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'Muitos leitores ficam chocados com a protagonista', diz Xiran Jay Zhao, que lança novo livro no Brasil

Tiranos Celestiais é a sequência de Viúva de Ferro, uma releitura da história da única imperatriz da China

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 05:00

O novo livro de Xiran Jay Zhao, Tiranos Celestiais, chegou ao Brasil em janeiro, pela Intrínseca
O novo livro de Xiran Jay Zhao, Tiranos Celestiais, chegou ao Brasil em janeiro, pela Intrínseca Crédito: Reprodução

Xiran Jay Zhao costuma fazer longos vídeos sobre a história e a cultura da China, seu país natal, para o YouTube. Mas, além das plataformas digitais, tem se dedicado a difundir mais referências chinesas em outro tipo de publicação mais tradicional - os livros de fantasia. Bestseller do New York Times, seu primeiro livro, Viúva de Ferro, é uma releitura da história Zetian, a única imperatriz da China. A sequência, Tiranos Celestiais, chegou ao Brasil em janeiro, pela editora Intrínseca, e tanto apresenta discussões políticas quanto expande o universo fantástico. Em entrevista exclusiva ao CORREIO, Xiran falou sobre literatura, redes sociais e os desafios para ter diversidade no mercado editorial.

Xiran Jay Zhao nasceu na China e escreveu Viúva de Ferro e Tiranos Celestiais. Também é uma pessoa não binária por Reprodução

A sua série de livros traz muito da cultura e de expressões chinesas. Como foi a recepção dos leitores? O quão difícil é furar a bolha em um mercado ainda tão influenciado pela cultura estadunidense?

Não vou mentir, às vezes é muito frustrante. Viúva de Ferro é uma releitura de ficção científica de eventos históricos, especificamente a ascensão da única imperatriz da China, o que significa que a narrativa deve se basear no conhecimento histórico que existe na mente do meu leitor ideal. Esse leitor veria o nome ‘Wu Zetian’ e entenderia instantaneamente que essa é a história da ascensão calculista de uma garota implacável ao poder absoluto. No entanto, muitos leitores começam a leitura sem nenhum conhecimento de história chinesa, ficam chocados com o comportamento de Zetian e acabam não gostando do livro. Não sei o que dizer a esses leitores, porque eu já suavizei a personagem em comparação com sua contraparte histórica. Uma releitura da Imperatriz Wu nunca teria uma protagonista doce e gentil. Você não deve esperar isso. Mas, como as pessoas não conhecem a história chinesa, é o que acontece.

Viúva de Ferro trouxe sua primeira protagonista chinesa. De que forma trazer uma personagem inspirada na sua própria cultura ajudou a construir a trajetória de Wu Zetian?

Tendo crescido como uma garota chinesa, a Imperatriz Wu (a equivalente histórica de Zetian) foi a figura histórica mais inspiradora de todas. A ideia de Viúva de Ferro — a de uma garota que derruba a ordem social de uma sociedade distópica e patriarcal, em que meninos e meninas são emparelhados em uma dinâmica desigual — surgiu inicialmente como um conceito genérico de ficção científica. No entanto, no momento em que decidi tornar a história chinesa, todos os dramas históricos chineses ambientados no palácio que eu assisti vieram à tona na minha mente. Eu sabia que também precisava transformar a história em uma releitura da Imperatriz Wu.

Afinal, ninguém desafiou o patriarcado de forma mais intensa do que ela. O mais interessante é que, assim que tomei essa decisão, o esboço do primeiro capítulo também mudou na minha cabeça: em vez de a protagonista lidar com o turbilhão emocional de ser convocada, ela passa a decidir se alistar como uma missão de vingança. Uma equivalente da Imperatriz Wu deve iniciar a trama de forma proativa, em vez de ser arrastada para ela.

Tiranos Celestiais acabou de ser lançado no Brasil. O que podemos esperar de Wu Zetian nesse livro?

Não vai ser algo tão ‘BAM-BAM-BAM’, matar o próximo obstáculo e subir de nível, como foi no primeiro livro. Não vai ser tão acelerado nem tão imediatamente gratificante a cada poucas páginas. Espere uma história mais lenta, em que Zetian precisará conquistar mais maturidade emocional e lidar com as consequências de suas ações no livro 1.

Você já falou que Viúva de Ferro chegou a ser rejeitado por todas as editoras nos Estados Unidos, até ser publicado por uma editora canadense. Desde então, você viu alguma mudança no mercado editorial tradicional ou essas barreiras ainda continuam da mesma forma?

Um dos principais motivos dessas rejeições por editoras dos EUA foi o cenário de ficção científica e o poliamor. Definitivamente, estou vendo muito mais desses elementos no mercado agora!

Você acredita que o sucesso de Viúva de Ferro ajudou a abrir espaço para fantasias escritas por vozes mais diversas, a exemplo de autores LGBTQIA+ ou escritores de diferentes contextos culturais e nacionais?

