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O renascimento das culturas angolanas: um novo olhar sobre nossas raízes

Da Conferência de Berlim ao candomblé na Bahia: Angola revela a força de sua diversidade cultural e o papel da diáspora no renascimento africano

Publicado em 30 de agosto de 2025 às 05:00

Fiquei impressionado com a forma como os afrodescendentes conseguiram conservar aqui a cultura africana
Fiquei impressionado com a forma como os afrodescendentes conseguiram conservar aqui a cultura africana Crédito: Ilustração: Thainá Dayube

Vivemos hoje uma espécie de “renascimento africano”, em que diversos países do continente estão se reconectando com seus valores culturais tradicionais, e Angola ocupa um lugar singular nesse processo. Mas, para falarmos da cultura contemporânea de Angola, a meu ver, precisamos antes corrigir um erro muito recorrente: o de se dizer “cultura angolana”, em vez de “culturas angolanas”. No território angolano, podemos encontrar uma imensa variedade de manifestações culturais e essa diversidade já teve, inclusive, várias implicações nas relações sociais.

A região que hoje conhecemos como Angola foi delineada na Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, na Alemanha. Essa conferência foi organizada pelo chanceler Otto von Bismarck e teve como objetivo a partilha do continente africano. A divisão territorial proposta não levou em consideração a diversidade do continente, reunindo, em um mesmo território, diferentes grupos étnicos — decisão que teve impactos positivos e negativos ao mesmo tempo.

A razão pela qual considero importante mencionar esse evento histórico é que ele influenciou profundamente o que o país viria a ser mais tarde, tanto política quanto econômica e culturalmente. Cada grupo étnico de Angola possui suas próprias particularidades, apesar das semelhanças que podem ser observadas entre eles. Percebe-se, de fato, que essas diferenças são, fundamentalmente, culturais.

Angola é um país de muita diversidade cultural, que resulta da sua composição étnica. São 11 grupos étnicos que falam línguas distintas, dos quais nove são bantus. As etnias bantus são: Kacokwe, Mbundu, Kongo, Ngangela, Nyaneka-Nkhumbi, Oluhelelo, Ambo, Ocimbundo e Xindonga. As etnias não bantus são Khoisan e Ovatwa.

A cultura contemporânea de Angola é um sincretismo de todas essas culturas, de seus resquícios em regiões isoladas e da influência cultural portuguesa, que permaneceu no país por cerca de cinco séculos. Esses traços culturais podem ser observados na língua, na gastronomia, na música e no modo de viver dos angolanos.

Embora o país avance na tendência de consolidar uma cultura aparentemente híbrida — formada pela fusão de diferentes culturas internas e externas — ainda existe uma grande barreira para isso. Apenas nas grandes cidades encontra-se um cruzamento cultural de grupos sociais diferentes. Já nas regiões mais afastadas existe uma drástica conservação da cultura local, ou seja, em algumas regiões, principalmente no interior, a cultura local permanece muito viva. Como afirma o historiador belga Jan Vansina, a presença europeia em África suprimiu apenas a cultura dos locais que mais tarde se tornariam grandes metrópoles. A cultura local foi empurrada para o interior, onde permanece quase intacta até os dias de hoje.

Tendo Angola se tornado independente há relativamente pouco tempo — são apenas 50 anos de independência —, o processo de formação de uma identidade nacional ainda está em curso. Neste processo de renascimento cultural, destaca-se a influência do movimento pan-africano, através dos livros de intelectuais como Cheik Ant Diop, Walter Rodney, Joseph Ki-Zerbo, etc., que estão permitindo aos jovens pensar África a partir de uma perspectiva endógena e não somente europeia, como ocorreu por muito tempo.

A colonização interrompeu nosso percurso histórico e impactou negativamente nossas culturas, subalternizando, marginalizando e demonizando-as. Eu consideraria que estamos vivendo um processo de descolonização das mentes, pois existe um resgate de valores culturais africanos. Embora não ocorra no ritmo que eu gostaria, é inspirador ver jovens mudando sua visão sobre as culturas legadas por nossos ancestrais.

O Estado angolano é frequentemente acusado de não promover a cultura local, como prometido na Constituição, o que tem gerado muitos debates. Além da capacidade estatal de Angola enfrentar vários desafios para efetivação de políticas de bem-estar comum, vale destacar que a elite política e econômica de Angola parece se identificar mais com os valores ocidentais do que africanos, como é comum no continente africano.

