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Carol Neves
Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 10:10
O desaparecimento da corretora de imóveis Daiane Alves Souza, de 43 anos, ocorrido em dezembro do ano passado em Caldas Novas (GO), foi precedido por uma longa disputa com o condomínio onde ela morava e com o síndico do prédio. O embate envolveu notificações formais, registros policiais, processos judiciais e culminou em uma tentativa de expulsão, posteriormente suspensa pela Justiça. O Ministério Público de Goiás (MP-GO) apresentou uma denúncia por perseguição contra o síndico do prédio, Cleber Rosa de Oliveira, com agravante de abuso de função.>
A denúncia foi protocolada no dia 19 de janeiro e enquadra a conduta do síndico no artigo 147-A do Código Penal, que trata do crime de stalking, combinado com o artigo 61, que prevê aumento de pena quando há abuso da função exercida. Com esse novo processo, já são 12 as ações judiciais envolvendo Daiane e o síndico.>
Imagens de câmera de segurança mostram momento em que mulher desce ao subsolo
Segundo o promotor de Justiça Cristhiano Menezes da Silva Caires, responsável pelo caso, Cleber teria usado o cargo para dificultar a rotina da corretora. De acordo com o Ministério Público, ele passou a monitorá-la por meio das câmeras do condomínio, submetendo-a a situações recorrentes de constrangimento.>
Daiane desapareceu no dia 17 de dezembro. Imagens de câmeras de segurança mostram a corretora deixando o apartamento por volta das 19h e entrando no elevador em direção ao subsolo do edifício, onde residia havia cerca de dois anos. Desde então, ela não foi mais vista.>
Segundo a mãe, Nilce Alves Pontes, Daiane teria ido até a área técnica do prédio para religar a energia elétrica do apartamento. Nilce afirmou que os cortes de luz eram frequentes, apesar de não haver inadimplência. Em um vídeo enviado a uma amiga, Daiane mostra que a energia funcionava normalmente no condomínio, enquanto o fornecimento permanecia suspenso apenas em sua unidade.>
As imagens de segurança também registram Daiane com o celular na mão, gravando o próprio trajeto e conversando brevemente com outro morador até chegar ao subsolo. Desde então ela segue desaparecida. A Polícia Civil de Goiás apura o caso. >
Disputa com o condomínio>
Segundo a denúncia do MP, o início do conflito entre Daiane e o síndico está ligado a um desentendimento envolvendo a locação de um imóvel com número de hóspedes acima do permitido pelas regras internas do condomínio. De acordo com o MP, a situação teria motivado atritos diretos entre as partes e desencadeado uma série de medidas administrativas adotadas pelo síndico, que, posteriormente, passaram a ser analisadas como possíveis excessos no exercício da função. >
Em janeiro de 2025, o condomínio notificou Nilce Alves Pontes, proprietária do imóvel, alegando que o apartamento estaria sendo utilizado como marcenaria. A administração afirmou que a atividade feria normas internas, causava transtornos e deveria ser encerrada em até 72 horas, com retirada de máquinas e materiais, sob risco de multa. Daiane era quem residia no local.>
O condomínio alegou não ter recebido resposta à notificação inicial. Em comunicações posteriores, reforçou que não houve contestação ou explicação e sustentou que as regras continuavam sendo descumpridas.>
No fim de abril, a disputa avançou para a esfera criminal. No dia 30, Daiane registrou um boletim de ocorrência por violação de domicílio contra o síndico. Ela afirmou ter tomado conhecimento, por mensagens de WhatsApp, de que ele teria entrado em seu apartamento sem autorização. O síndico confirmou a entrada, alegando que foi ao local para filmar e comprovar a suposta existência da marcenaria.>
Em maio, novas queixas surgiram. Daiane afirmou, por meio de áudios e prints de conversas, que o síndico estaria impedindo seu trabalho como corretora dentro do condomínio e orientando funcionários da portaria a barrar o recebimento de encomendas. A administração emitiu ao menos duas notificações relatando episódios envolvendo a corretora na recepção e na portaria, mencionando gravações, abordagens repetidas e discussões com funcionários.>
Medidas mais rígidas e assembleia>
Ainda em maio, o condomínio informou sobre a possibilidade de corte no fornecimento de água do imóvel ligado à família de Daiane, por suposta inadimplência. No mesmo período, a energia elétrica do apartamento chegou a ser interrompida. A Justiça determinou a religação e proibiu novas suspensões enquanto o caso estivesse sob análise.>
Em agosto, o síndico convocou uma assembleia para deliberar sobre a expulsão de Daiane. A pauta listava 19 pontos, incluindo a acusação de exercício irregular da corretagem, manutenção de marcenaria no apartamento, desrespeito às regras de acesso, constrangimento de funcionários e uso indevido das áreas comuns. Também foram mencionadas supostas ameaças a condôminos, litigância contra o condomínio e exposição do síndico.>
Daiane apresentou defesa por escrito e negou todas as acusações. Ela afirmou que não exercia atividade profissional de forma irregular, que não havia marcenaria no imóvel - apenas montagem eventual de móveis próprios - e que nunca ameaçou moradores ou funcionários. No documento, sustentou ainda que as acusações mais graves eram infundadas, sem registros policiais ou laudos, e que recorrer à polícia e à Justiça era um direito legítimo.>
Apesar da defesa, a maioria dos moradores votou pela expulsão: 52 votos favoráveis à saída, quatro pela permanência e duas abstenções. A decisão determinava que Daiane deixasse o prédio em até 12 horas e mantivesse distância mínima de 100 metros da recepção.>
Decisão judicial>
A medida foi suspensa após recurso apresentado por Daiane ao Juizado Especial Cível. Ela alegou que o condomínio não respeitou o prazo mínimo entre a convocação e a realização da assembleia. O juiz André Igo Mota de Carvalho acatou o pedido, destacando que a legalidade da reunião ainda seria analisada. A suspensão foi definida como provisória até manifestação do condomínio.>
Daiane e o síndico participaram de uma audiência de conciliação, mas não houve acordo. A reportagem não conseguiu contato com o síndico. >