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Ser africano, ser guineense: muito a ensinar, em tempos de crise ambiental e individualismo

Na Bahia, os guineenses ensinam que África não é estereótipo: é diversidade, saberes e resistência cotidiana

Publicado em 30 de agosto de 2025 às 05:00

Segeia Nhaga pesquisa violações aos direitos humanos das crianças talibé
Segeia Nhaga pesquisa violações aos direitos humanos das crianças talibé Crédito: Marina Silva

Qual a primeira coisa que passa na sua cabeça quando ouves as palavras África ou africano? Talvez seja fome? Guerra? Selva? Quantas vezes você já escutou alguém falar do africano ou da África acompanhado de estereótipos como: eles moram no mato, eles vieram para cá porque lá não tem nada ou para fugir da guerra. Como ele chegou aqui? Veio de barco? Fala a nossa língua? Esses estranhamentos revelam não só a ignorância geográfica, assim como reforçam o apagamento de outras formas de existências e conhecimentos. Ao confundir “ser africano” com um perfil único e genérico, o Brasil perde a oportunidade de aprender com a diversidade.

Infelizmente, essa é a realidade dos africanos e guineenses na Bahia. Aliás, o ser guineense se perde, você se torna angolano/nigeriano ou simplesmente africano. A África não é um país. A África é um continente com mais de 50 países, milhares de povos, centenas de línguas e uma diversidade cultural imensa. Entre essas nações temos a Guiné-Bissau. Cada país africano tem a sua singularidade e não se pode generalizar. Ser guineense é muito mais que ser africano, é carregar uma história de resistência, uma cultura rica baseada em saberes próprios.

Guiné-Bissau conta com mais de 30 grupos étnicos
Guiné-Bissau conta com mais de 30 grupos étnicos Crédito: Ilustração: Thainá Dayube

Um dos principais apagamentos enfrentados pelo povo guineense na Bahia é a negação da sua identidade. Muitas das vezes ao se apresentar como guineense, a pessoa ouve: “E daí? Mas você fala africano? Isso fica perto de onde?”. Por isso, vamos aqui apresentar a Guiné-Bissau, um pequeno país localizado na costa ocidental africana. A Guiné-Bissau tem um território de 36.125 km² de área e uma população de mais ou menos 2 milhões de pessoas. Foi uma antiga colônia portuguesa e conquistou a sua independência em 1973, o que só foi reconhecido por Portugal em 1974. Administrativamente, o país se divide em oito regiões e um setor autônomo, Bissau, a capital do país.

Embora seja um país pequeno, a Guiné-Bissau conta com mais de 30 grupos étnicos. Portanto, reúne uma grande variedade de línguas locais. A língua mais falada é o criolo, mais conhecido como criolo da Guiné, embora esteja surgindo uma nova denominação: língua guineense. A língua oficial do país, embora não esteja especificada na Constituição, é o português, devido à herança colonial, mas menos de 50% da população fala português.

Nininha Gomes Djaló é estudante na Unilab e participa de uma rede internacional de pesquisadores, a QUALIGOV
Nininha Gomes Djaló é estudante na Unilab e participa de uma rede internacional de pesquisadores, a QUALIGOV Crédito: Marina Silva

O povo guineense é marcado por um coração generoso, uma simpatia cativante e uma alegria que resiste às adversidades. A diversidade cultural presente no país torna tudo ainda mais fascinante: é impressionante ver como, mesmo diante das diferenças, existe uma convivência respeitosa e um espírito de união entre os diversos grupos. Isso não significa minimizar os desafios, conflitos e divergências que também existem, mas sim reconhecer a capacidade do povo guineense de valorizar a pluralidade e buscar harmonia no cotidiano.

Mesmo sendo um país laico, segundo a Constituição, ele é constituído por uma maioria de muçulmanos e cristãos, o que engloba mais de 50% da população. Também conta com a presença de outras religiões, como as religiões tradicionais locais. Embora existam algumas resistências, é possível encontrar vários núcleos familiares com membros pertencendo a várias religiões e ainda assim manterem uma convivência saudável. O sincretismo é muito presente, justamente pelo fato das famílias terem membros de diversas religiões.

