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Carol Neves
Estadão
Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 10:22
A bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), voltou a defender os resultados preliminares da pesquisa com polilaminina para tratamento de lesões medulares. Em entrevista ao Roda Viva, exibido nesta segunda-feira (23), a cientista afirmou que as próximas etapas do estudo poderão, eventualmente, ser conduzidas sem grupo controle - estratégia considerada incomum e não recomendada por boa parte da comunidade científica. >
A declaração ocorre em meio a uma onda de manifestações de entidades médicas e científicas que pedem prudência na divulgação dos achados. O alerta surge diante da ausência de evidências robustas e do aumento de pacientes que recorrem à Justiça para obter o medicamento por meio de uso compassivo. Até o momento, há 57 solicitações desse tipo, com 28 pacientes já submetidos ao tratamento.>
Organizações como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia reforçaram que o estudo ainda está em fase experimental. Para essas entidades, a divulgação ampla pode gerar expectativas desproporcionais. Elas defendem que qualquer nova molécula cumpra rigorosamente todas as etapas previstas para ensaios clínicos e seja disponibilizada apenas dentro de protocolos formais de pesquisa.>
Paciente diz que recuperou movimentos com tratamento experimental
A polêmica do grupo controle>
Entre as principais críticas feitas por especialistas está a ausência de um grupo controle no estudo inicial. Esse grupo funciona como referência para comparação dos resultados obtidos por quem recebe o tratamento experimental.>
Em pesquisas clínicas, o grupo controle pode receber o tratamento padrão já existente, um placebo (quando permitido eticamente) ou apenas acompanhamento convencional. Sem essa comparação, torna-se mais difícil determinar se eventuais melhoras foram provocadas pela nova substância, por intervenções associadas - como cirurgias e fisioterapia - ou mesmo pela evolução natural do quadro clínico.>
No caso específico das lesões medulares, estudos indicam possibilidade de melhora espontânea entre 10% e 30% dos pacientes. Esse dado impede, ao menos por ora, que os resultados observados sejam atribuídos diretamente à polilaminina.>
O grupo controle é considerado peça-chave para estabelecer relação de causa e efeito e comprovar se os ganhos observados decorrem de fato da molécula em teste.>
Em geral, a fase 3 de ensaios clínicos - etapa voltada à comprovação de eficácia - inclui grupo controle. A polilaminina, contudo, ainda não passou pela fase 1. Mesmo assim, Tatiana admitiu que, dependendo dos resultados das fases iniciais, poderá avaliar a condução das etapas seguintes sem esse formato tradicional.>
Segundo ela, o desenho do estudo "vai depender da realidade". Caso os efeitos se mostrem muito consistentes, pode haver dificuldade para manter um braço da pesquisa sem acesso à substância experimental.>
Questionada se conhece outro medicamento inovador testado sem grupo controle, respondeu "não ter conhecimento" de nenhum caso semelhante. Ainda assim, afirmou que fará "o que achar eticamente correto" e que não "tem nenhum problema" em realizar "coisas novidadeiras". Ela também sugeriu que os próprios participantes poderiam resistir à formação de um grupo controle. "Vai ser a revolta da polilaminina", declarou.>
Resultados iniciais e ponderações>
Durante a entrevista, a pesquisadora destacou que, entre oito pacientes tratados, seis apresentaram algum grau de melhora motora — percentual de 75%, acima da média de cerca de 10% de recuperação espontânea. Apenas um deles, porém, voltou a andar. Os demais tiveram ganhos sensitivos e motores, mas sem recuperação funcional expressiva.>
Neurocirurgiões ouvidos pelo Estadão ponderaram que nem todos os pacientes que chegam sem movimentos após um trauma sofreram lesão medular completa. Em alguns casos, trata-se de choque medular - condição temporária que provoca perda de movimentos na fase aguda, mas que pode evoluir com recuperação parcial ao longo do tempo.>
Tatiana classificou a polilaminina como "muito promissora", mas reconheceu que o estudo ainda está em andamento e exige cautela. Ela também admitiu que a repercussão - intensificada após coletiva realizada pelo Laboratório Cristália em setembro do ano passado - ultrapassou o ritmo habitual da produção científica, contribuindo para o aumento da pressão e das expectativas em torno do tratamento.>