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'Peraí, peraí, peraí': o dia em que rádio baiana transmitiu ao vivo a morte de um delegado

Em 2010, Clayton Leão foi executado em uma emboscada enquanto dava entrevista em Camaçari

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Carol Neves

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 07:32

Delegado Clayton Leão foi morto no carro quando dava entrevista para rádio
Delegado Clayton Leão foi morto no carro quando dava entrevista para rádio Crédito: Almiro Lopes/Arquivo CORREIO

Era manhã de 26 de maio de 2010, uma quarta-feira, quando a voz do delegado Clayton Leão Chaves, ao vivo no rádio, foi interrompida por tiros. Dentro de um carro parado na Estrada da Cascalheira, ele comentava os índices de violência em Camaçari quando percebeu a aproximação de homens armados e ainda reagiu: “Peraí, peraí, peraí”. Segundos depois, os disparos atravessaram a transmissão e transformaram uma entrevista em um dos crimes mais impactantes da história da segurança pública baiana.

Clayton Leão, então com 35 anos, era titular da 18ª Delegacia Territorial de Camaçari e concedia entrevista por telefone ao programa De Olho na Cidade, da Rádio Líder FM. A conversa, que deveria acontecer no estúdio, foi realizada de dentro do carro porque o delegado estava atrasado. Para conversar com os jornalistas, ele havia parado o veículo na Ladeira das Pedrinhas, em Cajazeiras de Abrantes, trecho da Estrada da Cascalheira.

Durante a transmissão, três homens se aproximaram. No áudio, além da última frase do delegado, também é possível ouvir os criminosos gritando “Bora, bora, desgraça”. Em seguida, três tiros foram disparados. Dois atingiram o rosto de Clayton Leão e um acertou a porta do carro. O delegado chegou a quase sair do veículo - o corpo foi encontrado com os pés para fora.

Delegado Clayton Leão por Almiro Lopes/Arquivo CORREIO

No banco do carona estava a esposa, Simone de Oliveira, que presenciou a execução. Por cerca de três minutos, cerca de 40 mil ouvintes ouviram, ao vivo, o desespero da mulher do delegado. “Meu Deus. Meu Deus do Céu. Pelo amor de Deus”, gritava ela, enquanto pedia ajuda.

No estúdio, os radialistas Marco Antônio Ribeiro e Raimundo Rui de Oliveira inicialmente pensaram se tratar de um acidente. “Que foi que houve aí, hein? O que foi que houve, doutor? Quem é essa mulher?”, perguntaram no ar. Mesmo sem compreender a gravidade do que ocorria, fizeram o alerta: “Atenção, pessoal da 18ª Delegacia de Polícia. Algo grave aconteceu aí”.

Clayton Leão foi socorrido e levado ao Hospital Geral de Camaçari, mas não resistiu aos ferimentos. Simone não teve ferimentos. O corpo do delegado foi sepultado sob forte emoção no dia seguinte no Cemitério Campo Santo, em Salvador.

Comoção

A morte do delegado causou comoção imediata. Policiais civis e militares, incluindo delegados de Salvador e da Região Metropolitana, se dirigiram à Estrada da Cascalheira. Colegas relataram choque e tristeza; alguns chegaram ao local chorando. Clayton havia integrado o Centro de Operações Especiais (COE) e era considerado um policial disciplinado e combativo, especialmente no enfrentamento ao tráfico de drogas.

A Polícia Civil estava em greve na ocasião, mas isso não impediu a solidariedade dos colegas. "A categoria tinha um carinho muito grande por ele. Uma pessoa justa e competente. Por isso, todo mundo saiu para dar apoio, mas a greve não foi suspensa. Somente os policiais envolvidos na investigação foram liberados", explicou Carlos Lima, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado da Bahia (Sindpoc).

No dia seguinte ao crime, no Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues, Simone de Oliveira mal conseguia se manter em pé. Com roupas manchadas pelo sangue do marido, precisou de ajuda para subir a rampa de acesso à identificação de corpos. “Essa dor nunca vai acabar”, repetia. Em outro momento, relatou: “Ele caiu no meu colo”.  

Segundo o relato da viúva, a abordagem foi rápida. “Eles apontaram a arma para ele (…) deram o tiro (…) mataram ele.” Em outra tentativa de reconstrução, disse: “Quando apontaram a arma, ele falou peraí (…) quando tentou tirar o cinto levou os tiros”.

Quem era Clayton Leão

Integrante da Polícia Civil da Bahia desde 20 de março de 2004, Clayton Leão Chaves construiu a carreira na segurança pública após iniciar a vida profissional como advogado. Recém-formado em Direito, atuou por cerca de dois anos como advogado do Grupo Gay da Bahia (GGB) e do Centro Baiano Anti-Aids (CBAA), onde se destacou na defesa das minorias.