Paisagens

A Guiné-Bissau é um verdadeiro tesouro natural, com paisagens que encantam pela beleza. O país abriga florestas tropicais, savanas, rios e áreas de manguezais que sustentam uma rica biodiversidade. As paisagens são simples e maravilhosas, com pouca influência humana, sem arranha-céus, além de contar com 88 ilhas. No arquipélago dos Bijagós, são apenas 12 ilhas habitadas.

Esse paraíso natural é reconhecido pela Unesco como Reserva da Biosfera, graças às suas fauna e flora únicas. O que inclui hipopótamos marinhos, tartarugas, aves migratórias e uma rica vida marinha. Além do valor ambiental, as ilhas guardam tradições culturais fortes e modos de vida sustentáveis, refletindo a profunda conexão entre o povo bijagó e a natureza.

O leste do país é marcado por lindos amanheceres e entardeceres. Nos vilarejos e no campo, o céu aberto permite que se veja o sol nascer e se pôr de forma espetacular, pintando o céu de tons de laranja, rosa e roxo sobre a terra vermelha e os campos verdejantes, proporcionando uma beleza excepcional.

Os fulas, um dos povos guineenses, são conhecidos por sua habilidade com o gado
Os fulas, um dos povos guineenses, são conhecidos por sua habilidade com o gado Crédito: Ilustração: Thainá Dayube

Raízes que dançam, falam e resistem

A cultura da Guiné-Bissau é viva, falada, dançada, cantada e sentida. Ela não se resume aos arquivos escritos ou às notícias da mídia, mas pulsa no corpo e na voz das pessoas. Nas feiras, nas tabancas (aldeias), nos contos contados ao pé da fogueira, nos batuques que embalam os pés e nos provérbios que orientam decisões. Em um país onde o conhecimento é passado de geração em geração, não por livros, mas por vivência e partilha, a oralidade é a base de tudo.

Cada povo guineense carrega práticas e visões de mundo específicas. Os balantas, por exemplo, têm uma forte ligação com a terra e com os rituais agrícolas. Os fulas, conhecidos por sua habilidade com o gado, valorizam profundamente a hospitalidade e o respeito à hierarquia. Os papel são conhecidos pelas habilidades na pesca. Os manjacos, os mankanhes, cada um tem a sua identidade. Essas identidades coexistem em harmonia e também em tensão, compondo a complexidade da sociedade guineense.

Outro traço forte é a sua culinária marcante, com sabores intensos e produtos orgânicos, em sua maioria com pratos como caldo de mancarra (amendoim), caldo de tcheben (dendê), siga (feito com quiabos), entre outros. Há também uma presença forte da espiritualidade em todos os aspectos da vida. Não se trata apenas de religião organizada, seja islâmica, cristã ou animista, mas de um modo de ver o mundo.

No entanto, essa riqueza cultural muitas vezes é ignorada no Brasil. Quando se fala da cultura africana, recorre-se a imagens genéricas: tambores, máscaras, danças “tribais”. Pouco se entende da profundidade dos significados por trás de cada gesto ou palavra. A Guiné-Bissau não é uma caricatura. É um território de sabedoria, pluralidade e criatividade cotidiana.

Economia sustentável

A economia da Guiné-Bissau é, em sua base, agrícola. Mais de 80% da população depende da terra para sobreviver, cultivar, vender e trocar. Mas, ao contrário da imagem de “atraso” que muitos brasileiros têm ao ver lavouras manuais ou feiras ao ar livre, o que existe na Guiné-Bissau é um conjunto de práticas sustentáveis, adaptadas ao clima, à geografia e às relações comunitárias.

Esses saberes não são acadêmicos ou laboratoriais, mas sim da experiência acumulada ao longo de gerações. Ele se manifesta no conhecimento dos ciclos das chuvas, no uso inteligente da água, na escolha de sementes locais e na proteção do solo com folhas e raízes. É uma ciência viva, popular e profundamente conectada com a natureza.

