância. >
"A gente começou a ver que existia muito espaço para crescimento tanto de autores nacionais quanto internacionais. Mas (esses elementos) já eram muito presentes nas fanfics. Já tinha mulheres e pessoas LGBTQIA+ escrevendo fanfics que bombavam nas redes sociais e não chegavam nas publicações tradicionais", conta. >
De acordo com Rafaella, mulheres são as maiores leitoras de fantasia atualmente - o que segue a tendência geral, uma vez que são as maiores leitoras entre todos os gêneros. "A gente está abrindo nosso catálogo e as fantasias são diversas, seja por serem pessoas não brancas, seja por recortes de origem mesmo. Tem autores coreanos, japoneses, de vários locais da África. A gente está indo além daquela coisa da mitologia nórdica, que já foi muito feito e muito explorado. A cultura estadunidense também está um pouco saturada, as pessoas estão olhando também para a América Latina, para o realismo mágico". >
Conheça livros de fantasia escritos pelas novas e diversas vozes do gênero
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Além de países e origens diferentes, há também mais representatividade LGBTQIA+. Tanto Xiran Jay Zhao, de Viúva de Ferro, quanto SenLinYu, que escreveu Alchemised, são pessoas não binárias (de ascendências chinesa e japonesa, respectivamente). No entanto, no caso de SenLinYu seus escritos já eram muito famosos no universo de fanfics de Harry Potter. >
Alchemised começou a partir da fanfic Manacled, que retrata uma história dos personagens Draco Malfoy e Hermione Granger em um cenário em que Harry morreu e Voldemort ganhou a guerra. Para Antonio Castro, da Intrínseca, o reconhecimento em outras plataformas contribuiu para que essas novas vozes chegassem ao mercado tradicional de publicação com força. >
"No caso de SenLinYu, o sucesso no universo das fanfics é mais uma prova concreta de engajamento: uma base de leitores já formada, acostumada a acompanhar narrativas longas, intensas e serializadas. Isso também dá às editoras uma tranquilidade quanto ao sucesso da obra e construção de um best-seller, afinal, esses autores chegam não só com talento, mas com público", analisa.>
Castro acredita que há uma retroalimentação: a demanda por diversidade por parte dos leitores e as plataformas que dão visibilidade a esses novos autores. "O resultado é um ecossistema em que o mercado tradicional já não ‘descobre’ sozinho, mas reconhece, amplifica e profissionaliza vozes que o público já escolheu ouvir", pontua. >
A recepção dos leitores tem sido positiva. Desde que foi lançado, em outubro, Alchemised, por exemplo, figura entre os mais vendidos. Porém, segundo o editor, muitas publicações do tipo ainda sofrem com menos espaço em lojas e pouca divulgação, seja na imprensa tradicional, seja entre os influenciadores literários. "Um sucesso isolado não muda o sistema da noite para o dia. Ainda assim, vejo nesses casos um potencial real de deslocamento do olhar do mercado". >
O Grupo Planeta, responsável pela publicação de grandes romantasias como Quarta Asa (de Rebecca Yarros) no Brasil, também anunciou uma lista de lançamentos de fantasia, distopia e ficção científica que buscam dialogar tanto com representatividade quanto com ansiedades coletivas do mundo moderno. >
Em janeiro, a editora lançou Cabeça na Nuvem, novo livro infantojuvenil do brasileiro Renan Carvalho. A trama, que se passa em um ambiente fantástico, é uma ficção científica que discute a cultura gamer e o impacto do mundo digital na vida dos jovens. "São livros que falam de monstros, futuros possíveis, amores intensos e sistemas opressivos, sempre colocando em foco as formas de existir, resistir e imaginar novos caminhos", diz o diretor editorial da Editora Planeta, Felipe Brandão. >