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Alan Pinheiro
Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 18:29
Andar pelas ruas de Salvador durante o Carnaval é encontrar facilmente homens vestidos de branco e azul, com turbantes na cabeça e colares pendurados no pescoço. Essa é a imagem que marca o desfile do Afoxé Filhos de Gandhy, que realizou sua primeira saída no Carnaval de 2026 no início da tarde deste domingo (15). O cortejo começa tradicionalmente na sede, no Pelourinho, e segue em direção ao Campo Grande. >
Antes de ganhar as ruas, a tradição de um afoxé com 77 anos de história é preservada com a realização do Padê. O ritual, típico das religiões de matriz africana, saúda Exu, abre caminhos e pede proteção. No rito, alimentos e bebidas são oferecidos à divindade. Com a bênção concedida, o afoxé pôde iniciar o percurso ao som do ijexá.>
Frequentador assíduo dos Filhos de Gandhy, Ademir José, de 76 anos, explicou por que sempre retorna ao desfile. “É um bloco de paz, onde a gente não vê confusão. Pelo contrário, é um lugar de respeito. Quando a música toca, arrepia. É algo que vem de berço. Eu venho sozinho, mas aqui todo mundo se conhece. Tem gente com 20, 30 anos de bloco. Eu tenho praticamente a idade do Gandhy”, contou.>
Já Marcos Vinícius Silva, de 52 anos, funcionário da Petrobras, tem uma relação familiar profunda com o afoxé. “Meu pai era diretor aqui e me trouxe ainda criança. Eu ajudava a separar fantasias, passava as férias na sede. Depois que ele faleceu, ficou essa herança. Pretendo continuar enquanto tiver saúde. Estar aqui, participar do Padê e pedir proteção a Exu é uma emoção enorme. É gratidão por todos esses anos”, afirmou.>
Neste ano, o tema do desfile é “Nos Caminhos da Comunicação para a Paz”, inspirado em Exu, orixá da comunicação, do movimento e da alegria. A proposta destaca a comunicação como ferramenta para construir pontes entre pessoas, territórios, culturas e gerações, reforçando valores como respeito, diversidade, convivência e não-violência.>
Uma das marcas mais reconhecidas dos Filhos de Gandhy é a vestimenta. Predominantemente azul e branca — referências a Ogum e Oxalá —, a fantasia traz lençóis e toalhas transformados em turbantes.>
Para Darlan, de 45 anos, advogado e professor, que desfila há 16 anos, o figurino dialoga diretamente com o tema. “A comunicação é tudo. Sem ela, nada se sustenta; com ela, o mundo se abre. O Gandhy consegue se modernizar no necessário, mas mantém a essência que faz dele o maior afoxé do mundo. A mensagem de paz continua sendo o principal propósito”, disse.>
Do Pelourinho ao Campo Grande, os adereços, o batuque e o ijexá formaram o tradicional “tapete branco da paz”, perfumado pela alfazema e acompanhado por emoção constante dos participantes.>
Pela primeira vez no desfile, Alessandro Paes, de 52 anos, policial civil do Rio de Janeiro, descreveu a experiência como a realização de um sonho antigo. “Venho a Salvador desde os 6 anos e essa cidade me representa como homem preto e do candomblé. Estar aqui é viver um êxtase. Quando o Padê começa, deixa de ser apenas uma festa e vira celebração espiritual. É a manifestação da beleza do povo preto. Estou profundamente emocionado”, relatou.>
Fundado por estivadores portuários de Salvador em 18 de fevereiro de 1949, o Afoxé Filhos de Gandhy tornou-se o maior afoxé do Carnaval da Bahia. Com seu tapete branco, batuque contagiante e mensagens de paz inspiradas no líder indiano Mahatma Gandhi, o bloco mantém viva a tradição das religiões de matriz africana ao som do ijexá cantado em iorubá. >
Tradicionalmente formado por homens, o afoxé reúne cerca de seis mil integrantes e segue como um dos símbolos mais fortes da cultura afro-baiana na festa. A predominância dos homens, no entanto, não impede que mulheres, crianças e famílias inteiras colem nas cordas para acompanhar a festa.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.>