Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Wendel de Novais
Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 10:29
O cardiologista Victor Murad, de 90 anos, que acusa a própria secretária, Bruna Garcia, de se valer da função para envenená-lo e ocultar desvios de mais de R$ 500 mil na clínica dele, sofreu consequências graves por causa do crime. Segundo a denúncia, a funcionária, considerada de confiança, teria misturado arsênio na comida do médico. >
De acordo com relato do médico ao Fantástico, o envenenamento teria ocorrido de forma contínua ao longo de aproximadamente 15 meses. “Cheguei a vomitar sangue, fiquei com anemia e fraqueza”, contou o médico ao detalhar os sintomas que enfrentou durante o período.>
Bruna Garcia teria envenenado Victor Murad
O quadro clínico descrito por Murad reforça a gravidade da denúncia, que passou a ser apurada pelas autoridades como tentativa de homicídio qualificado, associada a possíveis crimes financeiros. Além da suspeita de envenenamento, a secretária é investigada por movimentações irregulares nas contas do cardiologista.>
Ela é suspeita de desviar R$ 544 mil ao longo dos últimos anos na clínica. Bruna trabalhava com Murad desde 2013 e mantinha uma relação antiga com a família do profissional — a mãe dela atuou ao lado do cardiologista por cerca de duas décadas. Por causa desse vínculo, ela administrava as finanças do médico, que não utilizava ferramentas digitais como o Pix.>
"Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Acreditava nela, assim, ela encanta qualquer um. É uma serpente", declarou Murad. O dinheiro, conforme a apuração, teria sido usado para manter um padrão de vida elevado, com viagens internacionais, incluindo passagens pela Disney e hospedagens em hotéis de luxo.>
A suspeita de crime surgiu após a demissão de Bruna, quando uma funcionária encontrou um frasco com arsênio escondido em um depósito do local, no ano passado. Bruna Garcia está presa desde outubro e deve ser submetida a júri popular por tentativa de homicídio qualificado.>
Desvios e veneno>
A promotoria detalha que os desvios eram feitos em valores fracionados para evitar suspeitas. "Eram valores de três, quatro, até dez mil reais. Às vezes duas, três transferências no mesmo dia", descreveu o MP. Para os investigadores, o envenenamento teria começado quando a possibilidade de descoberta das fraudes financeiras se tornou iminente.>
A suspeita é de que o uso de arsênio teria servido como forma de desviar o foco das irregularidades e, eventualmente, eliminar a vítima. Durante esse período, Murad passou a apresentar sintomas graves e de difícil explicação clínica: dores intensas, episódios de vômito com sangue, anemia profunda, fraqueza nas pernas e agravamento dos tremores e da rigidez associados à doença de Parkinson.>
Conforme a polícia, o veneno era misturado à comida e até à água de coco servidas na clínica. Com o estado de saúde debilitado, o cardiologista encerrou as atividades do consultório que mantinha havia mais de 30 anos.>
A investigação também identificou que o produto tóxico foi adquirido em nome do marido da secretária. Ele chegou a ser alvo de apuração, mas a polícia concluiu que não havia indícios de que soubesse do uso de seus dados para a compra.>
A defesa sustenta que não há prova direta de que ela tenha administrado o veneno. Sobre os valores movimentados, os advogados alegam que todas as transações financeiras eram de conhecimento do médico e contavam com autorização dele.>