As mulheres guineenses são protagonistas nesse processo. Elas não apenas plantam e colhem, mas também organizam mercados, alimentam famílias inteiras e mantêm redes de solidariedade econômica. São verdadeiras gestoras da vida cotidiana, mesmo sendo muitas vezes invisibilizadas nas narrativas oficiais.

Nas tabancas, cultiva-se o arroz, base da alimentação nacional, mas também mandioca, milho, amendoim, frutas tropicais e ervas medicinais. Tudo é aproveitado: os resíduos viram adubo, a palha vira telhado e as sobras de alimentos vão para a pecuária. Esse tipo de economia não é industrial, mas é inteligente. Não destrói para produzir, mas equilibra produção e preservação.

Outras fontes da economia são a exportação de castanha de caju, de peixes e mariscos, embora seja necessário repensar essas atividades econômicas. Por exemplo, é importante questionar o desmatamento para a plantação do cajueiro, pois bem sabemos os riscos da monocultura e do desmatamento das árvores originárias. Ainda assim, eles são importantíssimos na economia guineense. O país também conta com reserva de alguns minérios, como petróleo, bauxita, calcário, argila, areia pesada, entre outros, que ainda não foram explorados.

A economia da Guiné-Bissau é, em sua base, agrícola
A economia da Guiné-Bissau é, em sua base, agrícola Crédito: Ilustração: Thainá Dayube

Uma nova forma de ver a Guiné-Bissau

Ser guineense no Brasil é, muitas vezes, carregar o fardo de uma identidade mal compreendida. Ao chegar aqui, muitos enfrentam olhares de desconfiança. O sotaque vira motivo de piada. A cor da pele, uma sentença. O passaporte, um símbolo de inferioridade aos olhos de quem ainda vê a África com desprezo ou piedade. O racismo e a xenofobia moldam o cotidiano, desde o acesso à moradia até o tratamento em instituições públicas.

A Guiné-Bissau não é o que muitos brasileiros pensam. Não é um lugar sem história, sem cultura ou sem saberes. Pelo contrário: é uma nação com raízes profundas, formada por povos que resistiram ao colonialismo, que constroem com as próprias mãos a vida cotidiana e que mantém, mesmo diante das dificuldades, uma relação rica com a terra e a coletividade. O guineense é um povo que tem muito a ensinar, sobretudo em tempos de crise ambiental, desigualdade e individualismo.

No entanto, ser guineense no Brasil também é construir pontes. É trazer consigo uma riqueza cultural que contribui para a diversidade brasileira. É ensinar o criolo nas escolas, organizar eventos culturais, cozinhar pratos típicos, tocar tambores que ecoam a saudade de estar em casa. É participar de movimentos sociais, dar aulas, ocupar espaços acadêmicos.

O Brasil precisa aprender a olhar para os guineenses e para os africanos com respeito, e não com piedade ou com inferioridade, mas com curiosidade e vontade de escutar. A se abrir ao intercâmbio, não à imposição. Passar da tolerância para o reconhecimento. Da ajuda assistencialista para a parceria. A reconhecer que a presença guineense no Brasil nos força a rever nossos preconceitos mais enraizados, enriquece nossa sociedade e amplia nossos horizontes.

Nininha Gomes Djaló é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na Unilab, em São Francisco do Conde. É da Guiné-Bissau, tem 22 anos, é bolsista do CNPq e participa de uma rede internacional de pesquisadores, a QUALIGOV, estudando capacidades estatais, arranjos institucionais e políticas públicas. Estuda temas relacionados a Direitos Humanos, políticas públicas, organizações internacionais, liberdade de expressão na Guiné-Bissau e os impactos da capacidade estatal na qualidade da educação básica guineense. E-mail: gomesdjalonininha@gmail.com

Segeia Nhaga é estudante do Bacharelado em Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), campus dos Malês, São Francisco do Conde-BA. É da Guiné-Bissau, tem 22 anos e pesquisa atualmente as violações aos direitos humanos das crianças talibé. E-mail: nhagasegeialicelia@gmail.com

Tags:

Cultura