Na Polícia Civil, começou como titular da delegacia do município de Barra do Mendes, a 534 quilômetros de Salvador. Em seguida, integrou o Comando de Operações Especiais (COE) e, em dezembro de 2008, foi designado titular da 18ª Delegacia de Polícia, em Camaçari, onde passou a morar com a família.

À frente da unidade, intensificou o combate ao tráfico de drogas na Região Metropolitana de Salvador e ficou responsável pela apuração de crimes de grande repercussão, como o roubo de 43 armas do fórum de Camaçari - algumas de uso privativo das Forças Armadas - e, meses depois, o arrombamento do fórum de Simões Filho, quando armas e documentos foram levados pela mesma quadrilha.

A carreira como delegado era um projeto pessoal e familiar. Clayton Leão era conhecido pela dedicação ao trabalho policial e pela postura combativa, especialmente nas ações contra o tráfico de drogas. Ele era casado com a dentista Simone Oliveira e tinha dois filhos, então com 5 anos e 1 ano. 

Investigação e prisões

Enquanto o delegado Clayton Leão Chaves ainda se preparava para sair de casa naquela manhã, os homens apontados pela polícia como autores do crime já circulavam pela Região Metropolitana de Salvador (RMS) em uma sequência de assaltos. Segundo a investigação, por volta das 6h30 - cerca de três horas antes do assassinato - Rinaldo Valença de Lima, de 27 anos, Edson Cordeiro, de 30, conhecido como Inha, e Magno de Menezes dos Santos, também de 27, deixaram suas casas no loteamento Gleba, em Camaçari.

O trio iniciou uma série de roubos de veículos em Camaçari e em Dias d’Ávila. Primeiro, assaltaram um Honda Civic e um Polo. Em seguida, tomaram um táxi modelo Corsa, que seria usado na abordagem ao delegado, titular da 18ª Delegacia desde 2008.

De acordo com o diretor do Departamento de Narcóticos, Cleandro Pimenta, que coordenou a força-tarefa montada após o crime, os suspeitos retornavam para o loteamento Gleba, pela região conhecida como Estrada da Cascalheira, quando avistaram o carro do delegado parado no acostamento. Clayton Leão permanecia no local havia cerca de 18 minutos, concedendo entrevista ao vivo a uma emissora de rádio, quando os criminosos anunciaram o assalto.

A ordem dada ao delegado, ouvida na transmissão ao vivo - seguida pelos disparos - marcou o momento do crime. Segundo o secretário da Segurança Pública à época, César Nunes, Rinaldo assumiu ter efetuado os tiros que atingiram Clayton Leão na cabeça. Ele afirmou que atirou ao perceber um movimento do delegado em direção às pernas, acreditando que haveria reação armada.

A esposa do delegado, a dentista Simone de Oliveira, que estava no banco do carona, confirmou em depoimento informal que o marido chegou a abrir a porta do veículo e tentou alcançar a arma quando foi alvejado.

O táxi usado no crime foi encontrado horas depois, próximo ao loteamento Gleba, o que levou os investigadores ao primeiro suspeito. Rinaldo foi preso em casa e confessou a autoria dos disparos. Ele indicou o local onde o veículo havia sido abandonado e delatou os comparsas. Um motorista que passava pela estrada também testemunhou a aproximação do táxi e os tiros.

Na casa de Edson Cordeiro, a polícia apreendeu duas armas e cerca de 100 gramas de maconha. Um revólver calibre 357 foi apontado como a arma utilizada no assassinato. Edson já respondia a processo por porte ilegal de arma. Magno, apontado como motorista do grupo, não tinha antecedentes e se apresentou ao Comando de Operações Especiais após familiares entrarem em contato com a polícia.

Em menos de 21 horas, os três suspeitos foram apresentados em coletiva na Secretaria da Segurança Pública. Rinaldo e Edson foram presos em flagrante e encaminhados à carceragem da Delegacia de Homicídios. No caso de Magno, que se apresentou espontaneamente, a prisão foi decretada posteriormente pela Justiça de Camaçari.

Além do trio preso, a investigação apontou a participação de um quarto homem, identificado como Mauro, citado nos depoimentos colhidos pela Polícia Civil. Segundo o delegado Cleandro Pimenta, foi ele quem percebeu o carro do delegado Clayton Leão parado no acostamento da estrada e alertou os demais integrantes do grupo para a abordagem. Mais de uma década depois do crime, em abril de 2021, a Polícia Civil do Mato Grosso prendeu um homem apontado como envolvido no assassinato do delegado Clayton Leão Chaves. O suspeito foi localizado no município de Várzea Grande, a cerca de 300 quilômetros da fronteira com a Bolívia, quando tentava fugir para fora do país.

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Clayton Leão