Não tenho certeza de quanto dessa mudança pode ser atribuída a Viúva de Ferro, mas ficaria muito feliz se ele tivesse aberto portas para ao menos um livro que, de outra forma, teria sido rejeitado por falta de um título comparável nas prateleiras.

Quais os maiores desafios para autores de fantasia hoje, no mercado tradicional?

A maldição do BookTok. Hoje é possível que autores se promovam até se tornarem best-sellers, mas isso também levou a expectativas irreais, por parte das editoras, de que os autores façam todo o trabalho pesado de divulgação de um livro. Isso levanta a pergunta: por que, então, publicar de forma tradicional?

Com base na sua própria experiência, que conselho daria a alguém que quer construir uma carreira profissional na escrita?

Meu conselho para todos os aspirantes a autores é não encarar as rejeições como um reflexo do seu valor pessoal ou da qualidade da sua escrita. A publicação é um negócio que escolhe livros que acredita que vão vender, não livros que considera bons. Há muitos fatores envolvidos nisso que não têm nada a ver com a sua escrita em si. Se um projeto não está sendo aceito por agentes ou editoras, passe para o próximo. Não passe anos depositando todas as suas esperanças em um único projeto. O que você escrever em seguida sempre será melhor, porque não terá passado por um milhão de rodadas de revisão enquanto você aprende a aprimorar seu ofício. Você já começará no seu nível de habilidade mais lapidado. Como não poderia ser melhor? Tenho livros no meu disco rígido em que passei anos tentando publicar e hoje nem quero olhar para eles.

Nos últimos anos, comunidades como o BookTok ajudaram a transformar muitos títulos de fantasia e romance em best-sellers. Você também mantém uma forte presença online há anos, inclusive com o próprio canal no YouTube e em outras plataformas. Como os espaços digitais podem ajudar a amplificar autores LGBTQIA+ ou escritores de fora do eixo cultural EUA–Europa?

Na verdade, não acho que o BookTok tenha sido bom ou útil para escritores marginalizados de modo geral. Ele certamente levou a sucessos estrondosos de títulos que, de outra forma, não seriam best-sellers, mas a grande maioria deles é escrita por autores brancos e heterossexuais e apresenta personagens brancos e heterossexuais. Você até pode citar exceções, mas quantas existem em comparação com aquelas que não quebram esse padrão? O peso colocado sobre autores marginalizados para aparecer diante de uma câmera e vender seus livros não é algo positivo, porque o algoritmo não joga a favor deles.

Estamos vendo mais personagens não binários em livros best-sellers, mas eles costumam ocupar papéis secundários, e não centrais. O que você acha que ainda falta para vermos esses personagens no centro de grandes histórias de fantasia? E como você avalia a representação LGBTQIAP+ no gênero hoje?

Para mim, a questão da linguagem neutra em relação a gênero parece ser um fator importante. Há um personagem não binário em Tiranos Celestiais e eu não consigo nem dizer quantas editoras estrangeiras minhas já quebraram a cabeça para decidir como se referir a esse personagem em suas traduções.

Existem edições de Tiranos Celestiais que avisam sobre a existência desse personagem logo no início, apenas para preparar mentalmente os leitores. Acho que ainda vai levar alguns anos para que os falantes de cada idioma se acomodem e se acostumem com formas e termos neutros de gênero. Mas acredito que hoje haja, sim, mais representação em ficção científica e fantasia do que havia anos atrás. Está melhorando aos poucos, passo a passo.

Viúva de Ferro está atualmente sendo adaptado para um filme. O que você pode compartilhar sobre o projeto e em que estágio ele se encontra agora?

Não posso compartilhar nada publicamente, por enquanto.

Você já visitou o Brasil para a Bienal do Livro (de São Paulo, em 2022) e tem um público muito forte aqui. Como você descreveria sua relação com o país e com os leitores brasileiros?

Eu amo demais meus leitores brasileiros. Não contem para pessoas de outros países, mas os leitores brasileiros são os meus favoritos. Eles são cheios de um entusiasmo sem limites e nunca tive um público tão acolhedor quanto o que foi me ver no Brasil. Quase desmaiei assinando livros, mas não queria parar. Espero poder voltar a visitar o país em breve! Rio da próxima vez?

Vivemos um momento de incerteza global e instabilidade política. O que você acha que histórias como Viúva de Ferro podem oferecer aos leitores em tempos de crise?

A história é dialética. Onde quer que exista opressão, inevitavelmente haverá resistência. Tiranos Celestiais aborda isso com mais profundidade do que Viúva de Ferro. Nada pode permanecer eternamente inalterado, mas isso é algo bom, porque significa que até o sistema mais intimidador um dia vai ruir sob o peso de suas próprias contradições internas. É disso que essa série trata, em última instância, e espero que isso traga algum conforto às pessoas. Deixo vocês com uma frase de Tiranos Celestiais: “Todo opressor, ao negar a humanidade, semeia as sementes da própria destruição”.