No entanto, nossa cultura permanece viva no modo de viver, nos rituais de nascimento, casamento, velório, na resolução de conflitos familiares, na música, na gastronomia, na indumentária, entre outros aspectos.

Minha experiência

Eu nasci no Uíge, uma província do norte de Angola, e sou filho de uma angolana e um congolês. Um ano depois do meu nascimento, eles mudaram para Luanda, a capital, onde passei quase a minha vida toda, até vir ao Brasil. Ao chegar na Bahia, fiquei impressionado com a forma como os afrodescendentes conseguiram conservar aqui a cultura africana. Conseguiram preservá-la melhor do que algumas regiões do próprio continente africano. Tal semelhança, em Angola, só pode ser encontrada no interior do país e em algumas partes das grandes cidades.

Nasci no Uíge, uma província do norte de Angola, e sou filho de uma angolana e um congolês
Nasci no Uíge, uma província do norte de Angola, e sou filho de uma angolana e um congolês Crédito: Acervo Pessoal

Podemos tomar como exemplo o candomblé, muito semelhante, em conteúdo e prática, às religiões tradicionais praticadas em algumas províncias do norte de Angola. A adoração a entidades como orixás, a valorização da tradição oral e a veneração dos ancestrais são quase universais em África. Mas a maior semelhança foi a que eu vi no candomblé Angola, que tem raízes em pessoas que vieram do Reino do Congo (eu sou descendente de pessoas desse reino) e usa a língua Kikongo para rituais (língua falada por minha mãe e que eu entendo uma boa parte). Na minha província, Uíge, pratica-se a mesma religião, utilizando até os mesmos termos, como Nzambé, Npungo, Nsamba, Kandu, entre outros, para se referir a entidades ou rituais sagrados.

Esse processo de ressignificação cultural tem agentes tanto continentais quanto diaspóricos. Cito exemplos: organizações como a Kweli, que faz uma ponte entre afrodescendentes e africanos de países lusófonos de África; centros de estudos africanos de todo o mundo dialogando com universidades do continente; movimentos culturais que unem a diáspora do continente, etc. O Brasil tem contribuído muito, por exemplo, com a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileiras (Unilab), um espaço onde aprendemos a desenvolver um novo olhar sobre nossas raízes culturais.

Unilab: espaço onde aprendemos a desenvolver um novo olhar sobre nossas raízes culturais
Unilab: espaço onde aprendemos a desenvolver um novo olhar sobre nossas raízes culturais Crédito: Marina Silva

Tendências atuais

A cultura contemporânea de Angola é fruto desse processo histórico e cultural. Ela é marcada pela presença portuguesa, que durou cerca de cinco séculos; pela revalorização das culturas locais e pela interação entre essas culturas, que ora se contradizem, ora se complementam.

O português falado em Angola é um exemplo perfeito para ilustrar esse ponto de interseção entre o que é externo e a combinação do que é local. Por exemplo: usamos frequentemente a palavra kota, que deriva do quimbundo díkóta e significa “mais velho” ou “respeitável”. Ao mesmo tempo, usamos muito a palavra mambo, derivada do kikongo, que significa “assuntos”, “problemas” ou “coisas”. Assim como também mantemos muitas semelhanças com o português falado em Portugal, presente em expressões como: auto-carro, sítio, malta, etc.

Através desses exemplos, é possível perceber claramente que a combinação de palavras das línguas locais com o português resulta numa forma de expressão única, que só existe em Angola. Essa diversidade representa perfeitamente também nossos elementos culturais — como rituais, músicas, gastronomia, entre outros.

A cultura angolana está vivendo um momento de fortes transformações também como resultado da situação política e econômica. O país está vivenciando uma crise econômica já há cerca de seis anos, o que impulsionou a saída de muitos jovens, atrás de novas oportunidades em outros lugares, razão pela qual a diáspora angolana cresceu muito nos últimos anos. Sendo assim, acredito que essa releitura das nossas culturas trará grandes possibilidades para o povo angolano. Mais do que emancipar-se de forças culturais que nos foram impostas, poderá nos permitir pensar em políticas concretas para o nosso presente e futuro.

Sakaneno Miguel Paulo: Sou de Angola, tenho 26 anos e atualmente curso o Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), na Bahia. Sou bolsista do CNPq e participo de uma rede internacional de pesquisadores, a QUALIGOV, estudando capacidades estatais, arranjos institucionais e políticas públicas. Pretendo pesquisar a relação entre o estado e a sociedade no contexto africano, especialmente a capacidade estatal e políticas para educação em Angola. E-mail: smpaulo878@gmail.com

Tags:

Cultura